O problema não está na brand, está no blend

????
Rui Tavares, dirigente do Livre, entusiasta do Dimar grego e da unidade com o PSOE, agora canta loas ao Syriza e a Ada Colau, mas não larga o pé do António Costa…

Não me cabe a mim, que nunca dei para o peditório da unidade de esquerda, extrapolar as suas razões. Não quero cair no erro dos que acham que estaria tudo resolvido não fosse o “Renato Teixeira, amigo e aliado (…) de férias com Tom Waits”, a “Raquel Varela, amiga e aliada, preocupa-se com a educação das crianças”, a “Joana Amaral Dias, amiga, aliada e candidata a deputada pela coligação PTP / Agir demonstrou-se preocupada por estar outra vez sem telefone”, o “Gil Garcia, amigo e aliado do MAS, potencial candidato pelo partido “Juntos Podemos”, o “João Labrincha, amigo, aliado, organizador da manifestação Que Se Lixe a Troika e potencial candidato pelo partido “Juntos Podemos”, diz que o podem conhecer melhor numa página chamada Dreamocracy ou o “Rui Tavares anunciava a sua entrevista à RTP2, Ana Drago e Daniel Oliveira apelavam à participação nas primárias do LIVRE”. Se de todos estes exemplos de “amigos e aliados” é fácil apontar incongruências e identificar limitações, é igualmente fácil perceber que nem o BE nem o PCP têm contribuído para que o todo seja maior do que a soma das partes. Tudo isto e os factores objectivos, que levam a que a luta política não tenha dado ainda músculo ao movimento para que este supere as suas direcções, sejam elas quais forem. Sectarismo à parte, tem sido o oportunismo a grande razão de todos os fracassos, sobretudo da propalada recomposição da esquerda.

A esmagadora maioria dos projectos que apareceram nos últimos dois anos prefere secar o terreno a crescer em conjunto, de resto, bem à imagem dos partidos que já existiam antes. Se sobre todos eles é fácil ironizar – da invasão da Igreja Maná ao partido do Marinho Pinto à invasão do MAS ao movimento Juntos Podemos – o que se viu foi a cereja no topo do bolo da pancadaria generalizada em que caíram os movimentos políticos, sociais e sindicais depois de um par de anos a dar vários ares da sua graça. Com uma CGTP paralisada e uma UGT negocista, com os partidos de esquerda praticamente limitados à sua acção mediática e parlamentar, os novos partidos, mesmo que não cometessem erros, pouco ou nada poderiam fazer para inverter a apatia social em que se caiu desde que se parou de crescer, na famigerada travessia da ponte… de autocarro. Escamotear isso é não querer aprender nada e limitar a análise política à procura de bodes expiatórios.

Estamos mais ou menos condenados a ver o AGIR\PTP limitado a debater a semântica da propaganda, a farsa democrática das primárias do Livre quando este já definiu, há muito, os seus candidatos, ou a sempre revolucionária propaganda do MAS que até nas acções de luta dos pilotos, esses quase patrões da TAP, vê sinais de que o PREC se avizinha. E ainda há o não sei quê cidadãos que ninguém sabe bem o que é, o MRPP, o POUS e mais não sei quantos movimentos virados de costas para as eleições. Todos eles sem excepção explodem de alegria e entusiasmo digital na hora de celebrar as vitórias do Podemos ou do Syriza, são todos Ada Colau mais ou menos como quase todos foram Charlie e suspiram por emigrar para o Estado Espanhol ou a Grécia para que, sem ter que assumir nenhum erro, possa usufruir do que não construíram ou estão dispostos a construir, mas da fruta do quintal do vizinho ou de uma visita, em modo turístico disfarçado de roteiro internacionalista, a outros palcos da luta de classes.

O artigo de hoje do Rui Tavares é provavelmente um dos melhores exemplos da disfunção que procuro autopsiar. Uma ode à mais primaria sacanice. Ele que sempre disse que o problema era a falta de dialogo e a falta de responsabilidade governativa da esquerda democrática, diz-se agora Comum e Ada Colau, activista que ficou conhecida não (só) por escrever em blogues e jornais, mas por dar o corpo na luta contra os despejos e sucessivas acções de desobediência civil. Rui Tavares, que antes de ser Comum e Ada Colau também saltou para a frente das câmaras para celebrar o Syriza, sem nunca ser capaz de dizer uma linha sobre o fracasso do partido irmão do Livre na Grécia, o Dimar, que praticamente desapareceu da cena política grega nas últimas eleições, pagando o preço certo de ter dado a mão ao PASOK, partido irmão do PS, com quem tanto o ex-bloquista quer governar já na próxima legislatura. Será que o historiador nos faz o favor de perceber que as razões do sucesso estão nos antípodas do que tem defendido?

Podem fazer mil festas a cada vitória alheia. Organizar um grande congresso das esquerdas para ver quem é que, em Portugal, ganha os direitos de exploração dos sucessos dos outros ou ainda fazer muitas selfies com as excursões dos seus deputados aos comícios do Podemos ou do Syriza. Espero que façam tudo isso sem mais demoras. Pode ser que rapidamente se chegue à conclusão que o problema não está na brand mas no blend, e se mude definitivamente a receita usada para fazer voltar a conjugar vitórias seja nas ruas, seja no terreno eleitoral.

5 thoughts on “O problema não está na brand, está no blend

    1. Candidato Oliveira, veja, essa notícia é contraditória com esta, que deixa claro que a linha vermelha do Podemos não é a mesma que a do Livre.

      http://www.telecinco.es/informativos/Pedro_Piqueras-Pablo_Iglesias-Pablo_Iglesias_en_Telecinco2-entrevista_integra_2_1993455201.html

      Além disso, repare também, o que os fez chegar até aqui foi mais terem rompido com a velha lógica das alianças e terem feito o seu próprio caminho. Ao contrário, por cá, antes mesmo de se começar caminho negoceiam-se as alianças…

  1. Estes tavares, oliveiras e a joaninha mal entrem no festim por obra do PSucialista , deixam-se logo de retóricas esquerdistas e, alinharão contentes em todas ass merdas desse bando,ooops! partido.Que se vayan todos y se hodan.A cereja no topo do bolo destas personagens será qdo forem convidados para o club americano e, melhor, pelo club de bilderberg

  2. Já no antigamente os colonizadores expressavam o seu desprezo pelos colonizados metendo-os todos no mesmo saco, como se fossem uma simples caldeirada (índios…). Mesmo tendo a teoria do melting-pot sido totalmente desacreditada, continuam a existir adeptos desse pensamento redutor e simplista para melhor passar a mensagem de que a gentalha é toda igual e que eles, eles sim, os grandes iluminados, estão sempre acima do vulgo ignaro e distantes das movimentações merdosas que brotam por aí sem se submeter ao avalizado crivo da sua alta sapiência. Alguém deve ter convencido estas divindades do Olimpo…eu não fui com toda a certeza. Talvez até se tenham convencido a eles próprios…é o mais provável. Mas isto de igualizar tudo por baixo para se sobressair impoluto é aquela máquina. Imagino que deve massajar bem o ego desses grandes educadores das massas. Os mesmos que criticam todos os que fazem alguma coisa sem nunca se arriscarem a dar um passo construtivo seja para o que for. É a atitude mais fácil. Afinal o rafeiro que ladra à caravana faz o mesmo. De facto, o movimento precisa de todos os que querem mesmo mudar e trabalhar para isso, mas não precisa de todo daqueles que se limitam a atirar bocas e nunca mexem uma palha. Afinal é o país-que-temos.
    Não esbanjámos…… Não pagamos
    ZM

    1. Também acho que muitos destes movimentos se baseiam no oportunismo e representam tiros nos pés da esquerda, no entanto, tenho de concordar que não se pode enfiar o pessoal todo no mesmo saco e que este atirar de bocas no conforto do sofá espelha bem o país que temos. Não vi nenhum esboço de desobediência ou sequer um serrar de fileiras contra as injustiças que se vão vendo. Eles aí estão, tal como o Menor, todos felizes com a sua idealização particular, cada um a navegar na sua casca de noz. Chega a ser irritante.

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s