Cartas do vale #13

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Para o fim da tarde um pé-d’água. Abateu-se sobre as ervas altas um aguaceiro que cobriu o campo de vigor que andava mortiço com o tempo seco. Corri à curva da estrada, abriguei-me na paragem do autocarro que sabia haver. Julgo ter ouvido o cantar das cobras que se atende sem dificuldade depois da chuva cair. Tem a forma prolongada do silêncio que é de vidro e quebradiço. Para não me esquecer que a duração do contentamento é curta e limitada à docidão daquilo que se sente, inalei profundamente a humidade. O 736 faz o percurso de S. Francisco até ao fim da carreira e volta para trás fazendo uma estrada diferente. Nesse caminho esticam-se ao céu umas finíssimas palmeiras a fazer lembrar o império e os seus lugares excêntricos. Para lá do mar, perfumes, terra vermelha, o céu repleto de electricidade, talvez montanhas. A paragem encheu-se de gente. O condutor olhou para mim, fiz-lhe sinal que não pretendia entrar, o carro arrancou direito ao seu destino.
A mulher do capitão aparecia ao postigo da janela da marquise sempre que sentia bulício nas imediações do pátio. Fosse borrasqueiro ou gente, metia logo a cabeça pela janela fora. Sacudiu-me com um grito. Estava a fazer-me reparos por comer fruta arrancada das árvores. O diabo não mora aqui. Disse-lhe a sorrir. Temo que a sua boa intenção tenha outro propósito, que se deva a um maligno instinto de curiosidade. Sabes o que aconteceu ao outro que andou por aí a comer fruta das árvores? E a quem é que isso interessa? Respondi-lhe. Para dentro da minha alma não respiras tu. Apontei-lhe o dedo em forma de pistola. A mulher do capitão quando não tem nada para fazer bate à porta dos vizinhos para rematar um ponto de conversa. As bolas que apanha no quintal nunca mais ninguém as vê. Jurei um dia atirar-lhe uma pedrada à janela, partir-lhe um vidro, mas nunca o fiz. Entrou-me pelos ouvidos outra vez, mas já tinha saltado o muro que dá para o quintal da Isabelinha. Ela estava a falar, a falar, a falar e vejo a Isabelinha e uma amiga. Estão duas a brincar. O quintal tem uma casa de madeira que o pai da Isabelinha lhe fez antes de morrer. Parece que foi enterrado mesmo por baixo da árvore que dava sombra sobre a construção. Uma árvore muito grande que deveria ser uma nespereira, ou coisa parecida. Antes de morrer via-o muitas vezes a fumar no quintal de camisola interior, calças pretas e chinelos de quarto, a olhar em frente, para a base da árvore. Provavelmente, magicava construir uma casa de madeira, uma arrecadação. Era um daqueles tipos que pensavam na direcção das coisas, A forçaram como olhava denunciava a intenção de fazer uma coisa qualquer naquele sítio. Vai-te embora, não te queremos aqui. A Isabelinha era uma mandona e brincava mal. Não te queremos aqui, ouviste? Aquilo terminava sempre em tragédia, mas eu corria mais. Acabávamos sempre à tareia. Desta vez fui eu que lhe bati primeiro antes que ela se atirasse a mim. Ao lado da casinha de madeira havia o sítio onde do pai do Flávio guardava as lata de tinta vazias que trazia da construção civil. Era um estupor, roubava tudo o que podia no trabalho, ferramentas, materiais. Bati-lhe com uma lata das grandes antes que ela pudesse adivinhar a minha intenção. Ela era magra, uma autêntica linha, um palito, rolou no chão com o impacto da pancada. Levantou-se a chorar, a chamar-me nomes. Cabrão de merda, vais pagar-mas, vais ver. Vou dizer ao meu irmão. O irmão dela era o Jerónimo que haveria de morrer um dia não muito distante. Se o Jerónimo aí viesse teria de chamar o Nuno que era meu amigo e seu grande amigo. Fugi desabrido para longe atravessando todos o quintais como podia. Do meu esconderijo ouvi os rodízios dos estendais. Vem cá outra vez se és homem. Homem, eu? A voz dela por cima do barulho das cordas da roupa, ao longe, uma sirene perdida no nevoeiro dos quintais. A isabelinha ofendida gritava como uma doida e veio tudo à janela. A mãe dela vestida de preto com um gato ao colo, as pessoas às riscas levantaram-se das suas cadeiras no interior das suas casas para verem a Isabelinha berrar. Posso comer mais um damasco? Ela deu-me outro a comer. Sabes para onde vão os cães quando morrem? Não me respondeu. Propunha-me a simplificar os acontecimentos do mundo à existência das coisas, à distância da minha capacidade de observação. Sabes para onde vão as coisas quando morrem? A natureza do assunto era delicada. Queres mais damascos?, Posso arrumar isto tudo? As janelas grandes começavam a cobrir-se de nuvens. Adivinhava-se lá fora uma espécie de mau tempo. Os mortos guardam-se num território demarcado, evitamos lá passar senão sob a forma de uma história contada na pessoa do outro. Há sempre demasiado silêncio quando se passa nestes sítios, tosses, carpires dolentes, suspiros, as palavras são ditas em voz baixa. Existem lugares temporários onde se guarda tudo antes de colocarmos as coisas definitivamente no seu sítio. Eu sabia disso, já tinha visto o aspecto das coisas quando desaparecem. E os cães? Uma empresa estrangeira transforma o defunto em cinzas e as cinzas do defunto em diamantes que são usados pela família. As jóias da família, a ciência e as suas novidades assustadoras, lá fora o tempo a pôr-se a jeito de uma tormenta que sabemos que vai ser curta. Está calor e é tempo de comer damascos. A morte é uma potência primitiva de expressão consensual. A questão é confusa, podemos até ser lançados num grande lago de fogo por engano. A finitude é perpétua e ela foi até varanda ver a roupa estendida e olhar para o céu. Disse para si que ia chover. Chega-me o cesto das molas da roupa, por favor. E eu dei-lhe o cesto e ela tinha aquela expressão de quem tem uma dor na coluna quando o tempo apresenta mudança repentina.

About JMGervásio

Sou pessoa alta, magra por criação, amante de velocípedes e de quase tudo que implique não fazer à segunda - quero dizer, sou do tipo espontâneo. Licenciado em altos estudos artísticos na ESBAP, tenho, desde lá, desenvolvido uma certa tendência para o comércio a retalho e agricultura de terraço. Possuo momentos de grande felicidade e civilidade que nem sempre são devidamente apreciados.

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