Apartheid não rima com cultura

Esta carta foi redigida pelo movimento BDS tunisino e é dirigida aos cineastas tunisinos convidados a participar na secção magrebina do Festival de Locarno 2015, que dará carta-branca ao cinema israelita. Traduzimos assim o texto integral uma vez que ele é de interesse geral, e em particular a todos os cineastas e agentes culturais. Sobre o assunto vale também a pena ler a entrevista a Eyal Sivan, publicada no Le Courrier

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Carta aberta a Nadia Rais, Nejib Belkadhi, Hind Boujemaa, Mohammed et Mehdi Ben Attia:

“Não deem carta-branca ao apartheid israelita”

A campanha tunisina pelo Boicote a Israel está profundamente triste de saber que programaram a vossa participação na secção “open doors” consagrada ao cinema magrebino do Festival de Locarno (5 e 15 de Agosto 2015). Um ano depois do massacre israelita perpetrado em Gaza no Verão de 2014, onde mais de 2 mil palestinianos, entre os quais 500 crianças, foram assassinadas, o festival Locarno 2015 decide dar um lugar central no festival com “uma carta-branca ao cinema israelita” – sete filmes em fase de pós-produção são apresentados a profissionais para lhes facilitar a finalização e distribuição – e isto no contexto de uma cooperação com o “Fundo Israelita do Filme”, fundo esse que é um organismo apoiado pelo Conselho Israelita para o cinema que o governo Israelita mandatou como organismo consultivo de financiamento de filmes (…) beneficiando também do apoio do departamento “Cinema” do Ministério dos Negócios Estrangeiros, cujo objectivo é “promover os filmes israelitas no estrangeiro com o apoio dos assistentes culturais das embaixadas israelitas pelo mundo”. É importante lembrar que este mesmo Ministério dos Negócios Estrangeiros, escolhido como parceiro do festival, justificou os ataques brutais de Israel contra os civis palestinianos e as suas infraestruturas.

Estamos a escrever-vos para vos incitar a juntarem-se ao boicote lançado em Abril pela PCABI (Palestinian Campaign for the Academic and Cultural Boycott of Israel) intitulado: “não deem carta-branca ao apartheid israelita” e foi assinado por mais de 200 cineastas, artistas e actores culturais. Divulgada pelo movimento internacional BDS e, na Suíça, pelo Comité dos artistas e actores culturais solidários com a Palestina, esta carta aberta incita Locarno a reconsiderar a sua parceria com o Fundo Israelita do Cinema, órgão nacional de financiamento e promoção. Ela explica que se o objectivo do festival é apoiar certos cineastas israelitas ou difundir filmes israelitas, existem múltiplas maneiras de o fazer sem aceitar o financiamento ou outras formas de apoio da parte de organismos estatais e governamentais israelitas.

Entre os assinantes figuram cineastas e profissionais da indústria do cinema como Ken Loach, Jean Luc Godard, Alain Tanner, realizadores palestinianos como Anne Marie Jacir, Elia Suleiman, e realizadores israelitas como Eyal Sivan, e, claro, artistas árabes, entre os quais vários tunisinos como Sawsen Saya, Nejma Zeghidi, Ridha Tlili, Jilani Saadi, Asma Chiboub, Moncef Taleb, Azza Chaabouni, Fatma Cherif, Ismael Lemasi, entre outros.

Em 2004, inspirado pelo boicote cultural triunfante na África do Sul apartheidista e apoiado pelos principais sindicatos e associações culturais palestinianas, o PACBI lançou um apelo à resistência sob a forma de um boicote universitário e cultural das instituições implicadas na ocupação e apartheid israelitas. Nesta carta que vos dirigimos, desejamos destacar a importância deste apelo palestiniano, sublinhando o fundamento justo do movimento mundial do Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra Israel.

O apelo palestiniano de 2004 pedia aos artistas internacionais para recusar as produções em Israel ou participar em encontros que servem para meter em pé de igualdade o ocupante e o ocupado, contribuindo assim para a reprodução da injustiça. Em seguida, em 2005, uma grande maioria da sociedade civil palestiniana apelou ao boicote global fundado nos princípios dos direitos humanos, de justiça, liberdade e igualdade. O movimento BDS adopta uma estratégia não violenta moralmente coerente para responsabilização de Israel segundo as mesmas normas de direitos humanos que outras nações. Pede aos artistas para ter em conta o apelo de Boicote até que “Israel se retire das terras ocupadas em 1967, incluindo Jerusalém Este, retire todas as colónias destes territórios e cumpra todas as resoluções das Nações Unidas referentes aos direitos dos refugiados palestinianos, desmantelando o seu sistema de apartheid.”

Pedimos-vos para se juntarem a todos os artistas magrebinos que decidiram não servir de caução a um festival que legitima o regime de opressão israelita e reforça a impunidade de Israel anulando a vossa participação neste festival. A agressão israelita do Verão 2015 durou 51 dias, aniquilando famílias inteiras dentro das suas casas. Tudo o que resta dessas famílias são relatórios oficiais dizendo que existiam. Um canto racista israelita goza com as centenas de crianças palestinianas assassinada por Israel durante o massacre que foi perpetrado em Gaza: “Amanhã, não existirão escolas em Gaza, elas já não têm crianças”. Aceitar participar num festival que beneficia directamente do apoio institucional israelita é enviar a todos os palestinianos a mensagem que a vida deles não conta e que os seus direitos fundamentais não são dignos de consideração.

Aliás, estamos convencidos que a causa palestiniana é também e mais do que nunca um problema tunisino. O nosso combate local na Tunísia pelas liberdades individuais e colectivas nas quais os artistas ocupam um papel central; a nossa luta contra a opressão em todas as suas formas politica, económica, simbólica e cultural despoletada pelo período revolucionário de 17 de Dezembro 2011 será melhor servido se vocês tiverem uma posição de principio contra a opressão racista e colonial de Israel, recusando servir de caução à carta-branca dada à impunidade israelita pelo festival de Locarno. Este combate não tem sentido se não se afirmar uma solidariedade com todos os povos em luta, uma vez que mais do que nunca a solidariedade é a única maneira de resistir contra a opressão cada vez mais feroz a todos os níveis. Finalmente, recusar de participar neste festival, apenas aumentará a vossa credibilidade na Tunísia junto de um público que segue a vossa carreira.

Como comentou Elvis Costello : «Há ocasiões onde o simples facto de acrescentar o seu nome a um programa de concertos pode ser interpretado como um acto político que ecoa mais de que uma qualquer canção e que pode ser apercebida como um acto que não tem nenhuma atenção ao sofrimento dos inocentes”.

PACBI e o movimento mais vasto BDS, representando a maioria absoluta da sociedade civil palestiniana, pede-vos assim que respeitem o nosso combate. Pedimos-vos para apoiar a nossa estratégia de resistência não-violenta e de não passarem a linha vermelha reclamada pela sociedade palestiniana, assumida pelas organizações árabes e internacionais. Pedimos-vos para terem em conta o nosso pedido recusando divertir o apartheid israelita caucionando a participação no Festival de Locarno que o apoia oficialmente. Esperamos que todos os Tunisinos que participam no Festival do Filme de Locarno se juntem perto daquelas e daqueles que apelam ao boicote. Esperamos que saibam reconhecer a situação trágica na qual se encontra o povo palestiniano, que meçam o peso e o simbolismo de uma participação neste festival e que escolham defender a dignidade humana diante a barbárie e injustiça perpetrada contra todo um povo, contra todos os povos.

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