Brutal

Retirado daqui.

Um observador desprevenido que passasse os olhos pelos jornais gregos dos últimos dias ficaria com a impressão de estar a observar uma criança de escola primária ao volante de um camião. Poderão alguns objectar que se verifica na Grécia uma poderosa movimentação de massas que exige o fim das medidas de austeridade, da troika, do esmagamento movido pela UE sobre os trabalhadores gregos, ao mesmo tempo que a burguesia alemã, através do seu Governo e da UE, estrutura cada vez mais ostensivamente ao seu serviço, tenta impor por todos os meios o esmagamento desse mesmo povo. Tudo isso é verdade. Mas o que ressalta com mais evidência é a indecisão temerosa, a falta de firmeza, a incapacidade de tomar uma direcção e se fixar nela dos dirigentes gregos. Perante uma realidade material, objectiva, irrefutável, que esmigalha os seus sonhos de uma UE dialogante e preocupada com os povos, incapaz deABRIR os olhos e de a enfrentar e simultaneamente disposto a tudo para não sair dela, o Governo do Syriza enreda-se numa estratégia labiríntica que tão depressa parece a postos para desferir o golpe fatal sobre os interesses do imperialismo com se enconcha num temor patético desse mesmo imperialismo, tudo acatando, tudo cedendo, tudo aceitando.

A história dos últimos dias (!) tem sido especialmente elucidativa nessa matéria. Depois de propor um programa de ajustamento com aumentos de IVA, descontos para a Segurança Social, e aumento da idade da reforma, o Governo grego confrontou-se com uma UE que lhe exigia ainda mais. O Governo do Syriza, recorde-se, não foi mandatado eleitoralmente para aprovar medidas de austeridade. Isso não o impediu de, já em Fevereiro, ter acordado com a troika que só aumentaria o salário mínimo grego caso houvesse acordo entre sindicatos e confederações patronais, e sempre com benefícios fiscais para os segundos, de modo a manterem a competitividade (1); não o impediu deCONTINUAR a negociar a privatização dos aeroportos regionais e do porto de Pireu (2); nem o impediu de assegurar aos credores que não tomaria nenhuma medida unilateral que comprometesse objectivos de equilíbrio orçamental (3). Para deliberar sobre tudo isto, Tsipras, Varoufakis, e Cª Lda., acharam-se senhores de suficiente legitimidade eleitoral. Quando nem com a força cumulativa destas agressões aos trabalhadores mais as que acima se referem o Syriza logrou saciar a besta imperialista, quando os factos duros e brutos impuseram a evidência de que só rompendo com a UE e o euro haverá liberdade para a Grécia (ou para qualquer outro país europeu), o Governo do Syriza, tomado de um súbito amor à democracia e às suas promessas eleitorais, «descobriu» subitamente a sua falta de legitimidade para se impor, e achou que para determinadas medidas só um referendo seria suficientemente legitimador. Em 2011, quando certo PM do PASOK se propôs realizar um referendo a um programa de austeridade, recebeu por objecção que «a forma mais democrática de expressar a vontade popular são as eleições, não os referendos», e a acusação de ser mover por desespero e falta de coragem. O autor destas declarações chamava-se, vejam só!, Alexis Tsipras (4). Todos podemos, reconheço, mudar de opinião. Mas registo o modo «oportuno» como esta mudança de opinião ocorreu.

Desde o anúncio do referendo, o ziguezague do Syriza desenvolveu um serpentear tanto mais rápido quanto mais tonto. Os credores, que sabem que classe servem e que interesses lhes compete defender, imediatamente estrangularam a Grécia financeiramente: a UE recusouCONTINUARa entregarDINHEIRO ao Governo grego; o FMI exigiu o pagamento de uma prestação que vencia ontem, 3ª feira, recordando que nunca nenhum país fora do 3º Mundo deixou de lhe pagar; o BCE ameaçou cortar a liquidez aos bancos gregos. A população grega correu, apavorada, às caixas multibanco e às repartições bancárias, E nesta altura o Syriza pareceu ter um plano B preparado para o dia a seguir ao referendo: cingiu os levantamentos bancários, decretou férias coercivas do sector financeiro até à próxima 2ª feira, encerrou a Bolsa de Valores, e todos acreditaram que pretendia sair do euro. Puseram-se garrafas de champanhe a gelar. Cantaram-se hinos à determinação revolucionária e Tsipras e Varoufakis. Entrevi, posso jurar, lágrimas de raiva contra a eurocracia nos olhos das mesmas pessoas que há menos de um ano me acusavam de nacionalismo e soberanismo por ser (e fazer gala de ser) antieuropeísta dos quatro costados. Foi no entanto sol de pouca dura esta coragem toda: na noite passada, Yannis Varoufakis e Alexis Tsipras pediam um resgate à troika, para vigorar por dois anos (5), e o Governo grego prometia cancelar o referendo se a proposta fosse aceite (6). Nem o FMI, que tinha ficado a arder com a prestação em atraso, era esquecido, e lá se lhe deixava a promessa de que o dinheiro chegaria, claro que chegaria, mas apenas em Novembro.

Conforme disse, os Governos europeus sabem perfeitamente que classe servem e que interesses devem acautelar. A proposta de Tsipras, prova de um pavor absoluto, foi rejeitada pelo Eurogrupo, num exercício abjecto (mas absolutamente previsível) de humilhação do PM grego por ousar desafiá-los. Outra humilhação já fora sofrida por Varoufakis, impedido fisicamente de assistir à última reunião do Eurogrupo, enquanto perguntava, ridiculamente, com que regra lhe era vedado tal acesso. A estupidez, de resto, tem estado viva no comportamento do Governo grego por estes dias: Tsipras, numa alocução ao país que ficará na história pela profundíssima parvoíce do que nela é dito, perante a terceira, quarta, décima, milésima demonstração da natureza antidemocrática e antipopular da UE, depois de ter prometido suspender o referendo se a troika lhe desse dinheiro, apela agora ao Não, embora não deixe de chamar mentirosos, com todas as letras, aos que o acusam [sic] de planear uma saída da Grécia do euro (7)! Afinal de contas, que quer o homem?!

O Syriza, no seu apego religioso à UE, age como um indivíduo que pretende permanecer atado de pés e mãos no fundo de um rio, com uma mordaça na boca, e mesmo assim respirar. E que não cessa de perorar sobre a bondade originária, natural, do fundo do rio, e sobre como têm sido os mais recentes utilizadores e responsáveis pelo rio a torná-lo um lugar irrespirável. A tese é estúpida, bem o sabemos. Mas a tese, acima de tudo, revela até aos mais ínfimos detalhes o carácter de classe do Syriza, pequeno-burguês e sem futuro histórico: incapaz de romper as amarras e de arrancar a mordaça da boca, incapaz de, por outro lado,APLICAR até ao fim o projecto de sufocamento dos trabalhadores gregos (que levará e arrasto as classes intermédias que o Syriza representa, que querem a UE desde que não doa muito), tudo o que lhe resta é ziguezaguear, hesitar, tremer, andar ora para um lado ora para o outro, engonhar quando pode, desmotivar quando verga, ir lenta e contraditoriamente aplicando o programa da troika, em termos práticos.

Há gente no Syriza que tem criticado o Governo Tsipras com razão. Reconheço-o. E julgo ser chegada a hora de essa mesma gente tomar uma medida resoluta e clara para arrancar da frente do caminho estes tontos, cobardes e hesitantes, que não sabem o que querem, ou que querem o que sabem, porque têm obrigação de saber, ser impossível. Chega de fitas, de brincar com a vida dos gregos, de os expor a esta deplorável situação de angústia, de miséria, de indecisão, de ansiedade, de inquietação quanto ao futuro. Os gregos são homens e mulheres, são trabalhadores, são reformados, são jovens, são pessoas de carne e sangue cuja liberdade não podeCONTINUAR a ser objecto de um adiamento permanente porque o Syriza tem medinho dos maus fígados da Merkel, de sair do clubinho europeu, de não poder continuar a pertencer aos países da Europa fina. Chega de hesitar. Chega de iludir. Chega de tergiversar. Chega de decidir tudo e o seu contrário num espaço de horas. A responsabilidade histórica de varrer esta gente e pôr no seu lugar quem queira efectivamente romper com a UE e dar um futuro aos trabalhadores gregos está, neste momento, nas mãos da oposição interna do Syriza. Que estes homens saibam estar à altura dessa responsabilidade, como progressistas, como anticapitalistas, como revolucionários que se reclamam ser, e levantem na Grécia, a favor dos trabalhadores gregos, um Governo que trate estas questões com mínimos de seriedade.

João Vilela

(1) http://www.protothema.gr/files/1/2015/02/18/varouf0.pdf

(2) http://www.ibtimes.com/greece-advanced-talks-chinas-cosco-over-piraeus-port-privatization-1923984
(3) http://www.esquerda.net/artigo/conheca-o-texto-do-pedido-da-grecia-para-extensao-do-emprestimo/35876

(4) http://greece.greekreporter.com/2015/06/27/what-tsipras-had-stated-about-the-greek-referendum-in-2011/

(5) http://m.economico.sapo.pt/inicio/modal/artigo/grecia-pede-ao-fmi-para-pagar-so-em-novembro-e-varoufakis-admite-cancelamento-do-referendo_222459.html

(6) http://www.ekathimerini.com/198759/article/ekathimerini/news/athens-proposes-third-program-as-second-lapses

(7)

4 thoughts on “Brutal

  1. é que és burro!
    mas que minimo de seriedade? não percebes que é uma estrategia de negociação? uma estratégia para lidar com uns adversários sonsos, que dizem cá fora o contrário do que dizem nas reuniões?

    qual é a parte de a unica coisa importante nesta negociação ser a restruturação da divida grega que não percebeste?
    foda-se lá pros anjos de pureza do caralho

    1. Ó Artur,

      O que o post está a tentar explicar é que a táctica negocial para reestruturar a dívida não funciona. Tens dois caminhos: ou o euro, a dívida e a austeridade; ou a ruptura com a UE, a Troika e o não-pagamento. O Syriza assenta nas classes intermédias e portanto não sabe se há de ir para um lado, ou para o outro. O objectivo, parece-me, é fazer pressão de um dos lados consoante os interesses de classe de cada um.

      Mais, o Syriza não tem estratégia. Ora guina para um lado, ora para o outro. O Syriza é uma catraia perdida entre as ondas internas e a pressão imperialista. Este referendo é uma parvoíce. Este referendo é a prova de algodão de que o Syriza não tem estratégia. O famoso Plano Z não existe, portanto aqui só temos bluff. Se o Não ganhar fica tudo na mesma como a lesma, e se o Sim ganhar o governo está ferido de morte.
      0
      Para sair da UE é preciso ter tomates (ou ovários vá..,) é uma aventura, e as classes intermédias neste momento actuam de forma defensiva, protegem o castelo – querem o fim da austeridade, mas não querem pagar o preço por isso. Querem continuar a fazer parte do clube. Este é o problema.

      O Syriza não deve ter carta branca. Deve continuar a sofrer pressão do lado da ruptura. Ou isso, ou então descai para o outro lado e fica um PASOK novo.

  2. Texto pobre, muito mauzinho. Escrito por alguém “que tem eles no sítio” e, do conforto do sofá, está pronto a confrontar a Merkel e toda a Europa em nome do povo Grego e dos que mais. A esquerda “radical” no seu pior.

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