“Reformismo, uma questão de classe (3)”, por Carlos Marques

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Acumulação de forças e o tabuleiro de xadrez do Pablo Iglesias

Disse o Pablo Iglesias que quando não temos divisões, a política se joga num tabuleiro de xadrez. É bonita a metáfora e também a uso. O Pablo Iglesias dá uns toques na bola, mas a verdade é áspera e as metáforas bonitas não chegam para obnubilar (♫♬) a realidade.

Então se o inimigo tem divisões e nós não as temos, que estamos a fazer no tabuleiro de xadrez? O tabuleiro de xadrez é alguma dimensão paralela às relações de poder?

Nota: o tabuleiro de xadrez são as instituições do estado burguês; as divisões são o exército desse estado, os aliados desse estado (o internacionalismo burguês) e as restantes forças repressivas da burguesia.

Não é abusivo inferir da frase que nós estamos no tabuleiro de xadrez para evitar um massacre, porque se tivéssemos divisões, a política já não se jogaria no referido tabuleiro.

E o que é que se joga no tabuleiro de xadrez? As relações sociais de produção? O Pablo Iglesias diz que não – e aqui é preciso reconhecer-lhe o mérito de estar correcto.

Sabemos, porque exemplos históricos não faltam, que o tabuleiro de xadrez é a antecâmara das divisões. E se em vez de se dedicar a gerir a derrota (“o regular funcionamento das instituições”), o Kasparov Iglesias provoca um acidente em pleno tabuleiro e afoga o rei, o tabuleiro vai ao ar e entram em cena as divisões. E então somos teletransportados dessa alucinante viagem à dimensão paralela para arrostar com o problema fundamental: não temos divisões! E o inimigo tem-nas. E por isso vamos ser cilindrados. Depois de cilindrados abrimos a pestana e tomamos consciência da nossa insignificância. Esta é capaz de ser a diferença entre entre os três na imagem que acompanha o texto.

Refaço a pergunta: que estamos a fazer no tabuleiro de xadrez, se sabemos que a seguir entram as divisões? É possível que o tabuleiro sirva para alguma coisa. Para os reformistas serve para se esquecerem do facto de que não têm divisões – e assim poderem fazer a síntese entre a vidinha e a “luta”. Eu cá dou ao tabuleiro de xadrez a mesma utilidade que a burguesia lhe dá.

E aqui aparece uma expressão mágica para lavar a cara ao reformismo. Entra em acção o poder das palavras, que desdobra a canalhice em teoria

É isso kamaradas! Estamos a acumular forças! 40, 50, 60, 70 anos seguidos a acumular forças!!

E perguntais vós: “Acumular forças para derrotar as divisões?” Não, isso é que era bom; “então que forças são essas que estão a acumular?” Perguntai ao Kasparov Iglesias.

Aventureiros esquerdistas doutros tempos estariam a dizer que “se não temos divisões, então temos de as construir”. Estariam a olhar para o tabuleiro de xadrez como uma mesa de negociações entre duas partes em guerra, não como o palco de guerra. Estariam a acusar de legalismo e de liquidacionismo todos os membros do partido que querem ir para a mesa de negociações a toda a força, sem nenhum poder real, sem divisões. E às vezes pior, sacrificando as divisões para poder ir à mesa das negociações (o que em termos militares se denomina rendição). Um desses aventureiros esquerdistas chamava-se Lénine e n’ As Eleições para a Assembleia Constituinte e a Ditadura do Proletariado, resumia a ideia central desta forma:

“An overwhelming superiority of forces at the decisive point at the decisive moment—this “law” of military success is also the law of political success, especially in that fierce, seething class war which is called revolution.”

Desta forma, a acumulação de forças do reformismo e o tabuleiro de xadrez do Pablo Iglesias são apenas uma rendição sem guerra. Para os revolucionários, é exactamente ao contrário: não se vai ao tabuleiro de xadrez sem divisões! Pela simples razão de que não se vai negociar nada com o inimigo de classe sem poder fáctico, sem as costas quentes. Para o proletariado, o tabuleiro de xadrez também deve ser uma antecâmara, uma retaguarda desse sujeito revolucionário que se forja na prática de confronto com o estado burguês.

Para concluir, temos de acumular forças sim, mas para enfrentar as divisões. No fim de linha, se queremos alterar as relações sociais de produção, são as divisões que teremos de enfrentar. Acumular força real significa fazer esta aprendizagem.

A realização destas tarefas é o critério para saber se existe Partido Comunista ou se o temos de criar.

2 thoughts on ““Reformismo, uma questão de classe (3)”, por Carlos Marques

    1. Olá Huy,

      O texto pretendia ir um pouco mais longe. É o reformismo que nós já sabemos onde vai dar. Por trás de todo o chauvinismo de siglas, está a teoria e a prática do reformismo.

      Ir votar, e eu vou votar, não me impede de reconhecer que essa acção não vale os tomates de grilo no processo de transformação das relações sociais. O movimento popular tem de ter força efectiva e real.

      Abraços

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