O slow thinking de Vítor Belanciano

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think slow – think less 

Num artigo sobre o slow movement, o jornalista para assuntos fashion do jornal o Público crê que este movimento vem desafiar toda uma cultura ligada ao crescimento económico. Mas, ao longo do artigo, não faz praticamente outra coisa senão dar exemplos de “empresas de prestígio”, de pensadores e de instituições (como a própria NASA) que defendem a lógica slow como método para incrementar a eficiência, o desempenho, a criatividade, a focagem e a produtividade dos trabalhadores. O jornalista confunde assim tudo o que há para ser confundido.

Por um lado, defende que a moda slow (o trabalhador praticar ioga no local de trabalho, comer uma maçã ou beber um sumo a meio de tarefas, dormir uma sesta a seguir ao almoço, almoçar longe da secretária de trabalho…) contribuirá para criar um mundo novo, para o qual o PIB não será já o indicador de avaliação apropriado. Um mundo com um ritmo “adequado ao bem-estar e ao desenvolvimento pessoal, comunitário e ambiental”. Por outro lado, o escriba assalariado da Sonae argumenta ao longo do artigo aquilo que uma sua entrevistada tão bem sintetiza numa frase: “Não tenho qualquer dúvida de que abrandar me tornou mais eficiente, produtiva e realizada.”

Ao contrário do que julga concluir o seu autor, o que este artigo mostra é que o movimento slow não se opõem ao PIB, não desafia a lógica do crescimento económico ou a vontade dos donos da economia. Bem pelo contrário, ele tornou-se-lhes estritamente necessário, ao permitir incrementos notáveis na eficiência e na produtividade do trabalho. E este ponto, ignorado pelo romântico jornalista, é o único ponto historicamente relevante no movimento slow. O resto são telenovelas: ex-assalariados stressados que se mudam para o campo em busca de paz e de amor, advogados que passam a trabalhar menos horas para se dedicarem mais à família, à natação ou à pintura, outros que são mais felizes desde que fazem a sesta, etc.

A gestão capitalista de recursos humanos está a perceber uma vez mais que espremer os trabalhadores até ao tutano, levá-los ao limiar da depressão e do suicídio, como faz ainda hoje a maioria das empresas, é simplesmente contra-producente: o capital multiplica-se menos do que se poderia multiplicar, porque o trabalhador produz menos do que poderia produzir. Como já Marx o notara há um século e meio, o capital necessita do descanso dos trabalhadores: “O dia de trabalho não é prolongável acima de um certo limite. Uma pessoa, durante o dia natural de 24 horas, só pode despender um determinado ‘quantum’ de força vital. Durante uma parte do dia, a força tem de repousar, dormir.

Quem parece gostar de dormir durante as 24h do dia é a inteligência fashion de Vítor Belanciano.

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

6 thoughts on “O slow thinking de Vítor Belanciano

  1. Felizmente q deixei de comprar ‘jornais’.Se nã fosse o sr. jamais saberia q este ‘jornalista’ é mais um filho da puta propagandista! À minha custa não ganham nem 1 cêntimo-vão trabalhar malandros.

    P.S.:Há jornalistas mas, não estão a trabalhar para os Oligarcas!!!!
    Por exemplo José Goulão http://mundocaohoje.blogspot.pt/

  2. Qual o interesse de desafiar o crescimento? Esquerda reaccionária. Deve ser a influência do nazi Heiddeger. Caguem nela e ponham-na ao peito, miseráveis!

    1. Sr. Rambo, existe uma esquerda que desafia o crescimento e outra que o deseja avidamente. Tal como existe uma direita que desafia o crescimento e outra que o deseja. Bem sei que entrou em voga, em determinados meios ‘esquerdistas’, uma tese que defende que a esquerda anti-crescimento faz a política da direita anti-crescimento (ou seja da dta. fascista) Mas não a compro.

      (O que é certo é que capitalismo e crescimento vão de par. Mas deixemos esta discussão para uma próxima ocasião…)

      Quanto a Heidegger, enorme filósofo. Aprende-se a pensar ao lê-lo. Mas o melhor, hoje e sempre, é não pensar, como tão bem faz o ilustre Belanciano, não por acaso assalariado de longa data da Sonaecom.

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