“Francisco Martins Rodrigues”, por Carlos Marques

fmrAqui vai o spoiler dum livro obrigatório: ‘Francisco Martins Rodrigues – Documentos e papéis da clandestinidade e da prisão’ coligidos pelo historiador João Madeira, numa edição conjunta da Abrente e Ela por Ela.

Sem nunca ter lido a maioria dos documentos, encontrei-me a rever os meus próprios argumentos contra o revisionismo do PCP, e no final fiquei com uma radiografia muito mais nítida sobre as origens do problema.

“é uma concepção que deixa nas mãos dos “militares democratas e patriotas” (isto é, dos oficiais) o destino do levantamento antifascista” pag. 94.

Esta citação é do texto ‘Luta pacífica e luta armada no nosso movimento’ de Dezembro de 1963. Este texto é a afirmação pública da cisão do Chico Martins com o revisionismo. É o documento mais importante na minha opinião.

Neste texto o Chico Martins vai prever que o movimento ficará nas mãos dos oficiais se o PCP não avançar para formas de luta superiores – é óbvio que se não se preparam, nem se armam as massas para um “levantamento nacional”, este terá de ser feito por quem tem as armas. Mas por razões de cálculo, Chico Martins defende as taras pacifistas anteriores e refere que, apenas a partir desse momento, a guerra colonial e o aparecimento de acções armadas (como o assalto ao quartel de Beja) tinham colocado ao partido tarefas novas, e eram expressões de luta que o partido tinha de organizar para não ser ultrapassado. E estava absolutamente correcto apesar de aplicar aqui a conhecida técnica retórica que se designa por captatio benevolentiae.

“Sindicatos verdadeiros não podem sair dos Sindicatos Nacionais, do mesmo modo que uma assembleia democrática jamais sairá da “Assembleia Nacional”, e uma ideia revolucionária jamais brotará da cabeça de Álvaro Cunhal” pag. 173

No entanto para percebermos a posição do PCP perante o problema da violência e da luta armada, temos de recuar até à greve insurreccional de 18 de Janeiro de 1934 (“mais uma anarqueirada” como lhe chamou Bento Gonçalves). O PCP retira conclusões pacifistas e reformistas deste período de luta encarniçada contra a repressão fascista.

Num documento posterior escrito na prisão sobre a formação da classe operária em Portugal, Chico Martins vai então admitir que a posição de Bento Gonçalves representava a “tendência reformista” face ao anarco-sindicalismo. Ou seja, uma resposta errada aos erros então cometidos. Uma conclusão pacifista, e acrescentaria eu, liquidacionista. Depois de serem ilegalizados os sindicatos livres e com uma forte corrente para resistir e os organizar na clandestinidade, a tendência reformista do PCP atira a toalha ao chão e empurra o movimento operário para dentro dos sindicatos fascistas. Isto já é o fim de linha.

Isto é algo que não dá para corrigir sem uma guerra contra o reformismo dentro das estruturas e depois fora delas acaso de expulsão. O Chico Martins liderou a tentativa mais forte para acertar agulhas e pôr o barco no sentido correcto.

Daqui para a frente o movimento começa a chafurdar em estigmas até alguém ter força e coragem para romper. Não há de muito novo no panorama revolucionário até à cisão do Chico Martins. A política da unidade dos portugueses honrados tem apenas o interregno do desvio de direita (“o afastamento pacífico de Salazar”). E o fascismo foi passando sem resistência até os oficiais se fartarem.

A espaços lá tínhamos o PCP a criar espantalhos como os GAC ou a ARA, para dar aparência de luta à pasmaceira. Antes de a FAP executar o Mateus, só tinha morrido um polícia executado pelo militante comunista Manuel dos Santos durante um comício-relâmpago em Alcântara em 1935 (durante o período da anarqueirada portanto). E eis tudo.

Os apêndices finais são simplesmente chocantes. Está lá a circular de expulsão do Chico Martins e as respostas de outros camaradas. Aqueles documentos são a fotografia clara de um partido esterilizado, onde não se pratica a crítica e a autocrítica, onde o debate político sobre o cisma no movimento comunista internacional não aparece. Na verdade, esses debates sobre o XX Congresso e a dissidência dos camaradas chineses e albaneses passaram ao lado de toda a militância. A grande preocupação do rebanho era perceber como é que um bandido daqueles tinha chegado à Comissão Executiva do Comité Central.

E se quiserem saber mais, leiam o livro…

P.S. Era importante que na próxima edição se fizesse um melhor trabalho de revisão. O texto tem demasiados erros e gralhas. 

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