De pé!

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Federico García Lorca foi assassinado de pé e com o punho cerrado, por um pelotão fascista, há 79 anos. Continua vivo, como continuam todos os que se transformam em semente. Lorca vive, os pulhas que o assassinaram, não.

Céu vivo

Não poderei queixar-me

se não encontrei o que buscava.

Perto das pedras sem sumo e dos insectos ocos

não verei o duelo do sol com as criaturas em carne viva.

Mas irei à primeira paisagem

de choques, líquidos, rumores,

que ressuma criança recém-nascida

e onde toda a superfície é evitada,

para entender o que busco terá seu alvo de alegria

quando eu voar misturado com o amor e as areias.

Ali não chega a geada dos olhos apagados

nem o mugido da árvore assassinada pela lagarta.

Ali todas as formas guardam enlaçadas

uma única expressão frenética de avanço.

Não podes avançar pelos enxames de corolas

porque o ar dissolve teus dentes de açúcar.

Nem podes acariciar a fugaz folha do feto

sem sentir o assombro definitivo do marfim.

Ali sob as raízes e na medula do ar

compreende-se a verdade das coisas equivocadas.

O nadador de níquel que espreita a onda mis fina

e o rebanho de vacas nocturnas com rubras patinhas de mulher.

Não poderei queixar-me

se não encontrei o que buscava

mas irei à primeira paisagem de humidades e latejos

para entender que o que busco terá seu alvo de alegria

quando eu voar misturado com o amor e as areias.

Voo fresco de sempre sobre leitos vazios.

Sobre grupos de brisas e barcos encalhados.

Tropeço vacilante pela dura eternidade fixa

e amor ao fim sem alva. Amor. Amor visível!

do amor imprevisto

Ninguém compreendia esse perfume

da escura magnólia de teu ventre.

Ninguém sabia que martirizavas

um colibri de amor entre os teus dentes.

Mil eram os potros persas que dormiam

na praça com luar de tua fronte,

enquanto eu quatro noites enlaçava

tua cintura, inimiga da neve.

Entre gesso e jasmins, o teu olhar

era um pálido ramo de sementes.

Eu busquei, para dar-te, no meu peito

as letras de marfim que dizem sempre.

Sempre, sempre: jardim desta agonia,

teu corpo fugitivo para sempre,

o sangue de tuas veias em meus lábios,

teus lábios já sem luz p’rá minha morte.

Terra seca

Terra seca
terra quieta
de noites
imensas.

(Vento na oliveira,
vento na serra.)

Terra
velha
do candil
e da pena.
Terra
das fundas cisternas.

Terra
da morte sem olhos
e as flechas.

(Vento dos caminhos.
Brisa nas alamedas.)

Morreu ao amanhecer

Noite de quatro luas

e uma única árvore,

com uma única sombra

e um único pássaro.

Busco na minha carne as

pegadas de teus lábios.

Beija a nascente o vento

sem o tocar.

Levo o Não que me deste,

sobre a palma da mão,

como um limão de cera

quase branco.

Noite de quatro luas

e uma única árvore.

Na ponta de uma agulha

está meu amor – girando!

One thought on “De pé!

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