Sobre a radicalização dos turistofóbicos

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A turistofobia é uma espécie de racismo chique, Cool e cada vez mais em voga entre a esquerda que se acha esclarecida, que gosta de viajar de três em três meses, mas que abjura quem viaja para os países onde vivem. Os restaurante fancy no estrangeiro são bons, cá são parolos e pretensiosos. Os tuk-tuks são lá são autênticos, cá uma praga. Os hostels, o airbnb e o couchsurfing lá fora dão um jeitaço e são óptimos para poupar dinheiro e conhecer gente, cá é um negócio obscuro (à excepção quando é explorado pelos críticos) que está na base da gentrificação. Esta variação xenófoba não me afecta, mas confesso que me irrita profundamente. Prefiro, não raras vezes, partilhar a cidade com quem nos visita do que com aqueles que acham que a cidade e o país lhes pertence. É tudo errado no raciocínio dos fóbicos. Não são os turistas que gentrificam. Eles são, de resto, o garante de que há quem possa ganhar a vida nos bairros sem ser estudante, hipster ou artista endinheirado.

Há que naturalmente fazer do turismo mais do que deixar que as cidades sejam tomadas de assalto, sem nenhum pensamento estratégico ou sentido. Mas daí a tomar o turismo de massas de ponta, como se a alternativa não fosse o turismo de elites, e deixar a verve resvalar para a xenofobia, tenham paciência. Antes uma Marbella, uma Barcelona ou uma Albufeira, do que um santuário de ruínas onde nem os poetas são capazes de viver.

Turists of the world: welcome! Isto pior não fica.

E depois do disparatado lema “Tourists Go Home”, a mais recente campanha terremotourism bate todos os recordes de imbecilidade, tratando os turistas como em tempos se trataram os leprosos, incentivando à segregação e ao isolamento. Com esclarecidos assim, antes a Sô Dona Joaquina ou o Sôr Francisco, que entre sorrisos de circunstância e a má disposição voltaram a ter os seus estabelecimentos cheios de gente, de todos os tipos de gente.

8 thoughts on “Sobre a radicalização dos turistofóbicos

  1. “Eles são, de resto, o garante de que há quem possa ganhar a vida nos bairros sem ser estudante, hipster ou artista endinheirado.” Não acho que isto seja um facto assim tão verdadeiro, há bairros onde o comércio (p.e.) é completamente arruinado pelo turismo. Não quero tomar a parte pelo todo, mas vá a Alfama e pergunte por lá quanto dinheiro gasta em média um turista. Além disso, nestes tipo de bairros, o facto de um negócio correr bem ou mal afecta os outros negócios todos que o rodeiam. Não ponho em causa o resto do texto (com o qual até nem concordo propriamente), mas acho importante que se tenha atenção a estas afirmações que são constantemente atiradas para o ar como verdades absolutas e inquestionáveis.

  2. “Antes uma Marbella, uma Barcelona ou uma Albufeira, do que um santuário de ruínas onde nem os poetas são capazes de viver.”
    Não acredito que colocar estes dois extremos como os dois únicos cenários possíveis de existir seja sensato. Exagerar ou ridicularizar um ponto de vista nem sempre é inteligente e apenas funciona para aqueles que preferem não aprofundar conteúdos.
    Questiono-me se o autor deste texto tem pleno conhecimento sobre o que a má gestão do fluxo turístico fez a cidades como, por exemplo, Barcelona. Existe um documentário muito interessante chamado Bye bye Barcelona e que merece ser visualizado, certamente abalará algumas certezas.
    Questiono-me também se o autor vive numa cidade como Lisboa.
    Sou morador na Graça, bairro histórico no centro de Lisboa, e lembro-me quando podia circular à vontade pelos passeios sem correr o risco de ser atropelado por excursões de segways, lembro-me de conseguir usar o eléctrico 28 e dos passeios não estarem sobrecarregados de esplanadas. Lembro-me de poder ler um livro tranquilamente em casa sem o barulho constante dos tuk tuk e de usar a expressão “vou ali ao supermercado num instante” até porque nessa altura não havia filas intermináveis…
    Lembro-me da especulação imobiliária não penalizar os residentes permanentes da área.
    Poderia continuar durante algum tempo mas a verdade, e em suma, é que Lisboa esta a perder a identidade, o comercio local e tudo aquilo que torna Lisboa numa cidade particular está gradualmente a desaparecer, Lisboa está a tornar-se numa cidade genérica para agradar turista e eu acredito que aquilo que o turista procura é sentir-se envolvido por uma cidade única, igual a ela própria e diferente daquilo que encontram em casa.
    Não sou contra o turismo nem contra o turista, muito pelo contrario, sou é apologista de prepararem as cidades para o fluxo turístico e de no processo não a anularem

    1. Sim, conheço o documentário. Evidentemente Barcelona é um exemplo de sobrecarga turística, muito, mas mesmo muito longe do que se passa em Lisboa. Como percebe, o exagero é mesmo um bom mecanismo de explicação de um ponto de vista.

    2. A questão turística é bem mais complexa do que uma luta entre bons e maus. O discurso sobre o turismo está carregado de posturas morais e de “bom gosto”, disfarçadas de ética na defesa das “populações dos bairros tradicionais/históricos” (entendidas “paternalisticamente” como uma entidade homogénea, indefesa e imutável). Deixo apenas algumas questões que se me ocorrem ao abordar esta questão. Não será a cidade o lugar, por excelência, de conflito entre as vários grupos e facções que compõem uma sociedade? Quem são realmente os moradores de um bairro? Como é que evolui a sua composição? Quais as razões que levam esses moradores a viver num determinado bairro? Tendo poder de escolha, querem realmente manter-se ali? Numa sociedade democrática não será válida a escolha de um turismo tipo Marbella ou Albufeira? Não será um modelo de turismo baseado no luxo e em actividades culturais (de “bom gosto”) tão, ou mais nocivo, que o turismo (de “mau gosto”) de despedidas de solteiro/a e álcool barato? Será que esse turismo cultural não provoca um processo ainda mais acentuado de nobilitação dos bairros? Existirão estudos em que se avalie o grau de satisfação dos comerciantes e residentes no que concerne ao tipo de turismo de que vivem? Como reflexão, deixo esta entrevista, sobre os processos de nobilitação e o modus operandi dos chamados “gentrifiers marginais”, os grandes detonadores do processo de turistificação das cidades contemporâneas e, paradoxalmente, os seus primeiros e principais críticos. http://www.dezeen.com/2015/09/22/norman-foster-interview-london-creative-exodus-inevitable-economic-prosperity-design-architecture/

  3. Aconselho o Renato a ler “Notas para uma Crítica Radical do Turismo I e II” (2014) do seu colega de blog P. Duarte e aqui publicadas.

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