Notas para uma crítica radical do turismo (II)

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O turista – esboço de definição

O turista é aquele que entende a circulação, o viajar como um consumo. E isto distingue-o de qualquer outro viajante. O turismo é uma indústria que encontra no território a mina de onde extrai os seus recursos mercantis e no turista o consumidor das mercadorias que fabrica.

ITALY. Rome. Tomb of the Unknown soldier. 2005.

Enquanto indústria, o turismo unifica toda a sua oferta, que nivela por uma mesma bitola. Para tornar vendáveis monumentos históricos, fachadas arquitectónicas, bairros inteiros, paisagens culturais, gastronomias regionais, praias e montanhas, a selva amazónica, o Museu dos Coches, o pastel de nata ou Fernando Pessoa, os industriais que operam neste sector da economia revelam uma mesma preocupação nuclear: tornar equivalente o que é na essência diferente, incomparável, único.

Fábrica universal de equivalências, o turismo manipula a matéria (que poderá ser como vimos um museu, uma paisagem cultural ou uma obra literária) com que fabrica as suas mercadorias de modo a torná-las universais; ou seja, de modo a que o que seria interpretável apenas à luz de códigos locais se torne descodificável (consumível) pelo uso de um único código universal, o qual poderá doravante aplicar-se nos quatro cantos do mundo para interpretar não importa o quê. O turista é assim aquele que está sempre disposto a aplicar esse código universal enquanto circula pelo planeta (mais concretamente pelas geografias que foram entretanto anexadas ao império da mercadoria).

Apenas à luz de uma lógica de ‘experiência turística’ tem cabimento visitar-se numa mesma manhã o interior de uma catedral gótica, o museu de um clube de futebol, os jardins de um palácio real, o topo de um arranha-céus e as catacumbas de um edifício romano. Somente o turismo possui esse dom de tornar equivalentes e complementares lugares radicalmente díspares que requerem contextualizações próprias.

Para o turismo, o conhecimento histórico e a memória são meros adornos subvertidos e esvaziados que se adicionam às mercadorias para dar-lhes algum colorido. Como demonstrei num texto intitulado O monopólio da memória nas políticas do IGESPAR, são os próprios organismos estatais de conservação, gestão e valorização do património histórico que, enquanto fabricam no património produtos de consumo legitimadores da identidade nacional e das hierarquias em curso no presente, deturpam o passado e a memória histórica que poderia a partir dele ser criada. E assim, ao adicionarem ao património umas pitadas de história e de memória – modificadas e selecionadas ao gosto dos poderes do presente -, contribuem também para adaptá-lo às exigências do consumo turístico.

O turismo é já em si mesmo uma recontextualização do mundo sensível que dispensa todas as contextualizações até aí existentes. Ele apresenta-nos por isso um mundo novo para um homem novo.

ITALY. Rome. Trevi fountain. 2005.

Quando visita um museu num qualquer ponto do mundo, depois de ter ignorado durante décadas todos os museus situados na cidade ou no próprio bairro onde vive, o turista revela algo de fundamental acerca da sua condição e do que o motiva à acção: não é o conhecimento da história, nem do artesanato, nem da ciência, nem da arte que o faz entrar num qualquer museu, mas o facto desse museu se ter convertido num adorno que supostamente caracteriza e engrandece a cidade, a região ou o país que se consomem, credibilizando-os enquanto produtos de consumo relevantes e autorizados. Por outro lado, o consumo turístico faz-se sempre ‘em pacote’. E é a lógica do pacote que pode também tornar imprescindível ao turista a visita a um determinado museu ou a um jardim, ainda que aquele ignore, lá onde vive, a existência de museus e de jardins.

ITALY. Rome. 2005.

Estamos a passar agora de uma fase em que o turista viajava de sorriso amarelo sempre que, com indisfarçável embaraço, fotografava uma praça, uma fachada, uma porta entreaberta ou as pessoas numa praça, por sentir que estava a violar, a devassar a intimidade de um lugar, de uma comunidade, para uma nova fase em que já praticamente nenhum turista sente que a sua presença devassa o que quer que seja, onde quer que seja; pelo que o seu sorriso falso e incómodo se tornou totalmente dispensável. São agora os habitantes que, nos próprios bairros e paisagens em que vivem, sentem que devassam a bolha cada vez maior onde se movem os turistas enquanto estes caminham triunfalmente pelas rotas que os poderes centrais e locais procuram estender sempre a novas e remotas paragens.

Em 2015, está em vias de deixar de existir um território que se possa considerar marginal para o turista. O último estádio da mercantilização do planeta é aquele em que todo o território mundial é posto à venda: desde os safaris organizados para ver tribos humanas (como se fossem animais) na Índia até às aventuras exploratórias ao cume do Evereste ou às favelas do Rio, nada parece já conseguir escapar aos tentáculos da mercantilização turística. Em breve, e quando o desenvolvimento tecnológico o permitir, o fundo outrora impoluto dos oceanos será vendido ao turista mais vulgar como a última pérola natural conservada do planeta azul.

ITALY. Rome. Coliseum. 2005.

Fotos de Martin Parr da colecção Tutta Roma (2005)

Da mesma série:

Notas para uma crítica radical do turismo (I): A falsificação do real

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

3 thoughts on “Notas para uma crítica radical do turismo (II)

  1. Podem ir à Líbia,à Síria,ao Iraque,ao Afeganistão apreciar a istória(sic!).Ir ao Iraque e ver as bases do ocupantes em cima de sítios arqueológicos e, a<té podem ir à puta que os pariu

  2. o que não me parece nada mal. fazer uma objectivação jocosa de si próprio.
    faz muita falta. antes isso do que abster-se de pensar com medo dessas coisas.

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