“Libertação nacional, imperialismo, curdos e sírios”, por Carlos Marques

pkksyria

O PKK voltou à carga. Dois soldados turcos eliminados hoje de manhã, 18 ontem, um gasoduto rebentado, Barzani a pedir ao PKK para voltar ao “processo de paz” e para desopilar do Curdistão iraquiano, 3 mil detidos e possibilidade de levantamento da imunidade parlamentar. Afinal ainda estamos em processo de paz?

Que diz Abdullah Öcalan desde a ilha de İmralı?

É óbvio que não sabemos. Está em regime de isolamento, nas mãos do inimigo. Mas curiosamente isto já não era tão evidente em 2013, quando se permitiu que um líder, nas mãos do inimigo, negociasse um “processo de paz”, facilitando o caminho ao imperialismo no ataque à Síria. Daí até ver as YPG aliadas aos ratos do exército livre foi um passo. Enquanto um país inteiro é devastado pelo imperialismo, os curdos procuram abrir o leque de opções nos centros de poder regionais. A Síria queixou-se, e com razão.

Algo parecido deve ter-se passado em 1998. O general turco Atilla Ates faz um comunicado junto à fronteira, exigindo à Síria que expulse Öcalan de Damasco e que acabe com o apoio ao PKK. A Síria de Hafiz Al-Assad baixa as calças. Daí até ao acordo de Adana, à normalização de relações, assinatura de acordos comerciais, conversações de paz com Israel mediadas pela Turquia, foi só um passo. Tudo teve de chegar a um ponto de crise para dar origem a um período de normalização. Os sírios queriam agora jogar um novo arranjo no tabuleiro diplomático, uma nova posição internacional. Öcalan foi sacrificado, teve de sair de Damasco e foi preso no Quénia. Os curdos queixaram-se, e com razão.

Nesta zona há uma classe de estados precários, é o precariado da geopolítica. As burguesias nacionais fazem e desfazem alianças a uma velocidade estonteante. É o que têm de fazer para sobreviver, ou seja, é o que o capital naquela zona tem de fazer para se reproduzir.

O imperialismo não é uma mesa redonda onde os estados estejam todos no mesmo plano. No nosso caso, Portugal tem uma posição sólida, é membro fundador da NATO (nem durante o PREC isto foi posto em causa), pertence à UE e é um bom aluno. Estamos na merda, mas numa posição sólida.

Naquela zona as coisas são um pouco diferentes. Desde que Hafiz baixou as calças, houve um processo de aproximação entre a Síria e a Turquia, que paradoxalmente acaba em guerra. E situações como estas são constantes, porque estes países jogam num outro tabuleiro, ainda que dentro da mesma pirâmide imperialista.

Ao contrário do que defendem alguns partidos comunistas, apesar do mérito que lhes deve ser reconhecido por terem combatentes em Rojava, a utilização da expressão “contradições inter-imperialistas” é mistificadora. É uma expressão que não encaixa na realidade, não encaixa na estrutura imperialista que existe hoje. Não há vários impérios em competição. Há uma pirâmide imperialista claramente hegemónica, com o seu aparelho militar e os seus instrumentos de exportação de capitais. Há contradições dentro da pirâmide, uns estão no vértice e outros na base, há até quem queira partir a pirâmide e replicar os seus instrumentos financeiros e militares numa nova estrutura (Cooperação de Xangai), mas o que existe agora são contradições imperialistas porque há uma estrutura imperialista. E no presente conflito, esta é a primeira contradição. A primeira contradição é o imperialismo.

Não se fazem processos de libertação nacional nem social em alianças tácticas com o imperialismo. O imperialismo é o primeiro inimigo. Em 1998 o imperialismo era o principal inimigo de Hafiz quando este baixou as calças. O imperialismo é o primeiro inimigo do povo curdo acossado pelos takfiris.

E se o imperialismo tinha como função manter curdos e sírios afastados, então até aqui teve sucesso. Mas acaba de cometer um erro: não se atacam dois inimigos desavindos ao mesmo tempo. Os inimigos deitam-se abaixo um de cada vez. Agora o espaço está aberto para alianças.

Nem o PKK, nem a República Árabe Síria são forças revolucionárias. Delas só se pode esperar que façam o que têm de fazer para sobreviver (o que já não é pouco).

A República Árabe Síria apenas é um pilar da resistência porque necessita de o ser para sobreviver. O PKK só voltou às armas porque necessitou de o fazer para sobreviver.

A realidade tratou de empurrar a Síria para o seu lugar natural. A realidade tratou de empurrar os curdos para o seu lugar natural. Por mais espinhos que tragam na bagagem, estão condenados a ter que se entender.

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