Quando a nossa festa s’estragou, e o mês de Julho se vingou, eu olhei p’ra ti e então entendi, foi um sonho lindo que acabou, houve aqui alguém que se enganou. *

desobedecer

O BE, mais rápido que a própria sombra a reivindicar as vitórias do Syriza, demorou mais de 24 horas a começar a escrever sobre a primeira grande derrota do seu partido na Grécia. Curiosamente, tal como o PCP (embora a este ainda se arranque um ar: “um processo de ingerência e chantagem que não deixando de tirar partido de incoerências, contradições e cedências do Governo grego”), ambos os partidos conseguem escrever sobre o que dizem ser “um golpe de estado” e a “chantagem” (que raio de golpe de estado é esse em que o chefe do Estado golpeado assina os termos do Estado golpista?) sem nada dizer sobre a gravidade da obediência do Syriza. Francisco Louçã, na sua habilidade habitual, e Catarina Martins, na sua igualmente reputada inconsistência, conseguem mesmo escrever toda a sua análise sem escrever uma única vez o nome do partido irmão que colocou a assinatura no famigerado acordo de Bruxelas. Sim é Sim (NAI é NAI), Não é Não (OXI é OXI). Desobedecer não é obedecer.

Felizmente, ao contrário do que nos escrevem, com dedos de veludo, aqueles que cá fariam exactamente o mesmo que o Syriza na Grécia e em Bruxelas, há quem não se agarre a nenhuma nostalgia, a nenhuma melancolia, a nenhum paternalismo, e se atira ao papel e à caneta para deixar escrito as vírgulas da alternativa. Assim fez , militante da ala esquerda do Syriza no seu artigo “Do absurdo à tragédia“, ou Eric Toussaint, histórico militante mandelista e aliado de sempre do partido de Tsipras, alinhavando as ideias centrais para um caminho alternativo à criminosa eurocracia. Assim que quem se espantou e quem viuvou seque as lágrimas e lamba as feridas vale a pena ler, reflectir e partir, com bagagem renovada, para a luta política a este famigerado acordo.

* Título adaptado da música “Eu Vim de Longe”, do José Mário Branco. \ Entretanto o BE, através do Esquerda.net, já publicou uma espécie de posição oficial, decalcada das declarações de Tsipras. What else? 

5 thoughts on “Quando a nossa festa s’estragou, e o mês de Julho se vingou, eu olhei p’ra ti e então entendi, foi um sonho lindo que acabou, houve aqui alguém que se enganou. *

  1. “tal como o PCP”?!

    Onde é que o PCP bajulou o Syriza? A sua solidariedade foi sempre para com o povo grego. A sua análise diz que este acordo não é a vontade dos que votaram no referendo:

    “Independentemente de ulteriores análises e desenvolvimentos, as decisões agora anunciadas são profundamente contrárias às aspirações e interesses dos trabalhadores e do povo grego e à vontade de mudança de política expressa nas eleições de 25 de Janeiro e no referendo de 5 de Julho, representando a continuação e aprofundamento do caminho que levou a Grécia à actual situação de catástrofe social e económica e de delapidação dos seus recursos, património e riquezas, e que a mantém amarrada aos constrangimentos e condicionalismos do “Mecanismo de Estabilização Europeia”, do Euro, do Tratado Orçamental, da Governação Económica e do FMI.”

  2. Uma vez, já há dois ou três anos, lembro-me de perguntar a José Gusmão, ex-deputado do BE, se a requesição do Banco de Portugal por parte do governo português num caso de emergência — como aquela que viveu a Grécia e que nós também víveremos. A resposta foi um imenso sorriso paternalista por parte do “radical de esquerda” e a passagem em menos de nada a outra questão. Já há muito que estou convencido que, chegada a hora da verdade, o BE irá capitular, por europeísmo ingénuo, estúpido e criminoso, e bem mais depressa que o Syriza.

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