Mensagem de Atenas (II)

Depois de uma primeira mensagem enviada em Fevereiro, um amigo grego endereçou uma nova carta informal a vários amigos estrangeiros que intitulou Democracia hoje? Esta segunda mensagem poderá ser lida enquanto contributo para pensar esse monstro horrendo mas universalmente aceite em que se transformou a democracia, hoje o produto não de debates livres mas de consensos impostos pelos Senhores da economia - consensos que, no estado de emergência permanente em que vivemos, se afiguram para o comum dos mortais, ditatorialmente, como a única saída possível.

Olá, que tal? Espero que estejam muito, muito bem!!

Decidi escrever um pouco sobre a situação na Grécia, já que vivemos uma semana crucial. Após negociações demoradas com a máfia da União Europeia e o FMI, o governo não chegou a um acordo digno como se desejava. Em vez disso, os abutres fizeram uma proposta colonial que apresentaram como a sua última palavra. Uma chantagem clara já que hoje, 30 de Junho, expira a obrigação do país para pagar ao FMI. O governo decidiu pôr essa proposta em referendo para que digamos  ‘sim’ ou ‘não’ a esta “oferta”… É evidente que hoje o país não irá pagar a sua dívida e oficialmente entrará numa forma de incumprimento (default). Está claro que a autoridade estatal juntamente (neste caso…) com a esquerda ampla, os comunistas e os movimentos sociais apoiam o ‘não’. As instituições financeiras, os governos europeus, os meios de comunicação e a direita grega apoiam o ‘sim’. O povo deve pôr-se agora de pé, deve dizer ‘não’ ao neocolonialismo no referendo que se celebrará no próximo domingo.

Pouco depois de que se anunciara o referendo, um acto democrático, a máfia europeia e o FMI tratam de impor o ‘sim’ de vários modos, sobretudo difundindo um clima terrorista sobre o que nos irá passar se dissermos NÃO… Desde ontem que já temos um corralito na Grécia. O Banco Central Europeu negou os pedidos de Grécia só para esta semana para que o referendo se processasse sem impedimentos. Em vez disso, os bancos estão fechados, apenas se permite extrair diariamente nos multibancos uma pequena quantidade de dinheiro. Diz-se que essa quantidade irá diminuir nos próximos dias…

Como esperávamos, os meios de comunicação tratam de atemorizar as pessoas, juntamente com os políticos europeus e seus colaboradores na Grécia, empregando ameaças duras ou suavizadores repugnantes (“amamos o povo grego”, “tratamos de salvar-vos”, pertencemos à mesma família”…). Pretendem assustar-nos, chantagear-nos, afogar o país, e tudo isso não conduz, é claro, a um referendo “livre”… Os interesses são enormes, pelo que nos irão fustigar ainda mais nos próximos dias. O medo transforma-se em dificuldades diárias e assim cresce cada dia. Ainda assim, há que dizer NÃO. Como disse alguém, os nossos avós enfrentaram as balas (na guerra contra o fascismo), nós podemos enfrentar as filas (em bancos, supermercados, etc… contra o neoliberalismo).

Exagerado, sem dúvida, mas tudo surge desmesurado nestes dias.

Beijos!!!

Costas, Atenas

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

One thought on “Mensagem de Atenas (II)

  1. The IV Reich in all its ugliness.

    Some tend to see it as the defeat of the left in Europe.

    Nothing could be more wrong. It is worse.

    This is the greatest defeat of decency, morality and ethics since WWII.

    This is how the world will see Germany in a few years.

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