HDP e os 10%

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Diz-se do HDP (Halkların Demokratik Partisi/ Partido Democrático do Povo) o Syriza ou o Podemos da Turquia  (Partido considerado progressista pró-curdo). Hoje, nas eleições legislativas turcas, se o HDP não obtiver 10% de votos, estes vão directamente para o partido maioritário, seguramente o partido islamo-conservador de Recep Tayyip Erdogan, o AKP. Mínimo para obter assento parlamentar, os 10% representariam para o HDP cerca de 60-70 lugares no parlamento, o que significa o fim do sonho de maioria absoluta para o partido de Erdogan que ficaria com cerca de 260-280 lugares, numa assembleia composta por 550 deputados. Se este limiar não é atingido, o AKP poderá governar livremente com uma maioria de 330 ou mais deputados, cujo principal objectivo, declarado e assumido, é alterar a Constituição de um regime parlamentar para um regime presidencialista, alargando o poder do presidente, Erdogan. A sede de poder que este último tem demonstrado deve-se à vontade de se substituir um dia à figura de Mustafa Kemal, conhecido como Attaturk, e considerado por muitos o « herói da Turquia moderna ». Ou seja, este cenário conduziria a uma mudança significativa no pouco que conhecemos de uma Turquia democrática.

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Hasankeyef, Abril 2015.

O HDP veio estragar a festa a Erdogan, numa campanha do AKP que valeu tudo para conquistar as vozes curdas mais conservadoras, incluíndo levar o Corão em curdo para comícios (quando o ensino do curdo é proibido nas escolas), ou associando o HDP ao terrorismo na base do antigo conflito que opõe a mentalidade colonizadora Turca contra os Curdos e a sua cultura. Associação aliás no mínimo estranha quando é conhecido que o governo turco tem facilitado a entrada dos jihadistas na Síria para este se juntarem às fileiras do terrorismo do Estado Islâmico. Tem facilitado igualmente o abastecimento de material bélico para esta mesma organização. Sem esquecer as inúmeras cisternas de petróleo que todos os dias entram na Turquia com origem nas jazidas controladas pelo ISIS ou ainda os múltiplos ataques aos militantes do HDP (o último ocorreu no comício de campanha em Diyarbakir no dia 5 de Junho, com 4 mortos e centenas de feridos).

Kisiltepe, Abril 2015
Kisiltepe, Abril 2015

Travar este processo « Erdoganiano » está assim nas mãos destes 10% de eleitores que votarão no HDP, não só como o partido que pode quebrar a hegemonia política do AKP, mas também como um partido com « futuro histórico ». Até hoje, os deputados pró-curdos com assento parlamentar (cerca de 30 em 2011) concorriam como independentes para não correr o risco de não ultrapassar a “barragem eleitoral”, os tais 10% exigidos aos partidos para entrar na Assembleia. O HDP é criado em 2012 num congresso que une 7 partidos da esquerda e mais de uma trintena de associações, entre as quais encontram-se movimentos ecologistas, feministas, LGBTI. A liderança do partido é bicéfala e o partido respeita a quota de 50% de mulheres candidatas.Capture d’écran 2015-06-07 à 16.11.23 Selahattin Demirtas, um dos líderes do HDP, obteve 9% nas eleições presidenciais em 2014, popularidade que o HDP reiterou na campanha para estas legislativas, trazendo para cima da mesa temas tabus na sociedade turca como a questão do casamento homossexual, reconhecimento do genocídio arménio, energia nuclear ou o fim do ensino do Corão nas escolas. Temas que pretendem sair do confinamento da causa curda para também representarem aqueles que os candidatos proclamaram como as minorias oprimidas da Turquia de Este a Oeste.

Acusados de apoiar as guerrilhas do PKK e estabelecerem ligações políticas com o seu « guru », Abdullah Ocalan, o HDP tornou-se uma alternativa progressista ao nacionalismo de extrema direita turco, ao conservadorismo islâmico de Erdogan e ao republicanismo ortodoxo herdado de Atatturk. Sem dúvida uma saída, ainda que não definitiva, à questão curda na Turquia, quiçá uma primeira abordagem à existência de um Curdistão sem que este se tenha de limitar ao modelo de fronteiras do Estado-Nação.

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4 thoughts on “HDP e os 10%

  1. As cheerleaders do Syriza não podem parar de dizer disparates, isto é a mesma onda de euforia idiota pequeno-burguesa que vimos na dita “primavera árabe”. Então toca a comparar Syriza com tudo, todo o partido que suba um ponto que seja nas sondagens é um Syriza em potência. O Ukip e a Frente Nacional só não são Syrizas porque não disfarçam bem a ideologia fascista, porque de resto tudo pode ser Syriza. Agora é o HDP que é Syriza, mas na ânsia de tudo chamar de Syriza a autora dá-se à imbecilidade de dizer “Syriza ou Podemos da Turquia” e “considerado pro-curdo” na mesma frase. o HDP é curdo logo não é turco, apesar de se juntarem a ele algumas organizações de esquerda turca muito pequenas, o HDP é curdo com pretensões curdas e como tal nunca será um partido com presença nacional em todo o território turco. Dizer que o HDP é o que quer que seja da Turquia é parvo.

  2. E agora o que se pode esperar? O HDP teve pouco mais do que 10%, o que se pode esperar para os Curdos? Uma boa votação não basta, principalmente nas circunstâncias que se conhecem. Acho que devemos esperar uma “subversão” muito fodida, há organizações que não se dão por vencidas com eleições.

  3. “Diz-se”, não sou eu que digo.
    O que se pode esperar? Não muito parece-me. Talvez algumas melhorias nas condições de vida quotidiana dos Curdos, entre os quais reconhecimento linguístico e cultural, menos perseguição política. Vantagem: travar o apetite voraz de poder do Erdogan.
    Assinado: Cheerleader do HDP.

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