Algumas impressões avulsas sobre o resultado das eleições

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Porque não houve maioria absoluta de votos em nenhum partido, hoje é o primeiro de muitos dias sem governo. Deixo aqui transcritas algumas das notas avulsas que escrevi sobre a noite eleitoral que registou o pior resultado de sempre do arco da governação (e também do PSD e CDS somados) e o melhor resultado da esquerda da esquerda em eleições. Os comentários transcritos foram sendo feitos no decorrer da noite, com a imprecisão natural das estupefacções e dos entusiasmos. Seja lá qual for a solução de “governabilidade” que vier a ser cozinhada, há neste rescaldo, concluirão no fim, mais razões para celebrar do que para lamentar.

Antes mesmo da contagem dos votos há duas certezas: a austeridade vai continuar a ter votos a mais e a votação nos novos partidos de esquerda será inversamente proporcional à necessidade de novos partidos de esquerda.

Registos eleitorais a ter em conta além do duelo do bloco central e da abstenção: a votação no Marinho Pinto, no PNR, no PAN, no MRPP, no Agir, no Juntos Pelo Povo, no Nós Cidadãos, nos somatórios do BE e da CDU e dos nulos com os brancos. Cada um destes valores dará bons elementos de análise para o espírito dos próximos tempos.

A coligação ganha mas dificilmente o PSD terá mais deputados que o PS, que em qualquer dos casos não se livra do divã. BE e CDU serão terceira e quarta força política, sem ser claro quem fica à frente de quem. Marinho e Tavares podem ser eleitos mas dificilmente terão margem negocial para garantir governos seja com o PSD, seja com o PS. Custa a engolir que haja tanta gente a votar na austeridade mas a única coisa certa é que teremos uma mão cheia de semanas sem governo.

Não que achem coisas diferentes da vida nesta matéria mas convém lembrar que é ao PS, e não ao Cavaco, que cabe decidir se há ou não bloco central.

Até ver as sondagens são o grande vencedor das eleições. Influenciaram e acertaram. Ou vice-versa.

A maioria do eleitorado votou contra os partidos do governo. O resto, infelizmente, é que vai ser a conversa.

O flirt da Catarina ao Costa foi quase indecoroso. Será que ele se fica?

José Rodrigues dos Santos está a perder fôlego com o evoluir da noite eleitoral. Os quasi orgasmos da quasi maioria absoluta da PàF foram-se.

BE e PCP foram claros. Fixaram um preço. Cabe ao PS dizer se paga.

O PS não se compromete. Vai negociar à esquerda e à direita. A noite eleitoral vai durar muitas madrugadas.

Portas e Passos bateram com a porta na cara do Costa, ainda que o primeiro a fazer de polícia bom e o segundo de polícia mau. Ele pode vir a entrar, mas ao preço que a PàF fixou a entrada, devia deixar muita gente no PS a suspirar por Corbyn e a pensar no Pasok. É que foram mesmo muito parecidos os cenário eleitorais que levaram Gordon Brown e Papandreu a deixar governar a direita da direita, em Inglaterra e na Grécia. Resta saber, ainda que se adivinhe, quanto e como o PS vai confirmar a que parte da “família socialista” pertence.

Se o governo for de direita a maioria não é de esquerda. De uma vez por todas, pelo menos isso, vai ficar claro.

O BE, contra todas as expectativas, teve o seu melhor resultado de sempre. Beneficiou de vários desastres, à sua esquerda e à sua direita, mas em qualquer caso estão de parabéns, por mais que isso provavelmente signifique um retrocesso na urgente recomposição da esquerda para que esta se torne capaz de mais do que vitórias de Pirro.

O arco da governação teve o seu pior resultado de sempre, e a esquerda da esquerda o melhor. Só os partidos do governo perderam perto de um milhão de votos. Era sabido que não ia haver soluções mágicas, mas estes números, por mais que não façam manchetes, são dos mais relevantes destas eleições.

O PAN elegeu. Os animais e a natureza já têm representação parlamentar.

O Marinho teve mais mil votos que o Mrpp, que por sua vez teve o dobro do Livre, que por sua vez teve mais dez mil votos do que o PNR, que por sua vez teve mais de cinco mil votos do que o Agir, que por sua vez teve o dobro dos monárquicos. No Portugal dos Pequeninos não é só o rei que vai nu.

550 mil votos no BE, 445 mil na CDU, 200 mil nos novos partidos e outros 200 mil de brancos e nulos, dá perto de 1 milhão e meio de eleitores descontentes. Se somarmos a isto 1.7 milhões de votos no PS, dá mais de três milhoes de votos contra o governo, que perde 820 mil votos e não ultrapassa a fasquia dos dois milhões. Quem permitir que a minoria governe que se cuide. As favas não vão sair baratas.

Saíram mais pessoas para a rua nos últimos quatro anos contra o governo do que aquelas que votaram nele. Esta é a conta que conta para a propalada “estabilidade governativa”.

A PàF ficou muito mais perto de perder as eleições do que da maioria absoluta. Ainda assim, o PSD, só na Madeira, teve mais votos que todos os partidos não parlamentares (e também que o PAN) em todo território nacional.

Abaixo do MRPP nenhum partido terá direito a subvenção financeira, pois nenhum deles chegou aos 50 mil votos. O fracasso político de todas as cisões do BE também vai ser medido em euros. Quantos aos fascistas do PNR vão continuar sem dinheiro público para multiplicarem a intolerância e a xenofobia.

Se metade da cólera que vejo ser dirigida contra a minoria absoluta do povo que votou na PàF ou não foi votar fosse bem dirigida, talvez o povo não estivesse tão órfão de sujeito político e mais gente encontraria razões para não deixar de ir às urnas.

Ainda sobre a legitimidade democrática: 63,2% do eleitorado e a abstenção não votaram no governo que diz ter condições para continuar a governar e oferecer “estabilidade” ao país.

Esperemos por tempos melhores para atirar a toalha ao chão. E sobre estas eleições, é tudo.

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