“Reformismo, uma questão de classe”, por Carlos Marques

pacifismo

“O reformismo morreu, e fomos nós que o matámos. Nós e a nossa intrépida vontade de testar os limites”, dizem alguns camaradas apressados. Será assim?

Ficou mais evidente, e com um exemplo histórico a desenvolver-se à frente dos nossos olhos, que o reformismo não funciona. Percebemos com a capitulação do Syriza que na actual conjuntura, o reformismo já não consegue reformar nada.

Isto pode levar-nos a inferir que o reformismo morreu. Mas o reformismo não morreu camaradas!

O reformismo tropeçou e foi ao chão. As forças que lhe deram origem, as classes intermédias que saíram dos pactos sociais depois da segunda grande guerra, estão a ser proletarizadas mas continuam vivas, e a exercer a direcção do movimento popular. E portanto o reformismo vai-se levantar, ver se tem algum arranhão, desinfectar a ferida e a vida continua.

O reformismo não é só a ideologia da aristocracia operária e da pequena-burguesia, é o seu modo de vida.

O reformismo precisa de muito mais do que evidência histórica da sua falência para cair, da mesma forma que o capitalismo precisa de muito mais do que evidência histórica dos seus limites e contradições para cair. Tanto um como outro precisam de reunir também as condições materiais para serem varridos da História. O reformismo só cairá quando a aristocracia operária e a pequena-burguesia caírem. Isto é, quando deixarem de ter relevância social e perderem o controlo do movimento popular. Estas duas formações sociais, que não fodem nem saem de cima, vão ter mesmo que sair da frente de um comboio em andamento.

Então porque estamos a subjectivar o problema?

Choros, amuos e birrinhas porque os burocratas que dirigem as poucas estruturas organizadas não querem fazer revoluções. O que estamos nós a dizer no fundo? Estamos a dizer que os burocratas são burros, que não conhecem a história?! Que nunca leram o ‘Estado e a Revolução’ de Lénine?!  É mentira. Muitos deles já militavam quando o processo chileno se desenvolvia à frente dos seus olhos, tal como nós hoje vemos o caso grego. Muitos desses burocratas têm mais cultura política que qualquer um de nós.

Eles não estão a pedir para repetir a tragédia chilena, grega e todas as outras em consecutivas farsas, porque são burros. Salvador Allende não deu a vida para que nós aprendêssemos uma lição: não! Em 1971 quem ainda não tinha aprendido a lição, era porque não queria aprender a lição.

Dizia eu que os reformistas que mandam são os que sabem que isto é assim. Eles não são parvos, nem ignorantes, nem incultos. Eles sabem. O problema é que não querem.

Nós apenas estamos a subjectivar o problema para fugir às conclusões de classe, para recusar fazer uma análise séria de classe, sobre as formações sociais no nosso país, para recusar uma conclusão acerca do peso social das camadas intermédias em países da semi-periferia na UE, para recusar “dividir” os trabalhadores e então amalgamar tudo no mesmo saco com a etiqueta “povo” ou “trabalhadores”. Por vezes subjectivamos o problema para ocultar a nossa própria origem social.

O problema é objectivo-subjectivo.  O reformismo é muito mais do que uma ideia errada, é um modo de vida. É o modo de vida que paga contas às únicas classes que estão organizadas, aos seus ideólogos e aos burocratas encarregues das únicas estruturas organizadas no movimento popular. Não há organização fora do reformismo. O que isto quer dizer é: o proletariado, aqueles que nada têm a perder, não está organizado em classe para si.

Não obstante, os reformistas não são todos iguais. A maioria dos reformistas hoje em dia não é igual ao menino Alexis. E o menino Alexis não é igual ao Allende.

A maioria dos reformistas hoje em dia é mais inteligente e não estica a corda. Fazem a sua vida “militante” descansados, sem grandes sobressaltos e no fim de linha ainda recebem louvores e são recordados como grandes lutadores pela causa dos trabalhadores (ou pela “liberdade” e a “democracia”).

Vamos ser claros, gerir o reformismo na situação do menino Alexis é tramado. Havia apenas mais uns degraus para subir até ao degrau de onde caiu Allende. Um pouco mais de pressão para esticar a corda. O menino Alexis decidiu aliviar a pressão e não abrir um confronto a sério, foi isso que ele fez.

O menino Alexis, tal como o Allende, é mais um que se espetou com o carro do reformismo, e agora ficou um berbicacho para resolver.

O reformismo europeu tem agora que consertar o veículo que o menino Alexis fez espetar contra a parede. O reformismo europeu, que não tinha nenhum problema, agora tem um problema discursivo, um problema ideológico. Um problema que a aristocracia operária e a pequena-burguesia têm de resolver.

O problema é: voltar a dar aparência de luta a todo um conjunto insignificante e patético de actividades e happenings próprios de jet-set e dandies de salão, que não servem absolutamente para nada. Têm que reabilitar o tarefismo inconsequente; recuperar aquele brilho de esperança nos olhos de cada militante quando se dirige para uma manifestação (mas pacífica!!!) ou para uma greve (mas com respeito pelos serviços mínimos e sem ocupação do local de trabalho!!!!). Para esta missão, o reformismo necessitará de recorrer a quadros da mais alta craveira intelectual. Não, a Marisa Matias não serve. O Pablo Iglesias talvez possa dar uns toques na bola. Vamos esperar para ver qual a mistela que servirá de lastro ideológico ao reformismo nos próximos anos.

Volto a insistir na ideia: grande parte do ranço ideológico destas classes em decadência, nós já o conhecemos. Tal como com o euro-anarquismo, nós seremos derrotados por cansaço se investirmos o nosso esforço a refutar cada uma daquelas parvoíces.

A maioria ainda não era nascida e já o “caminho pacífico para o socialismo” fazia escola. E passou sem espinhas porque havia margem para pactos sociais. Podemos criar classes subjectivamente revolucionárias a partir de classes objectivamente revolucionárias. O contrário é mais complicado.

A negação da necessidade da vanguarda como sendo “sectarismo”. A utilização da expressão “acumulação de forças” numa teoria mecanicista de dois tempos, para justificar a inexistência de trabalho de tipo revolucionário. Tudo isto está mais que batido, a ganga ideológica que vem a seguir não deve ser muito melhor.

Volto ao início. Com piores ou melhores justificações teóricas, o reformismo continuará a ser hegemónico enquanto a pequena-burguesia e a aristocracia operária continuarem a dirigir o movimento popular, o que tem acontecido até aqui pelo menos desde o 25 de novembro.

O nosso objectivo, acaso fosse necessário referi-lo, devia ser não nos deixarmos guiar por essas classes em estado de decadência, nem deixarmos que façam de nós estafetas, nem moços de recados, nem mobília de comícios. E nós, os  que nada temos a perder, organizemo-nos em classe, em estruturas de novo tipo.

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s