O que é uma paisagem monárquica?

SALOIO CALDAS.0

Gonçalo Ribeiro Telles tem uma obra notável, ímpar no contexto português. Mas há uma parte central do seu ultra-reaccionário pensamento e da sua anacrónica visão do mundo que deve ser denunciada. No último número da revista municipal gratuita Lisboa, o ecologista monárquico refere que “O Corredor Verde, com os prados e os carvalhos, é uma coisa boa no interior da cidade [de Lisboa], mas falta uma coisa essencial no seu exterior: o saloio, com o burrico, as hortas, as searas e as ovelhas. Falta essa paisagem, que deve fazer parte do nosso século.”

Sabemos muito bem onde nos leva a defesa desta cristalização da paisagem, mitificadora da ‘ruralidade lusitana’, enquanto realidade pitoresca imutável. Leva-nos à criação e reprodução de uma identidade estática, pura, “portuguesa”, tão ao gosto do programa (despudoradamente neo-fascista) do Partido da Terra. Uma identidade imune às tensões e às transformações da história contemporânea, esse período, iniciado com a Revolução Francesa, tão profundamente odiado pelos monárquicos. Leva-nos igualmente à criação de uma ordem estável, fundada sobre um imaginário imobilizado e classista, onde sobressaem o pobrezinho do saloio, o seu burrico e as ovelhas, actores bucólicos de um presente perpétuo; ou, se preferirmos, de um Neolítico ad aeternum.

prgulho saloio

Naquele cartão postal aristocrático, que também poderia ser um quadro pintado pelos artistas saudosistas do P.N.R. ou por alguma alma empreendedora da loja A Vida Portuguesa, não cabem as relações efémeras e imprevisíveis em que os seus actores estão inscritos. Ao pobrezinho do saloio, porque abruptamente retirado do devir histórico, não lhe resta outra alternativa que a de morrer saloio – mas dignamente. Assim mesmo, como se a sua vida se pudesse subtrair da temporalidade selvagem, do movimento caótico da história que tudo transforma, do fluxo incontrolável e instável do tempo que nada deixa intacto. Se nasceu saloio, morrerá saloio, crê convictamente o aristocrata. Ora, tal “saloio” não pode ser dotado de uma subjectividade, de uma vontade própria, de um espírito crítico capazes de o despertar para a negação, para a contradição e para a subversão do seu modo de vida. Ele não corresponde pois a nenhum ser vivo, feito das maravilhosas contradições que qualquer vida humana encerra. Corresponde pelo contrário à representação ideológica que a aristocracia, reagindo a tudo o que de vivo e livre vê mover-se à sua volta, gostaria de impor à sociedade.

A esta visão passadista e congelada do mundo e da história de Ribeiro Telles não será porventura alheio o facto do conhecido paisagista descender de uma família aristocrática: “A minha família de Coruche, do lado do meu pai, era toda D. Carlos. A família da minha mãe tinha uma costela miguelista. Os miguelistas tinham duas facções, os absolutistas e os realistas. Não podiam uns com os outros. A família da minha mãe era realista e a do meu pai era monárquica, mas liberal. Isto hoje não tem interesse nenhum…” (Gonçalo R. Telles). Pois não. Serve apenas para explicar que nos meios mais conservadores tudo se herda de família, a começar pelo modo de conceber a história como uma viatura que dispõe de uma única mudança: a marcha atrás.

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

2 thoughts on “O que é uma paisagem monárquica?

  1. Gosto muito das suas publicações aqui no blog, do enfrentamento da visualidade de que (quase) sempre elas se revestem. Não se lê nada tão bom em Portugal em mais lado nenhum. Falo sério. Mas dizer isto sobre Ribeiro Telles é não ser generoso (e eu acho que P. Duarte até é) e, quiçá, é não saber que seríamos um país bem pior sem a REN, a RAN e os PDMs. Malgré tout…mas eu sou suspeita…

  2. Cara Inês B., o seu comentário sobre as minhas publicações neste blog é o maior exagero que alguma vez ouvi. Bem sei que o vinho cá da tasca não é do pior que por aí se bebe, mas a Inês exagerou…

    Fui pouco generoso com Ribeiro telles, tem razão. Mas, quando escrevi “Gonçalo Ribeiro Telles tem uma obra notável, ímpar no contexto português”, tinha em mente justamente tudo o que a Inês enumera, e ainda mais os incríveis jardins da Gulbenkian, onde já passeei umas 2 mil vezes. Mas o facto de se ter uma obra notável (na criação/conservação de paisagens) não invalida que se tenha um pensamento retrógrado, classista, muito perigoso. Neste blog, tenho andado a tentar construir uma ‘crítica da identidade’. E o pensamento de Ribeiro Telles, tal como o de toda a extrema direita (mas também aquele que subjaz ao manifesto da loja A Vida Portuguesa), atribui um papel central à construção de identidades. E é isto que eu ataco em Ribeiro Telles, independentemente da sua obra (que neste artigo não me interessou). E mais ninguém ataca – talvez porque muita da própria esquerda partilha já de algumas das ideias que definem a direita. Vivemos tempos sombrios, exageradamente conservadores. A própria esquerda é de um conservadorismo espantoso. (O meu papel neste blog é simplesmente dar um singelo contributo para estimular a esquerda a usar novos conceitos para interpretar a realidade.)

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