A arrogância dos incrédulos e as viúvas do Syriza

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Alex Andreou e Marisa Matias escreveram dois textos que estão a encher as medidas dos mais incrédulos e, cada um à sua maneira, lá nos explicam que ainda nada está perdido e que é precoce, errado e abusivo retirar o apoio ao Syriza e ao seu governo, mesmo depois deste aprovar um plano de austeridade contrário de tudo o que defendeu para chegar onde chegou. Enchem as medidas de todos aqueles que teimam em olhar para a realidade baseando a sua análise nos desejos, não em factos. Aqueles que insistem em cantar alegrias a fingir, aqueles que nunca aprendem nada com a tristeza respiram de alívio: “Ufa… ainda há alguém com esperança…”. Disparam para todos os lados sem perceber que aqueles que defendem escolheram passar a ser o alvo.

Alex Andreou, incapaz de defender uma linha do acordo – que não tem linhas fáceis, ora pois – acusa todos os que criticam o Syriza de fazer política a partir do sofá. Esquece que as críticas mais violentas têm origem em muitos dos obreiros do Syriza, como Manolis Glezos, que com coragem nos diz que “o fumo branco da cimeira vem das cinzas da Grécia”, de Stathis Kouvelakis, que exorta o seu povo a lutar contra o “europeísmo de esquerda” que cavou esta derrota ou mesmo contra as centenas de milhares de gregos que se manifestaram à porta do parlamento contra o acordo e que já anunciaram uma greve geral para a próxima quarta-feira.

Marisa Matias apela à peneira do acordo, até que ainda se encontre uma vírgula que seja fiel ao programa do Syriza. Um grão de farinha basta para que ela continue convencida de que está a meter um pau na engrenagem. Acha que “antes a incerteza arriscada que a certeza cobarde”, mesmo quando já ninguém tem incerteza alguma sobre o que é hoje a vontade do Syriza. Vê grandes feitos a partir de medidas que vão obrigar os gregos a mais não sei quantos anos de cadafalso e relativiza o cadafalso ao pé de grande feitos como os que permitem que “a Grécia volta aos mercados, o BCE volta a poder comprar títulos de dívida, há uma transformação ao nível das maturidades da dívida detida pelo BCE, transformando dívida de curto prazo em dívida de longo prazo e com juros mais baixos”. Para ela, ora pois claro, quem não vê o lado magnífico destes avanços – “Esta transformação é de uma importância profunda” – não vê ou no mínimo está de “má vontade ou má fé.” Até porque, acrescenta, a Grécia obrigou ainda a Europa a aceitar um “um pacote de reformas no combate à fraude e à evasão fiscal”, incapaz de ser traduzido por actos concretos num país que vai aliar a austeridade à fuga de capitais.

O jogo ainda não acabou e a greve geral é disso prova manifesta. É verdade. Mas para que o jogo chegue pelo menos ao prolongamento, além de enfrentar a eurocracia agora os gregos têm também que lutar também contra aqueles que se vergaram aos pés das serpentes e se mostraram disponíveis para continuar a legislar em nome do fascismo financeiro que tem destruído a vida dos gregos e da generalidade dos povos do sul e dos trabalhadores do norte.

Estão tristes? Pois que chorem. Não travem as lágrimas que nos impedirão de aprender com a história e de transformar esta derrota na clareza, urgente, de que há terroristas com os quais não se negoceia. Das mesas de negociação de Bruxelas a única coisa que devemos esperar é o grau de intensidade com que irão continuar a alimentar o Reich em que se transformou a Europa. O tempo das ilusões tem que acabar. É essa a única vitória que podemos tirar desta derrota.

9 thoughts on “A arrogância dos incrédulos e as viúvas do Syriza

  1. Então quem devemos apoiar? Para quem vê a realidade é dificil, durante um jogo só se pode apoiar quem está em campo, os de fora cheiram a tabaco. Não há solução fácil e o Syriza ao menos está em campo, se devemos ou não meter a mão no fogo é outra questão. Apoiar é o mínimo que o meu bom senso pede, é o que dou. Afinal todos os outros são infinitamente piores, são as circunstâncias.

  2. Caro Ateu,

    Está a fazer as perguntas erradas.
    Agora que já descobrimos os limites de votar e ser eleito para o parlamento burguês, de ser governo do estado burguês. nós percebemos que não temos de nos limitar a “apoiar” alguém que está “lá”, “no campo”, a representar-nos, a fazer a luta por nós. Somos nós que temos de ir ao combate, não é a Marisa Matias.

    Não estamos condenados a ser espectadores e consumidores de política. Nós devemos querer ser actores do nosso futuro. Isso não significa deixar de ir votar, isso significa perceber que o voto tem a importância de um cagalhãozito no meio deste processo.

    A questão não é “quem apoiar”, mas “O que fazer?”. O que fazer, agora que tivemos a quinquagésima demonstração prática de que o reformismo não funciona.

    Na minha modesta opinião, o movimento social está neste momento em condições de se libertar do reformismo, deixando de ser apêndice de partidos que são extensão de grupos parlamentares. Deixando de teatralizar e mediatizar o espaço de luta com o folclore que alimenta as máquinas partidárias. A solução é criar espaços novos, dinamizar colectivos que sejam efectivas ferramentas de combate, que confrontem os inimigos das classes trabalhadoras.

    Que confrontem com o que têm, não significa que não hajam traficantes de armas, que são necessários aos grupos que correm mais à frente e preparam agora os cenários mais avançados de luta. Mas ninguém disparará um tiro sem saber que há uma parte da sociedade que o protege. Isso seria blanquismo. O blanquismo tem o mesmo problema que o reformismo: não funciona, neste caso porque corta a ligação entre a vanguarda e massas, e deixa a vanguarda isolada à frente a disparar sozinha.

    Ninguém disparará um tiro numa situação de paz social, onde as pedras da calçada ainda são uma novidade para o movimento popular. Entre as pistolas e a pressão de massas na rua metem-se muitos cinzentos. As massas trabalhadoras usarão todas as armas que tiverem: socos e pontapés, as pedras da calçada, cocktails molotov, pistolas, nitrato de amónio, e por aí fora, por ordem crescente de gravidade.

    Resumindo, o que há a fazer neste momento é introduzir dinâmicas concretas de combate no movimento popular.

  3. 1. O que o Manolis Glezos disse foi “o fumo branco da cimeira vem das cinzas da Grécia” e não das cinzas do “Syriza”, como tu gostavas que ele tivesse dito. E foi o mesmo Glezos a afirmar que o que aconteceu na cimeira “foi um golpe”.
    2. O que está convocado não é uma greve geral, mas uma greve da função pública, por um central sindical dirigida pelo KKE.
    3. Não havendo rigor político nas análises, tenta ao menos manter algum rigor jornalístico. E não te esqueças que os homens também choram.

    1. 1- De facto é mais do Syriza do que da Grécia, embora seja verdade em ambos os casos. A frase estava com link para as declarações, mas já está editada.

      2- A greve de hoje vai parar ou não a grécia? É isso que vai determinar se é ou não geral e se abrange mais ou menos do que a força do KKE.

      3 – Vejo sobretudo pouca exigência na hora de reclamar rigor a quem é eleito para cumprir mandatos que não são páginas brancas. Quer falar sobre isso?

      1. O meu comentário não era para ter sido publicado como “reinventar”. Lapso meu, que sou um dos editores azelhas desse blog.

        Sobre o mandato a discussão é circular. O programa do Syriza era contra a austeridade e contra sair do Euro. Não tinham plano B. Entre a austeridade e o Euro preferiram a austeridade. O Tsipras assumiu isso tudo (deve ser o primeiro “traidor” da História a fazer auto-crítica em público). Continuo sem conseguir dizer que sair do Euro no atual contexto daquele país é uma solução melhor, mas parece-me que mais cedo ou mais tarde vamos descobrir.

    2. Isto sim é relevante: jogos de palavras e saber quem manda na central sindical. Não importa nada o que as palavras querem dizer na prática, nem o que deve fazer a central sindical.

      Reinventar o reformismo, dar-lhe um balão de oxigénio, eis a tarefa.

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