Pequenas notas imediatas sobre a Grécia

A reacção ao processo negocial entre o governo grego e os credores varia consoante o posição de classe que cada um assume.

Quem vislumbra futuro nesta União Europeia adopta uma posição muito recuada que consiste em louvar o mal menor. Se as medidas negociadas forem mais vantajosas que as inicialmente avançadas e a Grécia se mantém no Euro, mesmo que mantendo a austeridade, então o governo helénico teve uma excelente prestação.

Para quem, como eu, não admite colocar um preço na dignidade do proletariado grego e restantes camadas populares atingidas, o acordo atingido é uma clara derrota.  Não só mantém o status quo e alimenta mais ataques à classe trabalhadora como tem um efeito negativo nas lutas sindicais e em outros movimentos de cariz socialista e comunista por toda a Europa.

A doutrina TINA (There is No Alternative) propagandeada pelos partidos representantes da classe burguesa salva pela transferência da riqueza do trabalho e por programas de ajustamento que desferiram duros golpes nos elementares direitos laborais e sociais fará da Grécia o exemplo da catástrofe “evitada”. O abismo para quem se atreve a dizer não e a procurar alternativas, não alternâncias entre o imperialismo das potências centrais europeias e o banco dos BRIC’s com clara vontade da oligarquia russa. Já imagino o próximo espaço noticioso com Passos Coelho à cabeça a debruçar-se sobre a realidade ter sido mais forte que o idealismo do Syriza e todo um conjunto de mentiras sobre o canto à beira-mar plantado que foge do caos mundial.

As mudanças quantitativas não terão real repercussão a longo prazo na vida dos milhões que são atingidos por uma dívida odiosa. Existem momentos na história em que se defende a barbárie ou se exige um salto qualitativo que se traduza numa nova sociedade livre de exploradores. Com a clara dificuldade dos primeiros tempos mas com a mais convicta confiança no futuro. Esta transformação só pode ser operada pela mobilização, organização e acção dos trabalhadores gregos com a solidariedade de todo o proletariado europeu consciente politicamente do momento histórico que atravessamos. O resultado honesto de uma auditoria à dívida soberana da Grécia só acrescentará dados a uma luta mais que justa. O Syriza tem de entender que não é um clube de futebol cujos defensores são fervorosos adeptos. A sua acção tem de se pautar pelo interesse daqueles que supostamente defende e não pelo que negociou com vampiros.

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One thought on “Pequenas notas imediatas sobre a Grécia

  1. A poeira ainda não assentou, mas as notícias que chegam de Bruxelas-Atenas são de uma rendição quase total do Syriza. Tem razão Stathis Kouvelakis em apelar a todos os membros e simpatizantes do Syriza para se oporem a este pré-acordo.
    Entretanto, parece-me que o centro dos acontecimentos irá se transferir dos corredores do poder europeu para as ruas da grécia. No Domingo houve uma manifestação contra as cedências e em apoio ao governo Syriza, na segunda feira uma da direita pró-troika/euro e anti-Syriza (com uma pequena contra-manifestação de anarcas), terça a manifestação foi do KKE/PAME contra o acordo de traição. O Antarsya marcou uma assembleia popular amanhã com um apelo à participação de toda a esquerda para convocar uma manifestação para domingo (provavelmente o dia em que o acordo será levado ao parlamento).
    A situação poderá vir a tornar-se extremamente “interessante”. Como escrevi após o acordo de 20 de Fevereiro:
    «Sem um movimento de massas ousado e independente da direcção do Syriza o governo grego continuará de cedência em cedência até à capitulação total. Tsipras está em aceleradíssimo processo de “Hollandização”. Só as massas na rua, se necessário for em directa oposição ao governo (sobretudo à facção cão-de-fila do euro personificada pelo capitulacionista-mór Varoufakis), poderão derrotar a austeridade.»
    https://cincodia5.wordpress.com/2015/02/24/sobre-a-grecia-e-o-governo-syriza-so-o-movimento-de-massas-pode-derrotar-a-austeridade-no-euro-nao-ha-saida/

    No início era bastante compreensível a táctica de procurar um acordo com as “instituições”, mas passado algum tempo ficou claro que seria impossível alcançar qualquer tipo de entendimento minimamente decente para o povo Grego. Os esforços desesperados de Alexis Tsipras em alcançar um acordo tornaram-se um tanto ou quanto ridículos, para não dizer patéticos. Neste momento, continuar a dizer que se quer um “acordo” com os “parceiros europeus” é pura e simplesmente atirar areia para os olhos do povo e uma traição ignóbil à luta contra a austeridade protagonizada pelo povo grego e pelo próprio Syriza. É altura de enfrentar de frente a dura realidade, é altura de fazer uma ruptura com a máfia das “instituições”. É altura de confiar na capacidade de superar as dificuldades do Povo Grego, de confiar na solidariedade dos povos europeus e de tentar acordos com parceiros internacionais que não estejam a negociar com o único objectivo de derrubar o governo Syriza… É altura de cancelar o pagamento da dívida, nacionalizar a banca, de tomar o controlo do banco central, expropriar a oligarquia corrupta grega e preparar a saída do euro.

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