Não há pior violência do que a violência da ignorância

REFILE - CORRECTING BYLINEATTENTION EDITORS - VISUALS COVERAGE OF SCENES OF DEATH OR INJURYA young migrant, who drowned in a failed attempt to sail to the Greek island of Kos, lies on the shore in the Turkish coastal town of Bodrum, Turkey, September 2, 2015. At least 11 migrants believed to be Syrians drowned as two boats sank after leaving southwest Turkey for the Greek island of Kos, Turkey's Dogan news agency reported on Wednesday. It said a boat carrying 16 Syrian migrants had sunk after leaving the Akyarlar area of the Bodrum peninsula, and seven people had died. Four people were rescued and the coastguard was continuing its search for five people still missing. Separately, a boat carrying six Syrians sank after leaving Akyarlar on the same route. Three children and one woman drowned and two people survived after reaching the shore in life jackets. REUTERS/Nilufer Demir/DHAATTENTION EDITORS - NO SALES. NO ARCHIVES. FOR EDITORIAL USE ONLY. NOT FOR SALE FOR MARKETING OR ADVERTISING CAMPAIGNS. THIS IMAGE HAS BEEN SUPPLIED BY A THIRD PARTY. IT IS DISTRIBUTED, EXACTLY AS RECEIVED BY REUTERS, AS A SERVICE TO CLIENTS. TURKEY OUT. NO COMMERCIAL OR EDITORIAL SALES IN TURKEY. TEMPLATE OUT

Há cinco anos, a propósito da ocupação da Palestina e dos sucessivos castigos de Israel, publiquei no 5dias esta imagem. A turba de indignados, à data, fez-se sentir, como pode ser confirmado pela caixa de comentários. Na sequência das críticas, questionei se aquilo que perturbava os espíritos mais sensíveis seria “a violência das imagens ou as imagens da violência, tendo ilustrado essa reflexão com várias fotografias muito violentas de alguns dos principais conflitos do século passado.

Cinco anos volvidos muita coisa mudou. Nem tanto no terreno social, onde tudo parece ainda demasiado lento para a velocidade que seria precisa, mas nas redes sociais o pudor relativamente à brutalidade acabou. Já poucos, do esquadrão da sensibilidade e do bom gosto, persistem a clamar pela ocultação, por mais violenta que seja a forma que a realidade adquire quando é possível fazer dela um retrato. Não há nenhum argumento que justifique a auto-censura. Da dignidade das vítimas – que é salvaguardada evitando que morram na clandestinidade – à banalização do horror, uma vez que a ocultação do horror é ainda mais violenta. O mesmo vale para o respeito dos poucos jornalistas que ainda arriscam a vida para que a morte dos outros não aconteça no anonimato.

Esta evolução da consciência colectiva, a par da onda de solidariedade, são  provavelmente os únicos bons indicadores que se podem aferir do debate provocado pela publicação da imagem do cadáver de Aylan Kurdi. Os espíritos sensíveis que coloquem a fúria da sua sensibilidade a mudar o mundo. Fechar os olhos nada muda, a não ser, porventura, a qualidade do sono dos que, vítimas do poder dos sensíveis, continuarão mergulhados na ignorância. Ou será que não entendem que o contrário de mostrar é esconder?

Ler a propósito a nota editorial do Público, num raro assomo de serviço público deste que já foi um bom jornal. No mesmo sentido aplaudir também a coragem do Il Manifesto, que fez da imagem capa da sua última edição

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