Yurikuma Arashi, ou a revolução segundo as ursas lésbicas (Parte 1)

YuriPt1_fig1O processo revolucionário em curso de Ginko e Kureha.

Kunihiko Ikuhara – ou simplesmente Ikuni, pet name atribuído afectuosamente pelos fãs – é uma figura de culto e homem de múltiplos talentos, mais conhecido como realizador da mítica série de animação Revolutionary Girl Utena. Ao longo da sua carreira, trabalhou na indústria do anime (incluindo no mega-popular Sailor Moon), compôs e interpretou bandas sonoras, escreveu novelas e banda desenhada, supervisionou jogos de vídeo e musicais e, acima de tudo, construiu uma linguagem autoral única, densamente simbólica, surreal e repleta de leitmotivs reconhecíveis. Não por acaso, David Lynch e Stanley Kubrick figuram entre os realizadores pelos quais Ikuhara nutre uma admiração confessa.

YuriPt1_fig2bÉ o Kunihiko Ikuhara.

Apesar de todo o street cred, a filmografia dos seus projectos autónomos é curta: depois de Utena, em 1997, só voltou aos ecrãs 14 anos depois, em 2011, com Mawaru Penguindrum. É por estas e por outras que, quando se anuncia um anime do Ikuni, este não é apenas um anime; é um evento por direito próprio.

YuriPt1_fig3Ikuni in a nutshell

Foi o caso de Yurikuma Arashi, uma série de 12 episódios que veio aquecer a temporada invernosa entre Janeiro a Março deste ano. O título pode ser traduzido livremente como “Tempestade das Ursas Lésbicas” (sim, leram bem!) e é isso mesmo que nos entrega… bom, pelo menos a parte das lésbicas e ursas, já que a tempestade é mais metafórica. A mim bastou-me ver o genérico para me vender a série, já que o de Yurikuma é um dos mais bonitos, fofinhos e deliciosamente perversos que se viram nos últimos tempos.

Curiosamente, ao contrário das aberturas dos anteriores Utena e Penguindrum, em que a separação e os desencontros são motivos recorrentes (aludidos, por exemplo, nas mãos que se tentam agarrar mas acabam por escorregar ou largar-se), o de Yurikuma é todo ele sobre o toque, o contacto e reunião entre corpos, rematado pelos potes de mel entornados que parecem tudo querer envolver na sua doçura.

YuriPt1_fig4Mãos que se separam em Revolutionary Girl Utena.

YuriPt1_fig5YuriPt1_fig6Mel e mimos em Yurikuma Arashi

Mas não nos deixemos enganar: separação e exclusão, sacrifício, crime e castigo, são temas centrais ou não fosse esta série Ikuhara em esteroides de uma ponta à outra. E o amor, claro, como força inexorável em torno da qual todos estes gravitam e embebe o visual da série, através das citações e détournement de elementos do shoujo manga (banda desenhada para raparigas), tipicamente associado ao romance.

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Os motivos florais são  um staple do shoujo manga e um dos preferidos de Ikuhara.

A outra grande referência é Suspiria, de Dario Argento, um clássico do cinema de terror sobre uma academia de ballet demoníaca que enforma Yurikuma nos pastiches arquitectónicos e alguns plot points significativos. Pelo meio, identificam-se ainda referências a outros “terrores” ilustres, como Psycho de Hitchcock ou The Shining de Kubrick. Todos são filmes onde o edifício ou a casa tem um peso particular, contribuindo para uma topografia psíquica de que Ikuhara é comprovadamente fã (vejam-se as arquiteturas de Utena ou Penguindrum). Em Yurikuma, este “terror” é mediado por uma sensibilidade pulp irónica − a expressão kuma shock! (“choque urso!”) tornou-se num meme instantâneo entre os fãs da série −, criando contrastes propositados e uncanny com os acontecimentos no ecrã, alguns deles francamente perturbantes.

[SPOILERS DO PRIMEIRO EPISÓDIO DAQUI PARA A FRENTE!]

A história começa com Kureha Tsubaki, uma estudante num liceu para raparigas. Correcção: num mundo para raparigas, em que não se avista um único homem nas redondezas (os únicos personagens masculinos da série aparecem em momentos circunscritos e sempre fora da “realidade” ou “actualidade” narrativa). Nesse mundo, os humanos construíram a chamada Muralha da Exclusão (o termo em japonês é “danzetsu”, palavra polissémica implicando “separação”, “interrupção”, “ruptura”, “extinção”), uma “muralha” que é menos uma parede sólida do que um skyline omnipresente de prédios com gruas e andaimes, qual “obras de Santa Engrácia” sem fim à vista.

YuriPt1_fig8A omnipresença sinistra da Muralha da Exclusão.

O objectivo desta vedação gigantesca é separar o mundo humano dos ursinhos kawaii que têm o péssimo hábito de comer rapariguinhas ao pequeno-almoço. Não é por mal; está simplesmente na sua natureza!

YuriPt1_fig9Ursos serão ursos serão ursos.

No primeiro episódio, Kureha vive em beatífico amor lésbico com a sua colega Sumika, quando esta última é comida por uma ursa antropomórfica infiltrada no liceu. Enquanto procura vingar a morte de Sumika e lidar com eventos traumáticos do seu passado, a pobre Kureha vê-se ainda a braços com uma organização maléfica, a Tempestade Invisível, cujo objectivo é “excluir” (leia-se: executar) dissidentes que ousem não se conformar à normatividade social (simbolizada por um padrão em forma de bando de pássaros, decalcado de Argento). A jornada de Kureha completa-se com Ginko e Lulu, duas ursas que têm a sua própria agenda e cujos destinos amorosos se entrecruzam profundamente com o da protagonista.

YuriPt1_fig10YuriPt1_fig11Em cima, a morte trágica de Sumika Izumino. Em baixo, a mentalidade de rebanho da Tempestade Invisível.

YuriPt1_fig12 YuriPt1_fig13A Tempestade Invisível em acção, seleccionando a próxima vítima com smartphones. Note-se o padrão do bando de pássaros sob as mesas escolares, em baixo.  

 A coroar este setup está o Tribunal da Exclusão, onde ocorre o Julgamento do Yuri, presidido por três ursos antropomórficos: Life Sexy, o juíz (com a sua catchphrase “shaba-da-doo”); Life Cool, o advogado de acusação; e Life Beautiful, o advogado de defesa.

danzetsu_2Tribunal da Exclusão: Life Sexy (ao centro), Life Cool (à esquerda) e Life Beautiful (à direita). 

YuriPt1_fig15Ginko e Lulu num Julgamento do Yuri.

Esta entidade, à laia de superego reinante sobre humanos e ursos, tem como função aprovar o yuri e desencadear uma sequência de transformação à la magical girl com as ursas Ginko e Lulu, Kureha e metáforas menos-que-subtis envolvendo lírios e mel.

As implicações ideológicas de Sexy, Cool e Beautiful – na prática, os únicos homens da série – aparecerem para julgar as protagonistas e aprovar as suas ligações amorosas em sequências coreográficas hipersexualizadas não passaram despercebidas, e têm levantado a sua quota-parte de polémica na fandom. Ikuhara não é, porém, nenhum estranho a empregar a linguagem do fan service e do ecchi de modo a provocar os espectadores, revolvendo tabus (homossexualidade, incesto, violação, pedofilia) e escarafunchando as políticas do gaze e relações de poder para efeitos cómicos, simbólicos, creepy e/ou simplesmente desconcertantes (de uma forma que, quer em Utena, como em Mawaru, como em Yurikuma, passa recorrentemente pela consciência dos instrumentos ópticos e do seu papel na objectificação escopofílica dos corpos).

YuriPt1_fig21bSelo de aprovação pelo Tribunal da Exclusão.

Tal como o nome indica, o yuri é um tema central em Yurikuma Arashi, e embora no início deste texto o tenha traduzido livremente por “lésbicas”, o termo refere-se a um género de ficção − manga, anime, novelas… −  envolvendo relações homossexuais entre mulheres (literalmente, “yuri” significa “lírio”; daí a abundância simbólica desta flor na série). Ao tematizá-lo, Yurikuma posiciona-se (aparentemente) na tradição de séries yuri dirigidas a um público masculino como Strawberry Panic! ou Sakura Trick, algo desde cedo sugerido pelas imagens promocionais em que as protagonistas são representadas com panchira (um clássico do male gaze no anime). Ikuhara parece, assim, dar razão às vozes que o acusam de ter um fetiche pela transgressão, e não pelo progresso, social.

YuriPt1_fig22 YuriPt1_fig23Conheça as protagonistas. E as suas cuequinhas.

Não descartando um fundo de verdade nesta acusação (fan service autorreflexivo não deixa de ser fan service), há que dizer que nos anime de Ikuhara nada é o que parece, ou no mínimo há vários estratos sedimentados sob a sua superfície. Não é estranhar, portanto, que em Yurikuma o voyeurismo masculino apareça enquadrado pelas imensas referências espalhadas à série Maria-sama ga miteru (literalmente, “A Virgem Maria está a ver”), abreviada para Marimite. Marimite é talvez  o mais icónico yuri contemporâneo, particularmente celebrado por ter reanimado o género “classe S“, uma forma quintessencial de girls‘ culture japonesa com origens no início do século XX, dirigida a um público feminino adolescente e focada na componente romântica e espiritual das relações entre raparigas, mais do que na sua sexualização. Os paralelismos são muitos,  mas o mais inequívoco é Kumaria, a deusa que “está a ver” no universo de Yurikuma e acaba por revelar-se decisiva na resolução da série. “Kumaria”, ou “Kumalia”, resulta da contracção entre a palavra japonesa “kuma” (“urso”) e o nome “Maria”, num trocadilho que, numa versão pouco elegante em português,  poder-se-ia traduzir como “Virgem Ursaria”.

YuriPt1_fig24Capa da primeira novela de Maria-sama ga miteru

YuriPt1_fig25 YuriPt1_fig26Em cima, pétalas brancas, vermelhas e amarelas e pose reminiscentes de Marimite. Em baixo, uma representação da deusa Kumaria.

Ao justapor duas faces da moeda do yuriYurikuma aponta para a ambivalência enraizada neste género ficcional onde coexistem sob a mesma designação produtos male-oriented e female-oriented (algo que não acontece, por exemplo, no caso do boys’ love). Reconciliar estes dois polos não é tarefa impossível nem inédita, até porque a linha que os separa é, não raras vezes, esbatida. A escolha de Akiko Morishima para character designer de Yurikuma também não será neste sentido acidental, sendo uma autora que tem publicado as suas histórias quer em revistas de yuri para raparigas, como a Comic Yuri Hime, quer na sua “irmã” Comic Yuri Hime S, dirigida ao público masculino e mais acentuadamente moé.

yuri_himesExemplos de capas das revistas Comic Yuri Hime (esquerda) e Comic Yuri Hime S (direita). A diferença de estilos é bem visível (mais shoujo na primeira, mais moé na segunda), mas no interior esta distinção é menos marcada – principalmente, desde que as duas revistas se fundiram em 2010, e muitas séries male-oriented foram integradas na Comic Yuri Hime.

A diferença é que, em Yurikuma Arashi, não se trata de uma paródia ou apropriação (Strawberry Panic! e Maria†Holic, por exemplo, são deliberadamente derivações paródicas de Maria-sama ga miteru), nem de uma flexibilização do imaginário para agradar a um público-alvo alargado. Antes, ao introduzir estrategicamente elementos das tradições masculina e feminina do yuri, Ikuhara parece interessado em mobilizar esta hibridez não de forma a reuni-los num todo resolvido, mas deixando visíveis as suas (problemáticas) costuras. E é assim que, em Yurikuma, podemos encontrar o discurso do amor espiritual (ren’ai) importado da “classe S” ao lado de (yurirape fantasies, ou paródias ordinárias do male gaze seguidas do Ave Maria de Bach-Gounod. Chamem a polícia!

Na próxima parte: mais ursas lésbicas, claro, porque o mundo precisa disso.

Yurikuma_final

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About ɳek✿usagi✞aɲ

Nekousagitan nasceu em Lisboa e é demasiado velha para andar a fazer bonecos e a ver desenhos animados. De dia, está a tirar um doutoramento em Pintura na FBAUL. Quando o sol se põe, faz parte do colectivo de zines Clube do Inferno (para compensar). Quando for grande, o seu sonho é ter uma dakimakura.

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