Obituário – Bluretália

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( O texto que se segue é parte integrante de um livrinho da &etc. Chamei-lhe Navio. Revi-o letra a letra com o Vitor Silva Tavares, lá na Rua da Emenda, em Lisboa. Ele tinha na mão um lápis a que chamava computador. Findo o primeiro trabalho de revisão seguiram-se outras visões lá no sítio ou via telefone com fio.  Um dia, já quase no fim das revisões almoçámos um almoço cheio de histórias que foram parar a África. Já lhe tinha ouvido falar do Areal e de um gorado atentado de ovos contra o ele. A capa do Navio foi o Cabo das Tormentas, uma carga de trabalhos. Aquilo tinha que bater certo com o cânone. O da &etc, claro está.  À décima tentativa, ou décima primeira, perdi-lhes a conta, enviei uns cadernos com desenhos a tinta para apreciação. O Vitor Silva Tavares telefonou-me com artes cantadas de telefonista a dizer que gostava e que pretendia compôr algumas páginas do Navio com os desenhos. Eu disse-lhe que sim. O livro nasceu dois ou três meses depois do previsto. A vida é assim, acontece, ou não acontece de todo quando menos se espera. Cus de galinha é o que mais há por aí).

Bluretália

Ah! Hoje vou deixar aos pássaros todos os meus pertences e haveres. Tudo quanto tenho será deles, pois temo que se perca o encanto de possuir. Os retalhos de papel onde desenhei as receitas da vida incerta, as fotografias de família que mostram aquelas pessoas de quem lhes perdi o nome da memória, os colares de contas vindos das aldeias mágicas de certas regiões da África, as penas das aves muito raras e as bolas de naftalina que herdei da minha mãe, tudo, mas tudo mesmo, será deles. Também lhes darei os meus frascos de cheiros onde guardei anos a fio os aromas das minhas romãs de jardim. (Outras coisas. Hei-de dar-lhes outras coisas que são tudo o que tenho). Aos pardais da cidade quero deixar-lhes um especial bolor azul-esverdeado que guardo do pão velho que não comi. Aos melros, o assobio das manhãs pela rua fora até ao sítio dos pastéis de nata. Aos noitibós, aquela hora especial da madrugada que o sono não chega a tocar. Deixo aos milhafres, em troca de cores para fundos brancos de linhos crus, quase todas as imagens do infinito. Aos outros deixo-lhes o que sobrar do meu espólio pessoal de inventos sem pretensão, de inutilidades, as máquinas que construí para as guerras que não cheguei a travar.

Já decidi, vai tudo para os pássaros. E não é de agora esta decisão. Já a tomei há muito tempo. Faltou-me mais cedo a coragem para o fazer. Deixo-lhes tudo, até o pouco de bom senso que me resta para avaliar clássicas situações de risco. Fico apenas com o penico de esmalte para queimar incenso e alguma roupa de vestir para quando sair à rua. Deixo-lhes tudo, pronto.

Enquanto não chega o pico de Maio, vou esperar para ver uma Lua de azeite. Na cabeça virada a Sul vagueiam a árvore do mel que tenho suspensa no fundo do terraço  e vasto laranjal  de muitas cores. Aguardo, também, um outro vento para que na sua companhia possa alegre beber vinho e ouvir novas cantigas das flores.



About JMGervásio

Sou pessoa alta, magra por criação, amante de velocípedes e de quase tudo que implique não fazer à segunda - quero dizer, sou do tipo espontâneo. Licenciado em altos estudos artísticos na ESBAP, tenho, desde lá, desenvolvido uma certa tendência para o comércio a retalho e agricultura de terraço. Possuo momentos de grande felicidade e civilidade que nem sempre são devidamente apreciados.

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