“Reformismo, uma questão de classe (2)”, por Carlos Marques

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Creio que os debates entre os diversos colectivos anarquistas são a ilustração perfeita do problema, que como referi, é objectivo-subjectivo.

A plasticidade táctica do leninismo oferece aos liquidacionistas condições razoáveis para germinarem: citações descontextualizadas; tácticas de circunstância, que eles logo aproveitam para substituir a Revolução por pactos sociais, equilíbrios com o inimigo. E nesse equilíbrio passam os anos e o inimigo torna-se um “adversário democrático”, com quem se joga uma agradável partida de xadrez num tabuleiro imparcial e acima das classes. Nesse tabuleiro de xadrez eles perdem sempre, e portanto sobra-lhes a tarefa de ir gerindo a derrota. Em termos estritamente teóricos, o leninismo oferece margem de manobra aos reformistas. Dá-lhes condições para germinar, se nós deixarmos. O que implica um combate constante e desgastante dentro do movimento popular e do próprio Partido.

A ideia de que o Partido avança depurando-se, de que o Partido actua no movimento mas sem se confundir com ele, de que é um Partido com linha de massas e não um partido de massas. Tudo isto é fonte de um conflito interminável com os reformistas. Ser revolucionário nesta perspectiva implica estar em tensão permanente com o movimento, procurando influenciá-lo, mas sem se deixar influenciar por ele. Essa tensão não interessa ao reformismo em geral, e muito menos ao jogo eleiçoeiro em particular. A dinâmica obriga a que qualquer partido eleiçoeiro tenha que ser de tipo catch-all. A descaracterização é só uma questão de tempo. A teorização dessa descaracterização também (eurocomunismo).

Ora, em termos estritamente teóricos, os anarquistas não têm este rosário para desemaranhar. E portanto, seria justo pensar que jamais seriam infectados pelo vírus do reformismo. Será assim?

Ao contrário dos leninistas, os anarquistas não têm muitas justificações teóricas para oferecer ao pacifismo e ao reformismo em geral. Embora haja exemplos de participação de anarquistas em parlamentos burgueses e em governos de frente popular, a ideia de votar ou ser eleito é normalmente rejeitada.

Para um anarquista, a questão é simples e directa (mesmo directa). É preciso declarar guerra ao estado, atacá-lo, corroê-lo, derrubá-lo e auto-organizar a produção. Fim da exploração do homem pelo homem, fim do governo do homem pelo homem. Se isto fosse exequível, eu seria anarquista.

E então, como dizia, alguém mais distraído poderia pensar que como o anarquismo está completamente blindado contra o reformismo, não há reformistas… não!! O que não há são poucos!!! E pior, o que faltar em reformismo sobra em apatia!!

O que não faltam são hortas comunitárias, gigs e feiras anarquistas… tudo menos confronto com as estruturas de opressão (isso é que não!!). É preciso fazer um parêntese para valorizar o movimento okupa, que é um movimento de combate efectivo, que põe em causa a sacrossanta propriedade privada. Mas no geral, tal como os socialistas utópicos, creio que fazem um enorme esforço para se abstrair do facto de que as hortas comunitárias, e até as okupas, estão dentro das estruturas de opressão.

Alguém encontra alguma justificação teórica para o facto de a FAI/IRF ser o único guarda-chuva de colectivos com actividade subversiva? Claro que não. A podridão reformista em que se encontra o movimento popular e os partidos da antiga 3.ª Internacional seria o campo aberto para o anarquismo crescer. Mas nada. A explicação do problema não é apenas teórica.

Leiam estes textos e vejam se não descobrem as mesmas discussões de sempre mas apenas com nomes diferentes, por exemplo: anarquismo civil. Parece-me que anarquismo civil é apenas o activismo das classes intermédias – menos chique que as actividades do reformismo, já que não dispõem dos fundos das máquinas partidárias.

Em suma, o que é que se está aqui a debater? Creio que é isto:

“The sickly cross-class social contract based on the spoils of imperialist empire poison the minds and spirits of the people of the UK.” (pag. 4)

2 thoughts on ““Reformismo, uma questão de classe (2)”, por Carlos Marques

  1. Penso que o Carlos tem muita razão (mas não toda), só que se esquece de um ponto fulcral. O papel do estado está a mudar rapidamente. Até há pouco, grande parte da esquerda tb dizia que era preciso derrubar o estado porque o seu aparelho sempre foi e é um clube dos interesses das classes possidentes. Com certeza que o estado é isso, mas não só. O estado tem sido e ainda é tb em certa medida um defensor dos cidadãos, embora nunca tanto como desejaríamos. Os regulamentos contra a poluição, as normas que protegem a saúde pública, as (poucas) leis laborais, os serviços públicos, as leis contra a corrupção, contra a cartelização e toda uma série de outros normativos, agências e empresas visam satisfazer as necessidades (algumas) dos cidadãos e não das classes privilegiadas. De certo modo, as empresas do estado constituem uma espécie de ilhas socialistas dentro do capitalismo, uma vez que não se regem pela cartilha dos mercados (compradores, vendedores, lei da oferta e da procura, lucro, ganância…) e o preço que os utentes pagam fica geralmente muito longe do custo real do serviço prestado. Isso quer dizer que é a sociedade no seu todo que paga por esses serviços. Isto é quase socialismo.
    Ora sucede que a crescente ganância dos grupos corporativos multinacionais já percebeu que pode prescindir do antigo papel do estado como seu defensor. Nesse sentido, estão a ser cozinhados uma série de tratados internacionais que visam precisamente esmagar o poder dos estados e governos, tansferindo-o para essas mesmas corporações. Assim sendo, a única hipótese dos cidadãos não é destruir o estado mas, pelo contrário reforçá-lo e controlá-lo, pondo-o ao seu serviço.

    Não esbanjámos….Não pagamos!!!

    1. Olá Zé,

      A minha opinião é a de que estamos a caminhar no sentido da deslegitimação do estado burguês aos olhos dos trabalhadores, à medida que se vão rompendo um por um, todos os direitos consagrados nos pactos sociais. E portanto a tendência será para ficar cada vez mais a clara aos olhos dos trabalhadores a sua natureza de classe.

      O estado tem sempre uma natureza de classe. Pode ter ou não legitimidade aos olhos das outras classes. Depois da segunda grande guerra, uma série de circunstâncias obrigaram os estados burgueses a desempenhar funções sociais porque era necessário conter a União Soviética e porque o capital tinha margem para isso. Nada disto se verifica hoje.

      As áreas da provisão pública estão a ser usadas para dar maior rentabilidade ao capital, que não encontra rentabilidade em mais lado nenhum. A fatia do orçamento de estado que vai para amortização de juros e capital da dívida pública é assustadora. Portanto, fica mais claro hoje que é a burguesia que necessita do estado, porque dele já não recebemos nada, a não ser chatices.

      Os tratados são feitos pelo estado burguês, até aqueles tratado que retiram poder ao próprio estado que os assina. O facto de uns estados poderem estar a empurrar outros contra a parede é a expressão do mesmo fenómeno de opressão, mas a uma escala diferente.

      É verdade que há opressão de uns por outros. A Grécia no seu todo, está a ser oprimida, mas isso não quer dizer que o estado burguês seja uma máquina que sirva para resistir ao imperialismo, à opressão de uma nação por outra. A mesma máquina que nos levou a esta situação de submissão perante as potências, não nos vai libertar dela. A burguesia e o seu estado nos países imperialistas já não tem nenhum papel a desempenhar (a não ser oprimirem os trabalhadores, e quando isso não é suficiente, comerem-se uns aos outros).

      O estado burguês tem mesmo de ser atacado e destruído, a ordem jurídica e constitucional tem mesmo de vir abaixo, ser demolida. As classes trabalhadoras têm de se organizar para o destruir, e depois para construir um estado socialista que sirva para as novas tarefas.

      Abraços

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