“Reformismo, uma questão de classe (4)”, por Carlos Marques

pamekke

Acções desligadas das massas e o insurrecionalismo espontaneísta

Outro dos mantras do reformismo são as acções desligadas das massas ou actos isolados. A prática revolucionária está desligada das massas, dizem. Mas como o objectivo dos reformistas é levantar poeira e deixar um estigma a pairar no ar, nunca explicam nada. O que são acções desligadas das massas? Serão acções que as massas não praticam?

Se esse é o caso, então não há acções mais isoladas das massas que as que se praticam nas frentes institucionais (sindical e parlamentar). As massas não estão no parlamento a aprovar projectos de lei. As massas não estão nos tribunais nem se sentam à mesa da concertação social.

A situação é ainda pior. Todas as actividades de massas se desdobram das frentes institucionais (eleições, passeatas, comícios, excursões, magustos e quejandos) e não servem senão para confirmar a ausência do papel das massas enquanto actor político. As massas são no actual contexto o objecto da política, consumidoras de espectáculo político.

O mantra não está obviamente reservado para as frentes institucionais. O mantra está reservado para as acções violentas e/ou que violem a legalidade burguesa. Estejam essas acções isoladas das massas ou não, o que para os reformistas é uma questão secundária.

Então quando é que as acções estão isoladas das massas?

Vou ensaiar uma resposta: uma acção está desligada das massas quando uma parte delas não tem a capacidade de a compreender politicamente, e ao mesmo tempo tem força suficiente para travar todo o movimento. Ou seja, como consequência de um acto isolado, o movimento pode deixar de responder positivamente à escalada das contradições. Os actos isolados não têm tracção social, não arrastam o movimento porque não têm força, não são percebidos politicamente.

Acções desligadas das massas tanto podem ser acções avançadas, como a actuação de destacamentos militares; como podem ser acções recuadas, como a exigência de aumento do salário mínimo. No primeiro caso as massas podem não estar preparadas – assustam-se e recuam; no segundo caso podem desmoralizar-se e desmobilizar. Uma acção isolada das massas pode ser realizada por duas pessoas ou por duas mil.

Há acções, que pela sua natureza técnica, só podem mesmo ser realizadas por poucas pessoas: uma expropriações de fundos tem que ser realizada por um comando armado; um projecto de lei tem que ser escrito por uma comissão especializada.

E como aferimos se uma acção está desligada das massas?

Através da prática, e da teoria (que é a prática acumulada). Os revolucionários vão errar muitas vezes, seja por acção ou por omissão. Mas ao actuar vão saber se erraram ou não – o reformismo nem isso sabe. O reformismo não sabe a verdade, porque por definição está impedido de a procurar.

A desenvolver a ciência da revolução que é o marxismo-leninismo, só podem existir organizações revolucionárias, porque só as organizações revolucionárias podem aspirar ser científicas. Só uma organização que combine todas as formas de luta – a luta pacífica com a luta armada, a luta legal com a luta ilegal -, é que tem os tubos de ensaio na mão para poder fazer ciência. Sem prática revolucionária não se faz teoria revolucionária. Uma organização revolucionária pode saber que arrasta um movimento que não está preparado para a luta armada. Uma organização reformista não pode saber nada disto, porque essa não é uma possibilidade real.

Uma organização revolucionária estuda as experiências revolucionárias dos outros países, procura adaptá-las à realidade do seu país, leva-as à prática e depois retira conclusões.

O reformismo não pode sequer falar em teoria revolucionária. O reformismo é obscurantista por definição. O reformismo é feitiçaria, é voodoo, magia negra que as classes intermédias servem ao proletariado.

O insurrecionalismo espontaneísta como saída para o reformismo decadente

Os reformismos mais folclóricos e excêntricos estão a crescer e isso não é necessariamente mau. O que isso significa é que o reformismo reage à pressão das bases e tenta manter um mínimo de acutilância: veste cores vermelhas e introduz palavreado revolucionário. Poderá até (imagine-se!!) introduzir a Revolução Socialista como actual etapa de luta.

Não obstante, enquanto não estoira na cabeça dos militantes a contradição entre programa e prática (programa revolucionário-prática reformista), a ideia de Revolução vai tomando diferentes formas. O insurrecionalismo espontaneísta é a forma actual do reformismo mais folclórico. O exemplo mais acabado disto é o Partido Comunista Grego.

O insurrecionalismo espontaneísta é a ideia (não a teoria) de que o proletariado toma o poder e expropria a burguesia num “momento” revolucionário, onde tudo se aprende, tudo se faz, tudo se transforma, e as massas avançam de rompante e tomam tudo. É a blitzkrieg revolucionária. Tudo estava calmíssimo mas o paiol rebentou!!! Numa palestra dum pateta esloveno (espécimen de filósofo a armar ao pingarelho), este chega a afirmar que vai cortar os colhões à burguesia sem ela dar por isso. Os alarves que estão no auditório aplaudem e riem-se muito, mas riem-se no fundo da sua própria insignificância.  É a revolução pela surra.

Esse “momento” é o segundo momento. E como já devem estar a imaginar pela conversa, nós estamos no primeiro momento.  E no primeiro momento é preciso ter calma e paciência, para não espantar a caça. Na Índia os camponeses estão levantados em armas em quase um terço do território há 50 anos, mas isso é porque eles são estúpidos. Se eles percebessem alguma coisa do assunto, arrumavam as armas e candidatavam-se às eleições.

O reformismo folclórico fala em massas, clama pelas massas, diz que as massas são o factor determinante. Não diz o que é que as massas têm que fazer e a razão é simples. Quem não se quer pôr à frente dos canhões, espera pelas massas. Quem não quer fazer funções de vanguarda, necessárias ao avanço do processo, espera pelas massas.

Para resumir: na actual fase do imperialismo, e mais ainda no coração do imperialismo, a luta pelo poder assume a forma de guerra prolongada. Quem não prepara o proletariado para isso, apenas semeia ilusões.

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s