“Devemos participar nas eleições burguesas?”, por Carlos Marques

votarDepende. Em determinadas realidades e fases de luta sim, e noutras não.

Se por um lado não há uma resposta chapa 5 a esta pergunta; por outro lado para um partido que não tenha princípios nem estratégia, qualquer resposta serve. Chapa 5 dos esquerdistas é ‘não’, nunca participar. Chapa 6 dos revisionistas é ‘sim’, participar sempre. Os leninistas não usam as palavras ‘nunca’ e ‘sempre’ para responder a questões tácticas. Em primeiro lugar, para os leninistas a pergunta está incompleta.

Para responder a esta pergunta devemos colocá-la numa situação concreta, e analisar essa situação concreta. A situação concreta é a realidade portuguesa em 2015.

Então reformulemos a pergunta: na actual situação em Portugal, devemos participar nas eleições burguesas?

Na minha opinião sim.

A participação nas eleições burguesas permite juntar pessoas (que não é o mesmo que “acumular forças”!!!), permite difundir as ideias revolucionárias e não atrasa nenhum processo mais avançado – porque ele não existe. Não estamos em processo revolucionário, o movimento popular tem consciência democrático-liberal e portanto não pode liderar uma abstenção activa ou boicote, como acontece noutros países. Ainda nem existe Partido Comunista, e portanto recusar sem mais, os poucos instrumentos que temos para nos mexer é parvoíce.

No entanto – e aqui é que a porca torce o rabo -, não devemos participar de qualquer maneira, como qualquer partido catch-all. Quando criamos uma frente eleitoral, o objectivo não é ganhar votos dizendo aquilo que as pessoas querem ouvir  – esse é o trabalho das empresas de comunicação. O objectivo táctico da frente eleitoral é aproveitar os espaços eleitorais para elevar a consciência média das massas. O objectivo estratégico é a Revolução Socialista, e isso só é possível com a tomada do poder pelas armas, não pelos votos. A táctica tem que responder à estratégia.

E nem isto pode ser uma chapa 7, porque há outras realidades políticas mais complexas, onde a inexistência de processos revolucionários não significa instantaneamente que devamos participar nas eleições burguesas. Ou pelo menos, a resposta é mais complicada de dar.

Na realidade concreta do estado espanhol, a lei de partido é escrupulosamente aplicada, e isso significa que quaisquer estatutos, declarações de princípios ou programas, se têm que prostrar perante o regime burguês. Para alguns partidos e movimentos, seria mesmo necessário assinar uma rendição para poder participar. Ora, nestas circunstâncias, a principal razão pela qual poderíamos querer participar, não existe. Quando as eleições burguesas já estão descredibilizadas aos olhos do movimento que arrastamos, não podemos ser nós a credenciá-las. Uma organização que aceite rebaixar as suas linhas para participar, é uma organização liquidacionista. Exemplo concreto disto, seria se o PCE(r) quisesse participar com a actual lei.

Contudo a realidade mistura movimentos mais avançados com outros mais recuados. Há organizações operárias que não recuaram linhas para participar, por exemplo alguns “partidos comunistas” que vêm de cisões com o revisionismo carrillista, e que vão avançando para posições mais justas. Estando em carruagens mais atrasadas, avançam num comboio que vai no sentido correcto. Não são liquidacionistas.

Isto é, organizações revolucionárias participam nas eleições burguesas, mas nunca para as caucionar, nem para dividir a classe na peixeirada eleiçoeira e cretina própria do chauvinismo de siglas.

A imagem que acompanha este postal é de um período de Guerra Popular no Peru, processo liderado pelo Partido Comunista do Peru – Sendero Luminoso. Nesta situação concreta, onde a possibilidade da tomada do poder era real, participar nas eleições burguesas seria o equivalente a meter um estudante universitário no jardim-escola.

Em suma, devemos participar nas eleições burguesas sempre que possamos aproveitar a legalidade burguesa para reforçar as posições revolucionárias. Devemos recusar participar nas eleições burguesas quando isso não é possível.

Nestas eleições burguesas dou especial importância à defesa de duas bandeiras: saída da UE; não pagamento da dívida. Quanto mais siglas forem pressionadas a levantar estas bandeiras, melhor.

3 thoughts on ““Devemos participar nas eleições burguesas?”, por Carlos Marques

  1. A propósito, lembro aqui o caso concreto do partido nazi alemão quando, pela primeira vez acedeu ao parlamento nos anos 30. Criticados por serem poucos e pactuarem com a democracia burguesa que eles abertamente rejeitavam, confessaram assim a sua estratégia: “Vamos como lobos entre o rebanho de cordeiros…”
    ZM

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s