A PSP e a Cidade

2015-05-18-Benfica-Marques-intervencao-policial

As primeiras imagens dos festejos do Benfica no Marquês, transmitidas logo minutos após o fim do jogo, mostravam um gigantesco palco festivaleiro e um enorme circulo de segurança à sua volta, em redor do qual era colocado ainda mais um circulo de baias. A imagem causava estranheza não só pelo tamanho desmedido da infraestrutura, tanto quanto sei inédita no que toca à celebração de campeonatos, mas também na disposição dessas baias que, talvez num reflexo um pouco pavloviano, a única certeza que dão é que horas depois estarão no chão.

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Presume-se que a ideia seria capitalizar os festejos espontâneos que normalmente enchem o Marquês, impondo-lhe um registo comercial tipo “rock in rio”, e que essa organização permitiria escapar ao caos dos anos anteriores, tornando a coisa um pouco mais “civilizada” e digna de ser mostrada na TV, prevenindo ainda os vários excessos e atropelos à segurança. Mas só a extrema ingenuidade empreendedora dos organizadores não percebeu que criar um palco rodeado de baias apenas iria multiplicar os pontos de tensão entre adeptos e PSP, e que dispor as forças policiais no centro da praça iria dar problemas. Paralelamente, é impressionante ver como a PSP mesmo depois de anos de treinos e de manifestações ainda não percebeu que carregar uma multidão daquele modo injustificado e temerário apenas irá multiplicar as respostas à sua violência. Sendo pouco perceptível o que dá origem aos confrontos, o que as imagens mostram é um corpo de polícia sem equipamento antidistúrbio a pontapear gente pelas costas e depois a fugir sob uma chuva de pedras até chegarem depois os seus colegas já protegidos. O que isto sugere é algo que já se viu inúmeras vezes: uma série de agentes mais cowboys decide fustigar uma multidão e sai com o rabo entre as pernas, provocando um novo desastre de relações públicas para a PSP e deixando um rastro de violência gratuita. Os motins desportivos, muito comuns nos Estados Unidos e no Canadá, são paralelos a uma particular organização e disposição comercial e política dos meios desportivos, e nisso traduzem a organização comercial e política das sociedades, das suas cidades e das suas vidas.

Os excessos de Guimarães e do Marquês não são uma excepção ao comportamento da PSP. Em qualquer bairro periférico de Lisboa abundam histórias da PSP a espancar pais em frente aos filhos sem que isso provoque qualquer celeuma a grande parte da população. A representação mediática do que é o país, e do que são as suas cidades, faz com haja uma percentagem extremamente significativa da população que é objectivamente cidadã de segunda no que toca à relação com o estado e com a PSP. No domingo à noite os vários comentadores dos canais noticiosos atropelavam-se na ânsia de ver quem dizia a maior bacorada. Um reclamava canhões de água, o outro dizia que os distúrbios tinham sido preparados porque várias pessoas tinham levado garrafas de vidro e não de plástico “como fazemos quando vamos à praia”, um terceiro falava da crise de valores, todos concordavam sobre o mau-aspecto do país “lá para fora”. Ninguém, nem sequer a esquerda que no dia seguinte começou a vociferar a constituição pela milésima vez, atentou dois minutos no que significa o enquadramento daqueles motins e como traduzem a condição política contemporânea: uma população excluída de todo os processos de sociabilidade que não passem pela criação de mais valia, relativamente indefesa ante a prepotência e impunidade do poder político e do poder económico, julgada a partir de uma serôdia imagem de “portugalidade” que em nada traduz as dinâmicas sociais contemporâneas.

O exercício do poder policial nos últimos anos seguiu os moldes da chamada “teoria das janelas partidas”. Esta afirma que pequenos focos de marginalidade e desrespeito pela lei criam o ambiente para que surjam fenómenos de maior gravidade. Isto significa que é operada uma “limpeza” da cidade, que ocorre expulsando os seus elementos “marginais” da vista, organizando o espaço público do modo mais inócuo possível, terminando todos os comportamentos inestéticos como carros em cima do passeio e as pinturas na parede. Estas medidas são essencialmente cosméticas porque na verdade o que pressupõe é uma penetração sem antecedentes de um controle disciplinar e policial em esferas da vida e do social que anteriormente se organizavam de modo alheio ao poder central. A microgestão da cidade não é uma optimização dos seus elementos comuns mas uma extensão sem precedentes do poder sobre eles. E é nesse contexto que surge a polícia moderna e os seus problemas. A “teoria das janelas partidas” é de facto funcional no que toca à pacificação das cidades, em parte porque é eficaz em expulsar da cidade todos os comportamentos que não estejam inseridos nos modelos de comportamento economicamente produtivo vaticinados pelo poder. Tem no entanto o reverso da medalha, que é a de criar as suas próprias janelas partidas: uma cultura de polícia onde os pequenos abusos prefiguram um ambiente propício aos grandes abusos.

O racismo institucional da polícia, as mortes que provoca, a violência totalmente desmedida nos bairros periféricos, a impunidade dos agentes violentos, as cargas totalmente cegas, a crueldade dos vários espancamentos dentro de esquadras e todo o resto que nos habituámos a ver não são excessos de agentes particulares ou de ocasiões especificas, nem partem de uma maldade inerente de todos os agentes policiais. Decorrem antes de uma determinada estrutura político-social que vê na polícia, e na sua violência, um dos principais meios de proteger os seus interesses e de um modelo económico que vê na disciplinarização e comercialização das vidas o único modo de se reproduzir.

Afirmar que os motins daquela madrugada foram apenas “comportamentos desviantes” é não perceber patavina do que se passou, e pior, não perceber que  são uma expressão directa do paradigma político dos tempos que vivemos.

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