“Lénine sem comboio selado”, por Carlos Marques

comboio

Acabei de ler a revista teórica n.º 6 do PML(RC). Para além de algumas considerações sobre a influência do liberalismo dentro do Partido, que subscrevo, este número vem também com um artigo interessante sobre o Podemos, com a posição do partido sobre o maoísmo (sobre isto falarei noutra altura) e um artigo sobre o imperialismo que é dogmático e esquerdista.
Relativamente à caracterização do imperialismo, os camaradas dizem:
1. “el mundo ya se encuentra repartido, por lo que los imperialistas se repartirán los mercados y los territorios por la fuerza enfrentándose entre ellos.”

2. “La guerra de Ucrania (…) corresponde a una guerra que representa el conflicto entre dos bloques imperialistas, el americano y el ruso, por el control de un territorio, por lo que no podemos apoyar la guerra desde una perspectiva de clase.”

A primeira conclusão a retirar é que se todo o mundo já está dividido em esferas de influência, então não podem haver guerras anti-imperialistas, nem guerras de libertação nacional. Toda a guerra seria de um bloco contra o outro. Toda a guerra implica pisar no quintal do vizinho.

Esta posição é dogmática porque não admite que o mundo mudou. Não admite que a estrutura do imperialismo é hoje muito diferente daquela que deu origem à primeira grande guerra, sobre a qual Lénine teorizou. E ao mesmo tempo é esquerdista porque fecha todas as portas a alianças tácticas no caminho para a Revolução. Por partes.

Hoje em dia não existem “blocos imperialistas”. A Rússia e a China não são “blocos imperialistas”. São países capitalistas dentro de uma pirâmide imperialista, com ambições de chegar ao vértice. O que existe hoje é uma pirâmide imperialista formada por todo o capital monopolista e com os EUA-UE-Japão no vértice da pirâmide. Há uma moeda de reserva internacional, há um banco mundial, há um fundo monetário internacional, há uma organização mundial de comércio, há um exército claramente hegemónico que policia toda a estrutura. Um dado é o retrato disto, o número de bases militares externas de cada país: China – 0; Rússia – 10; EUA ~ 600. Se existissem “blocos imperialistas” o Irão não tinha sido empurrado para a mesa das negociações, teria escolhido o bloco B por oposição ao bloco A.

A posição dos camaradas é esquerdista porque acham que a guerra só é justa se impoluta, sem alianças tácticas de nenhuma espécie com os imperialistas russos, nem sequer a estranha circunstância histórica de disparar para o mesmo lado. Esta posição higiénica nada tem a ver com a defesa da independência e hegemonia do proletariado. Esta posição apenas impede o proletariado de manobrar e aproveitar as contradições imperialistas para crescer e ganhar força.

O princípio leninista é fazer alianças tácticas com todos, na medida em que nos aproximem do objectivo. Faremos alianças com os aliados estratégicos, com aliados tácticos, com futuros inimigos. Como disse Lénine citando Bebel “até com a avó do diabo” se for preciso.

Ora, os camaradas que combateram os fascistas em Donbass não estavam a apoiar as ambições imperialistas russas – estavam a combater os fascistas em Donbass. Estavam a disparar para o mesmo lado, sim. Mas essas eram as circunstâncias concretas do combate. Nós não fazemos as guerras como queremos.

As contradições imperialistas são o oxigénio da Revolução. O imperialismo não nos vai servir uma guerra justa de libertação social, limpinha, pura e sem ingerências imperialistas. Isso é fantasia. Nós não vamos conseguir disparar contra todos ao mesmo tempo, e os imperialistas sabem disso, jogam com isso. Nós também jogamos com isso, sabendo que eles não confiam em nós.

Eles sabem que com revolucionários à porta, a ausência de guerra não é paz, é cessar-fogo. E foi por isso que eliminaram o comandante Mozgovoy.

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