Corbyn e agora?

A vitória de Corbyn parece ter provocado uma onda de esperança não só nas hostes da classe trabalhadora britânica como também um pouco por todo o proletariado europeu. Quem diria que, no dia 12 de Setembro de 2015 o New Labour refém do blairismo e da Terceira Via de Giddens desde 1994 iria ser tomado de assalto por um deputado da velha guarda social-democrata do partido e com uma votação tão expressiva (59,5%).

Se é verdade que a sua eleição permitiu expor de forma clara o processo de agudização das contradições de classe que vinha em crescendo e foi camuflada pelo modo de funcionamento do sistema eleitoral maioritário que resultou na vitória dos Tories – a possível explicação até para o facto da alternativa política ter surgido no interior de um grande partido e não por via de uma outra estrutura partidária – também é verdade que nenhuma declaração do candidato trouxe à tona nem a natureza burguesa do seu partido nem do próprio Estado, enquanto órgão alienado de dominação de uma classe sobre a outra. Os grandes motes lançados vão de encontro com uma oposição à política de austeridade, algumas medidas de redistribuição de rendimento e até renacionalizações, assim como uma travagem nas ofensivas imperialistas praticadas pelos conservadores e seus antecessores; mas sem percebermos muito bem o que vai acontecer daqui para a frente.

O Labour enquanto máquina partidária continua na mão da sua ala direita, para não falar dos seus próprios representantes políticos. Caso Corbyn chegue às próximas eleições legislativas, esse momento representará uma enorme prova de resistência contra grande parte dos seus quadros e das campanhas da burguesia, ou então um percurso feito de cedências e agachamentos. E aqui se coloca a grande questão. No caso de afastamento, recuo ou simples e inevitável aburguesamento do Labour em funções executivas, que partido surge como alternativa para mobilizar, organizar e aprofundar o elemento consciente de toda essa base social proletária de apoio surgida desta campanha interna e que aumentará nos próximos tempos? Quando ficar provado para muitos dos agora apoiantes de Corbyn que o Estado não concilia interesses inconciliáveis e é preciso tomar uma posição de classe para enfrentá-lo e, em última instância, suprimi-lo?

Parece uma interrogação algo distante do presente, mas no dia 11 de Setembro foram muitas as evocações da tragédia em que culminou o processo chileno. Se Allende e outros não souberam beber dos balanços de experiências revolucionárias escritos por Marx, Engels ou Lenine, não quer dizer que estejamos diante de lições ultrapassadas pela história.

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