Estarão as FEMEN a ganhar consciência de classe?*

Os confetis e o salto de Josephine Witt para cima da mesa de Draghi e Constâncio, acusando o BCE de ser uma instituição ditatorial, colocaram na ordem do dia várias questões importantes.

O coro de elogios de praticamente todos os quadrantes da resistência, deixaram claro que nem sempre são precisos muitos para levar a cabo acções que colocam o poder entre a espada e a parede e os timoneiros do regime de braços no ar, desarmados pela clareza, apavorados com a inteligência e rendidos pela coragem de uma simples pessoa. Depois de anos a fazer manifestações de massas praticamente sem resultados, ficou claro que o número deixou de ser o toque de midas que durante o século XX alimentou as ilusões de boa parte da esquerda.

Outro aspecto a ter em conta está relacionado com a respeitabilidade dos protestos contra gente e políticas que não se dão ao respeito. A ideia de fazer um circo das instituições que nos impõem o circo não é só justa como necessária, deixando que o ridiculismo situacionista ganhe terreno face às aborrecidas e inconsequentes passeatas, onde as palavras de ordem se repetem a uma rotação que não ultrapassa a velocidade do tempo, sobretudo se a elas não se associa a dose de radicalidade que seja capaz de gerar incomodo.

O poder treme porque sabe que a acção de Josephine Witt não vale só pelo impacto que já teve, mas pela mensagem que transporta para a cabeça de cada um dos insurrectos. Ao contrário da frustração de ver boa parte dos protestos limitados e regulados pela previsibilidade, pela ortodoxia do enquadramento, cada um dos que não dormem bem face à escala da dominação e da austeridade sabe agora que não há aparato securitário que impeça a desobediência e que haverá sempre alguém capaz de ser agulha no palheiro da corte.

Elogios à parte levanta-se outra dimensão de análise relevante. Tudo isto foi feito por uma destacada militante das FEMEN, organização que nunca caiu bem no goto da esquerda, por algumas razões bem justas como a sua islamofobia e o seu etnocentrismo. Fica no ar a dúvida se estamos perante uma organização que evoluiu e ganhou consciência de classe, compreendendo que o problema central da sociedade de hoje usa fato e gravata ou tailleur e habita nos modernos lofts das avenidas largas ou se, pelo contrário, isto foi apenas um ar que se lhes deu e rapidamente voltarão aos protestos que se limitam a demonstrar que o corpo é o seu único campo de batalha. Não será pouco, mas não será tão interessante nem tão problemático para quem quer continuar a mandar o mundo sem grandes sobressaltos.

Panfleto atirado por Josephine Witt a Draghi e Constâncio: 

As pessoas “são donas de si mesmas
mas, devido ao poder esmagador que o BCE exerce,
a gente dificilmente se lembra disso.

As pessoas “são donas de si mesmas
E não marionetas do jogo do BCE Que são manipuladas, vendidas e destroçadas

As pessoas “são donas de si mesmas Este é o clamor daqueles que enfrentam a repressão quando começamos a deixar de considerar a nossa pobreza como uma derrota pessoal ou destino imutável.

BCE Mestre do Universo, lembrem-se que não existe um deus
mas que existem pessoas por trás dessas vidas,
e se vocês governam em vez de servirem,
Vocês vão-nos ouvir os nossos gritos mais alto, mais brilhantes, dentro e fora das salas
em todos os lugares, e vocês não terão qualquer descanso.

Enquanto o BCE persistir na sua hegemonia autocrática
Desenvolvendo planos de monitorização e controles de polícia,
em suma, toda a violência diária que está patente aqui
então teremos de encontrar as nossas respostas radicais
e agir sem violência contra esses desastres humanos.

Não vamos aceitar a história maluca que o BCE quer impor a todas as pessoas em que até mesmo a liberdade de expressão e a dignidade podem ser vendidas ao banco por uma questão de sobrevivênciar.
Persistente na sua arrogância contra o povo, o BCE vê a aumentar perigosamente a sua própria dívida para com eles. Uma conferência de imprensa não é suficiente para falarmos de “democracia”.

Eu não espero que esta instituição ilegítima seja capaz de ouvir a minha voz, nem mesmo entender a minha mensagem, seria pedir demais, mas eu sei que muitas pessoas vão entender muito bem o porquê da minha atitude.
Hoje, eu sou apenas uma borboleta que veio enviar-lhe uma mensagem, mas não se esqueça de que muitos mais virão.

Vamos recuperar o poder sobre nossas próprias vidas.”

Panfleto via Viriato Porto

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*Actualização: conforme se pode ler no twitter da Josephine Witt a acção não foi levada a cabo pelas Femen e ela já deixou de ser militante desta organização. Também no El Pais.

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2 thoughts on “Estarão as FEMEN a ganhar consciência de classe?*

  1. É uma fabricação dos palhaços das secretas(leia-se:a tropa avançada dos psico/sociopatas dos oligarcas—Nós pagamos para esses jagunços q são obedientes à Grande Criminalidade)

  2. se fosse o BCE que governasse o mundo estava eu descansado, o problema é quando o próprio BCE é apenas mais uma marioneta de um monstro maior

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