Notas para uma crítica radical do turismo (III)

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O turismo, uma invenção do capitalismo

“Subproduto da circulação das mercadorias, a circulação humana considerada como um consumo, o turismo, reduz-se fundamentalmente à distracção de ir ver o que se tornou banal” (Debord)

Tornou-se um hábito, nos múltiplos comentários que cada vez mais se ouvem sobre o fenómeno turístico, faltar uma definição do que é efectivamente o turismo. Para o senso comum, o turismo é simplesmente um processo que resulta das pessoas viajarem de uns sítios para os outros, independentemente das práticas concretas que tenham nos sítios para onde viajam. Criou-se assim a ideia de que entre viajar e fazer turismo não existe nenhuma diferença. Seriam sinónimos. E, como hoje quase todos viajam, dentro dessa lógica quase todos somos turistas – pelo que praticamente ninguém se poderá já queixar dos cada vez mais propalados impactos do turismo, facto que seria tão absurdo como um automobilista inveterado queixar-se dos impactos da infinita disseminação de viadutos e auto-estradas pelas paragens mais recônditas do território.

Na definição mais curta e mais certeira que conheço, acima enunciada, “o turismo é a circulação humana entendida como um consumo”. Trata-se portanto de um modo de viajar ao qual é inerente a circulação de capital. De acordo com esta definição, o turista é assim, não todo aquele que viaja, mas apenas aquele que entende a viagem como o produto dos serviços e das mercadorias que lhe vão sendo gradualmente disponibilizados. Visto que aquilo que em primeiríssimo lugar o turista está disposto a consumir é o território, tudo aí se mobiliza para criar mercadorias, seja na esfera da cultura (arquitecturas, monumentos, paisagens, lugares, infraestruturas, artefactos, etc.), seja na esfera da natureza (florestas, rios, praias, montanhas, oceanos, etc.). O turismo resulta assim da apropriação do território pelo capitalismo, sendo que turismo é o modo de ‘viajar’ que é próprio do capitalismo.

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Fora do capitalismo não existe turismo. As últimas tribos nómadas não contactadas da América do Sul, por exemplo, viajam, mas desconhecem o turismo. Vêem-se também frequentemente populações ciganas nómadas viajarem pelo Alentejo, elas que também desconhecem o turismo. Mas não só no seio de grupos pré-capitalistas a viagem se opõe ainda ao turismo. No seio da nossa própria sociedade capitalista, há também quem, sem a mediação mercantil operada pelo turismo, continue a viajar motivado, não pelo consumo de mercadorias, mas por estímulos de uma ordem completamente diferente: a construção de uma amizade distante, o conhecimento profundo de uma outra cultura, a descoberta de novas comunidades e respectivas formas de viver ou, muito simplesmente, a mera atracção pela deriva.

Recentemente, o Renato escreveu por estes lados um texto que, um tanto inocentemente, fazia dos turistas “o garante de que há quem possa ganhar a vida nos bairros sem ser estudante, hipster ou artista endinheirado”. Segundo ele, o turismo teria uma grande virtude que os seus críticos costumam esquecer: os donos dos pequenos comércios “como a Sô Dona Joaquina ou o Sôr Francisco”, graças aos mal-amados turistas, “voltaram a ter os seus estabelecimentos cheios de gente, de todos os tipos de gente.” Esta é precisamente a virtude do turismo que também tem levado Cavaco Silva, e tantos outros pregadores da economia capitalista, a apresentá-lo como um fundamental “criador de emprego” e que terá inspirado o governo a fazer uns sorridentes cartazes de propaganda para as eleições que se aproximam.

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No fundo, o que temos aqui são vários ecos de uma mesma visão romântica do fenómeno turístico, segundo a qual, e apesar de alguns constrangimentos que possa trazer, o turismo é um factor de dinamização da economia, nomeadamente das pequenas empresas (no exemplo do Renato, o estabelecimento da Sô Dona Joaquina ou do Sôr Francisco). E é este mito de que o turismo contribui para a economia no seu conjunto (as grandes, mas também as pequenas empresas; os ricos, mas também os mais pobres) que gostaria aqui de desmontar.

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Enquanto actividade económica própria do capitalismo, o turismo não cria igualdade na economia, ele contribui para criar justamente o seu oposto. Que, aqui ou acolá, um pequeno estabelecimento possa vender mais umas minis, uns cornettos ou umas garrafas de água por conta do afluxo turístico são peanuts que não mudam rigorosamente nada nestas contas. O desenvolvimento recente do negócio imobiliário em Alfama é um exemplo que o prova: em vez de beneficiar directamente os moradores do bairro, que vêem rendas antigas aumentar exponencialmente, a musealização turística do bairro (nomeadamente pela recuperação de centenas e centenas de antigos edifícios) está a ser promovida por empreendedores e investidores (os novos proprietários do bairro) que reconvertem edifícios inteiros de habitação em apartamentos para alugueres de curta duração. Uma classe de novos proprietários, mediada por meia dúzia de agências de mediação internacionais, reconverte assim o território à medida do capital que investe; um território que passou a excluir quem antes o habitava. Que significado devemos portanto atribuir a que, no meio disto, se vendam em Alfama mais umas minis no café de sempre?

Se o turismo fosse efectivamente uma fonte de enriquecimento para todas as Sô Donas Joaquinas, então a Madeira e o Algarve, pelo elevadíssimo afluxo turístico que desde há décadas registam, não seriam as regiões miseráveis que efectivamente são, povoadas pelos seus exércitos massivos e precários de empregadas de limpeza e de cortadores de relva, mantidos num estado de semi-analfabetismo e de eterna precariedade para poderem ser explorados até ao tutano das suas capacidades ao serviço da coisa turística. O grosso do capital que o turismo faz afluir a todas as regiões turísticas do planeta não é portanto distribuído equitativamente pelos diversos agentes económicos, concentrando-se nas mãos de uma minoria cada dia mais milionária. Não espanta por isso que, em 2015, se esteja a inaugurar em Lisboa um novo hotel a cada dezassete dias que passam.

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As fotografias que acompanham este texto documentam a inauguração do Hotel Myriad, Lisboa, 2012

Da mesma série:

Notas para uma crítica radical do turismo (I): A falsificação do real

Notas para uma crítica radical do turismo (II): O turista – esboço de definição

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

6 thoughts on “Notas para uma crítica radical do turismo (III)

    1. Acho que não é tanto aí que discordamos – a minha crítica do turismo não tem nada contra os ‘estrangeiros’. Se há pessoa que gosta de viajar (o que não implica que goste de consumir a versão mercantilizada do território que é expressamente fabricada para o turismo) e, nesse sentido, ‘ser estrangeira’ sou eu.

      Discordamos mais no ponto em que eu não vejo que seja o turismo a vir acrescentar grande coisa ao negócio das sô donas Franciscas deste país ou de qualquer outro país (e esse foi o argumento, o único creio, que contrapuseste aos turistofóbicos xenófobos). Enquanto actividade capitalista que é, o turismo não cria nenhuma igualdade na economia/sociedade. Basta ir ao Algarve ou à Madeira e ver a miséria profundamente instalada para percebê-lo. Ou a Alfama. Ou ao Egipto. Ou à Tunísia. Ou à Turquia. Ou às favelas do Rio, recentemente integradas no roteiro turístico. O turismo convive sempre com a miséria mais profunda, porque o grosso do capital (99%) que o turismo faz circular não vem beneficiar os pequenos agentes da economia. Os estudos sobre o turismo em todas as partes do mundo demonstram-no.

      Por isso, argumentar contra os turistofóbicos xenófobos (e sim devemos argumentar contra eles, mas não desta forma) que o turismo é melhor do que o abandono e que Marbella (capital da máfia na Península com as suas centenas de milhares de apartamentos ilegais) é melhor que uma Alfama decrépita (será mesmo melhor?) é capaz de não ser a melhor forma de argumentar contra eles. É possível argumentar contra a xenofobia dos anti-turistas sem ser necessário partir para a defesa do turismo, que não é outra coisa senão uma indústria capitalista: a redução da experiência da viajem ao consumo de mercadorias.

      Abraço.

  1. Gostei de ler o texto apesar de tudo. É verdade que o turismo actualmente é profundamente capitalista, é verdade que a hotelaria em Portugal é extremamente mal paga, e é verdade que o turismo cria desigualdade.
    Mas o teu texto despreza a curiosidade do ser humano, a necessidade de ver, conhecer etc. Dedicas apenas um paragrafo e isso é algo incontornável.
    Já Pitagoras(o do teorema) passou uma parte da sua vida entre o Egipto e Babilonia, tendo depois regressado de novo para a Grécia.
    Provavelmente o país em que o turismo se aproximou primeiro do turismo dos nossos tempos, foi o Japão durante o periodo Tokugawa. Existiam imensos albergues nas estradas para os viajantes e eram editados livros/diários de viagens sobre locais que pudssem ser considerados interssantes de visitar. Esses livros eram um autêntico sucesso, e as pessoas viajavam para todo o lado com o objectivo de conhecer os locais que liam nesses livros.
    Mas…Não é o turismo que é errado. O problema aqui, é que mais uma vez, o capitalismo apoderar-se de algo e desvirtuar isso mesmo. Aconteceu com a arte em geral, com o desporto, com a internet, com a agricultura e inevitavelmente…com o turismo. Todas as coisas boas que o ser humano desenvolveu e irá desenvolver, irão ser desvirtuadas pelas lógicas capitalistas, porque praticamente em tudo, há uma boa oportunidade de fazer dinheiro.
    Ora o capitslismo cada vez mais está a padronizar o planeta e em todo o lado temos a sensação de que tudo é igual. As mesmas cadeias hoteleiras, os mesmos restaurantes, as mesmas lojas, os mesmos centros comerciais etc. E aí é que a citação que colocas no inicio faz todo o sentido.
    O ser humano irá sempre viajar, independentemente do modelo economico-financeiro vigente, ou inexistência do mesmo.
    Portugal, não pode é continuar a permitir o que tem vindo a suceder nos últimos anos(últimos 30 sensivelmente). Quando os estrangeiros começaram a visitar Portugal na década de 60, fizeram-no porque a Espanha começava a estar demasiado cheia, os preços demasiado elevados e viram em Portugal o mesmo clima, as mesmas prais e um país onde realmente se poderia encontrar sossego, como seriam as aldeias de Albufeira, Quarteira ou Portimão nesses tempos. Infelizmente, permitiu-se que essas regiões estejam dependentes do turismo e actualmente não produzam muita coisa útil para o país. O sul de Portugal e o sul de Espanha actualmente têm poucas diferenças, são capitalistas, padronizados, insípidos.

    1. Caro Slint, quando dizes com muita razão que “o teu texto despreza a curiosidade do ser humano, a necessidade de ver, conhecer etc” e que eu dedico “apenas um paragrafo e isso é algo incontornável”, eu gostava de lembrar-te o primeiro parágrafo do primeiro texto desta série de posts dedicados ao turismo:

      “Viajar por outros mundos é uma coisa séria. Sairmos por um tempo do nosso mundo para mergulharmos na rotina de outro mundo, guiados exclusivamente por quem o habita, é algo de extraordinário e único. Quem já o experimentou sabe que marca profundamente, como poucas experiências na vida: quando regressamos ao nosso mundo, vimos transformados; vimos diferentes, enriquecidos de novos saberes e perspectivas para transformar o quotidiano.

      Mas essa imersão radical noutros mundos está em vias de extinção. Porque o turismo se tornou hegemónico na mediação das viagens dos consumidores contemporâneos.”

      Viajar é fascinante. Alimentar a curiosidade também. Por isso é que urge criticar radicalmente o turismo, essa actividade económica que esvazia tanto o viajar como a nossa curiosidade, impondo-lhes mercadorias e experiências planas, sem profundidade nem matizes, concebidas única e exclusivamente para serem vendidas.

      Saudações do campo

  2. O facto de o turismo moderno ter as suas raízes no Grand Tour pode ajudar a explicar muita coisa, nomeadamente o turismo como “apropriação do território” pelo capitalismo e “modo de viajar capitalista”. Não é displicente que o Grand Tour nasça no advento da Revolução Industrial. É também por isso que o turismo não poderá nunca trazer benefícios à Dona X, porque ele nasce de um gesto (colonialista) de apropriação e consumo do “outro”, seja ele uma pessoa ou uma paisagem. Faltou talvez essa genealogia para aprofundar ainda mais o “fenómeno”. De todos os modos, gosto muito desta série de textos.

  3. Obrigado Inês, pelo seu crítico comentário. E, sim, tem toda a razão, num artigo posterior deverei ir à genealogia do turismo para conseguir elucidar ainda melhor o que hoje ele representa (que é afinal o propósito desta série). Espero reencontrá-la por cá em breve!

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