Abril sem Abril não é Abril

827820
Para quando uma intervenção da Joana Vasconcelos na chaimite que abre a manifestação das comemorações oficiais do 25 de Abril? Pode ser assim uma cena coberta de tricot e isso, colorida, exótica e tal, de modo a honrar a procissão…

Há um ano, pela primeira vez, deixei de ter vontade de participar nas comemorações oficiais, cada vez menos populares, do 25 de Abril. Escrevi tão só um parágrafo, porventura demasiado curto para explicar o desencanto e a raiva. Amanhã, pela primeira vez, não participarei nas comemorações oficiais do 25 de Abril. De resto, não o voltarei a fazer enquanto as referidas comemorações continuarem sequestradas pelas organizações que estiveram na base do seu fracasso, não só por terem definido ou acatado o 25 de Novembro, e com ele a contra-revolução, mas sobretudo pelo papel que de lá para cá têm desempenhado na luta política em Portugal. Coerentes com o que fizeram nos últimos 41 anos, estas direcções políticas que mandam nas comemorações imprimiram ao 25 de Abril uma lógica de celebração sem qualquer vida, divorciado das ideias e dos princípios que encheram as ruas de poesia e liberdade, naquele ano e meio em que durou a revolução.

877x658

Voltarei às ruas para celebrar Abril quando à cabeça das manifestações não desfilarem, protegidos por um quadrado onde o serviço de ordem não deixa o povo entrar, os obreiros do Portugal da precariedade, da subserviência, da destruição de tudo quanto foi conquista social que floriu no 25 de Abril. Voltarei às ruas para celebrar Abril quando ele não mais for refém deste espectáculo triste em que está convertido, uma espécie de Natal ou Páscoa dos vencidos, obediente, apenas útil para levar a passear uma chaimite apalhaçada que devia era estar à porta dos que governam o país. Voltarei a celebrar Abril quando ele der a palavra a quem luta, a cada dia, nos bairros e nas fábricas, nas universidades e nas empresas, nos hospitais e nas escolas, ao invés de dar a palavra aos que, de cravo na lapela, vão balbuciar desculpas esfarrapadas sobre o Passado, retratos fictícios sobre o Presente, e falsas intenções sobre o Futuro. Só voltarei a celebrar Abril quando ele voltar a questionar o poder, recuperar a sua rebeldia, em pequena escala que seja, como já aconteceu nas manifestações alternativas ao pagode cínico que encabeça a manifestação da Avenida da Liberdade. Voltarei a festejar Abril quando ele retomar a senda que também já teve dinamizando lutas que existem, ocupando praças, pontes ou casas abandonadas, tomando de ponta aqueles que transformaram o novo regime em velho.

botas-e-cravo

O próximo 25 de Abril, cada vez mais urgente, terá que vir doutra fornalha e ser feito contra muitos daqueles que, para o bem e o mal, representam o anterior. Descer a rua sem mais nada, como quem quer fazer do 25 de Abril um cortejo fúnebre, não é celebrar Abril, não é renovar as suas lições e os seus métodos, nem resgatar a sua actualidade. Descer a rua como se tem descido, qual procissão, aplaudindo e dando músculo social os timoneiros do desastre, é atirar mais uma pedra para a cova funda em que Abril jaz enterrado há demasiado tempo.

877x658 (1)

2 thoughts on “Abril sem Abril não é Abril

  1. Faço minhas as suas palavras já que partilhamos a mesma opinião. Lamento que tenhamos chegado a este ponto, e desejo que se cumpra Abril, não sei quando…

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s