O momento de verdade de Martin Schulz

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De tempos a tempos, o poder democrático – que se habituou a governar com o voto de um quinto, um sexto, um sétimo e às vezes até um décimo dos eleitores – tenta credibilizar-se; e eis que de um súbito e passageiro raio de lucidez se ilumina, num surpreendente momento de verdade. Esses momentos quase inéditos merecem ser assinalados. Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, disse hoje ao Visão Global da Antena 1 uma verdade que raramente ouvimos dos lábios de quem governa: a Europa nunca estará bem enquanto os especuladores continuarem a não pagar impostos (escondendo os seus biliões em paraísos fiscais) e a não assumir as perdas dos seus ruinosos negócios de risco, transferindo para os contribuintes a responsabilidade de assumir tais prejuízos. Foi mais ou menos isto que (por entre os habituais disparates, como que a Grécia se deve salvar através do turismo, etc.) disse o burocrata Schulz, membro do ultra-capitalista SPD alemão e ferrenho partidário das reformas liberais de Gerhard Schröder.

Schulz referia-se assim a todos os fundos de investimento que, tendo apostado forte na banca do Sul da Europa durante a década passada, viram o seu capital esfumar-se nos colossais buracos que entretanto se abriram nas instituições bancárias desses países. Para quem anda um pouco afastado destes assuntos, podíamos traduzir assim a banal verdade de Schulz: quando cada um de nós faz os famosos ‘sacrifícios’ para o governo conseguir pagar a famosa ‘dívida’, está-se, em nome da igualmente famosa ‘saúde do sistema financeiro’, a enviar capital público para os fundos de investimento privados – as raríssimas investigações jornalísticas sobre esta matéria revelaram os nomes dos fundos envolvidos: o Rothschild & Compagnie Gestion, a Allianz Global Investments, o BNP Paribas, o Crédit Suisse, o Deutsche Bank Asset Management, o Royal London Asset Management, entre centenas de outros fundos, quase todos eles do centro financeiro da Europa, que apostaram forte na banca do Sul europeu mas que conseguiram a proeza, (teoricamente) rara em capitalismo, de não assumir as suas perdas.

Curto e grosso: se eu investir dinheiro numa pequena padaria que vai à falência, digo adeus aos meus tostões; se os bilionários suíços, franceses, alemães e ingleses investirem o seu dinheiro na banca portuguesa, espanhola ou grega que abre falência, inventa-se uma engenharia para fazer com que sejam os contribuintes a assumir esses prejuízos, desviando-se assim as suas contribuições dos hospitais, das pensões de solidariedade, das escolas, das bibliotecas, das companhias de teatro e de dança, para salvar a… especulação.

Um excelente documentário, explicando como o contribuinte europeu foi chamado a salvar a alta finança global, ajuda-nos a penetrar na verdade elementar de Schulz, certamente mais fundo do que o burocrata alemão desejaria.

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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