Agricultura bio, uma introdução crítica

Há um conceito que misteriosamente está mais ou menos ausente de praticamente tudo quanto se publica neste blog. Muito poucos foram os posts que o abordaram. E nenhum de uma forma minimamente aprofundada. Parece-me efectivamente espantoso que um conceito que deveria estar no epicentro de todos os debates sobre a conjuntura presente acabe, sintomaticamente, arredado de quase todos eles. É ele a vida: espontânea, sinestética, experimental, ilimitada, livre. 

Guillaume Corneille

Na verdade, há uma tendência enraizada nas ideologias de esquerda para ignorarem o que a existência humana contém de não premeditado, de instintivo, de sensorial, de irredutível, de instável, de caótico (numa palavra: de vivo) enquanto se detêm abstratamente sobre a organização fria da sobrevivência. O marxismo mais ortodoxo é quase cruel neste ponto quando considera o que deve ser prioritário na organização político-económica da sociedade, relegando para a categoria burguesa de capricho ou romantismo (para não dizer mariquice) qualquer questão que não se prenda directamente com a idealizada emancipação do proletariado – ancorada numa colectivização, sem nenhuma crítica subjacente, da técnica, da produção ultra-industrial, da exploração selvagem do meio natural. Mas não fora justamente o facto de assentar sobre uma propaganda e um discurso permanente sobre a dimensão mais lírica da vida (e dos seus pecados) aquilo que tornara o capitalismo infinitamente mais apetecível ao comum dos mortais do que o socialismo soviético? Não será, ainda hoje, o imaginativo discurso publicitário criado pelos industriais, para fazerem escoar as suas mercadorias, o mais eficaz cimento (o único) desta sociedade?

Por mais que a sua obsessão seja sempre encontrar as mil e uma maneiras de mercantilizar, logo também falsificar, a vida, o capitalismo (e este é o seu grande trunfo) apresenta-se superficialmente mas convincentemente aos consumidores como um sistema obcecado em fazer viver – por oposição à organização gelada, cinzenta da sobrevivência operada pelos regimes soviéticos (e por todo o marxismo ortodoxo). E daí o facto de se ter convertido na primeira sociedade global da história. É de facto o sucesso planetário da mercadoria, a qual leva sempre consigo a eterna promessa (a eterna mentira), outrora monopólio das religiões, de fazer viver, que faz com que esta sociedade se expanda geograficamente como nenhuma outra.

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A vida, autêntico tabu para os (blogs) políticos, tornou-se o conceito fetiche de toda a publicidade. No mundo em que vivemos, a vida, enquanto conceito, não recebe significados, conotações, sentidos senão por quem está implicado nos processos da sua própria mercantilização. Merda de mundo, apetece dizer…

Passemos ao assunto que me proponho tratar neste texto, no qual se irá abordar a vida, mas de uma perspectiva que se opõe frontalmente à sua mercantilização. Surgiram nas últimas décadas, em reacção à chamada agricultura convencional – no momento histórico em que esta se viu penetrada em profundidade pelo capitalismo e pela sua lógica massiva de tudo reduzir a mercadorias –, novas formas de entender e praticar a agricultura. Agrupadas sob a designação um tanto heterogénea de agricultura biológica, estas formas vieram romper com toda a lógica subjacente ao agrobusiness, recolocando a vida, entendida num sentido amplo, no centro da questão sobre a produção agrícola e a exploração do meio.

Primazia dada à vida

Um fundo comum de preocupações e interesses, questionando a hegemonia do capitalismo sobre a produção de bens alimentares, acompanhou os fundadores destas novas formas de conceber a agricultura, apesar da sua considerável dissonância. Essas preocupações poderiam talvez resumir-se assim:

  • Valorizar (e não escravizar) a vida daqueles que trabalham na produção
  • Valorizar (e não destruir) a vida dos ecossistemas onde decorre a produção
  • Valorizar (e não ignorar) a vida daqueles que irão consumir os alimentos

Neste sentido, trabalhadores, ecossistemas e consumidores são concebidos não como átomos separados cujas vidas se esgotam no facto de participarem isoladamente em processos económicos, mas como seres inter-ligados, dotados de vidas que transcendem largamente tais processos. Ao dar primazia à vida, entendida num sentido amplo, a agricultura biológica é uma das poucas áreas situadas no interior da economia onde se esboça uma crítica aos princípios abertamente opostos à vida que regem o capitalismo.

Para a agricultura convencional, a vida é um assunto inexistente, jamais colocado como tópico sensível para o qual há que encontrar respostas. Ninguém no agrobusiness projecta uma exploração agrícola tendo em conta esse tópico (a vida de quem trabalha, do ecossistema, de quem consome), já que ele faz reduzir e não aumentar os lucros, que são, afinal de contas, a única razão de existir do agrobusiness. A vida é um assunto economicamente irrelevante para o agrobusiness, apesar das práticas deste terem um vasto impacto sobre aquela. Por outro lado, para a agricultura capitalista procede-se como se a vida fosse ilimitada, incólume aos venenos, aos metais pesados, às contaminações, às erosões. Destrua-se o que se destruir, a vida há-de resistir sempre, não importa como, em última instância Deus ou a tecno-ciência hão-de encontrar a solução.

Já para a agricultura biológica, Deus e a tecno-ciência têm um papel menos providencial perante a defesa da vida. Antes de empurrar comodamente para estes a resolução dos problemas irracionalmente criados, procura-se defender, conservar, reproduzir, multiplicar a vida. Ela é aqui vista como sendo terrivelmente frágil, limitada. 

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Geocentrismo vs. antropocentrismo

Esta preocupação permantente pela protecção da vida faz com que a agricultura biológica seja geocêntrica, por oposição à agricultura convencional que é antropocêntrica. Para a primeira, a produção agrícola deve servir o homem compatibilizando-se com (e não ignorando) os ritmos de vida do planeta. Ela parte do princípio de que a vida humana depende da vida do planeta e por isso cria ecossistemas produtivos adaptados ao terreno e clima disponíveis. Para ela, as formas concretas como o planeta funciona devem ser minuciosamente estudadas e incorporadas.

É portanto uma forma de agricultura que exige de quem a pratica um envolvimento fenomenológico constante com o meio circundante. Cheirar, observar, sentir, provar convertem-se assim em habilidades cujo desenvolvimento se torna necessário para que, do entendimento sensorial (e não meramente abstracto, informatizável) do meio envolvente, resultem conhecimentos empíricos capazes de guiar todo o processo produtivo. A atenção aos sinais do meio deve ser permanente, dela resultando um saber local sobre as plantas, as infestantes, as pragas, o solo, o clima, etc.

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Para a agricultura convencional, o meio onde se instala uma determinada exploração é uma tabula rasa que só vale pelo que o homem aí deposita ou daí retira. Os ritmos que determinam os equilíbrios geofísicos do planeta contam zero – ignoram-se, desconhecem-se. Tamanha loucura leva a que se plantem milhares de hectares de milho de regadio em regiões áridas do Alentejo.

Agricultura bio vs. agricultura convencional

Sob um vasto conjunto de parâmetros de análise, a agricultura biológica e a convencional revelam consideráveis diferenças. Vejamos algumas:

  • nutrientes: estudos recentes têm confirmado que os produtos provenientes de agricultura bio possuem de um modo geral maior riqueza de nutrientes (vitaminas, anti-oxidantes, ferro, magnésio, etc.) quando comparados com produtos provenientes de agricultura convencional;
  • qualidade: por outro lado, possuem reconhecidamente mais aroma e sabor;
  • diversidade: ao promover activamente a conservação de variedades de sementes locais, a agricultura bio contribui para dietas mais diversificadas, bem como para uma maior segurança alimentar;
  • conservação: por possuírem menor teor de água, os frescos biológicos conservam-se melhor do que os convencionais (que requerem por isso a aplicação de conservantes químicos);
  • bem estar dos trabalhadores: um estudo realizado em França revelava recentemente que quem trabalha em agricultura bio afirma possuir um bem-estar subjectivo maior do que quem trabalha em agricultura convencional (ao que não serão alheios os substancialmente melhores salários pagos), onde impera a desumanização da produção;
  • conhecimento do conteúdo: ao promover o contacto entre produtor e consumidor (muitas das explorações estão voluntariamente abertas aos visitantes), a agricultura bio dá a este a possibilidade de conhecer directamente o conteúdo e métodos de fabrico dos produtos (e geralmente também quem vende conhece toda a cadeia produtiva – como sucede a título de ex. com uma das maiores lojas bio de Lisboa, a Miosótis), ao contrário da agricultura convencional onde se produz tendencialmente para um mercado anónimo em que nada para lá da mercadoria liga produtor e consumidor;
  • biodiversidade: os métodos de extermínio de pragas, doenças e infestantes usados na agricultura convencional dizimam a fauna, que os métodos da agricultura bio contribuem para preservar.

A saúde é outro campo onde as vantagens da agricultura bio são inquestionáveis. A contaminação do meio aquático, nomeadamente com nitratos provenientes de fertilizantes químicos, que caracteriza a agricultura convencional, provoca como é sabido cancros. O mesmo sucede com o uso de herbicidas e pesticidas, cujos efeitos, geralmente mal estudados pelas empresas que comercializam esses produtos, são para lá de cancerígenos também disruptores endócrinos. Por outro lado, esta agricultura é uma fonte importante de libertação de dióxido de carbono para a atmosfera, com as repercussões conhecidas no que respeita às alterações climáticas.

Outra diferença fundamental. Para a agricultura convencional, adopta-se para com os solos uma política de terra queimada: sobre-exploram-se até ao tutano, até ao ponto em que estes se tornam irrecuperáveis. Por esse motivo, na China, 30% dos solos tornaram-se inutilizáveis para a agricultura. Inversamente, na agricultura biológica os solos são um bem sagrado. São por isso geridos de modo a conservarem altos níveis de matéria orgânica (quando esta alcança os 5 ou 6% do solo, torna-se desnecessária a fertilização do mesmo): mobilizam-se o mínimo para evitar a sua erosão; pratica-se o enrelvamento; faz-se a rotação de culturas; a policultura sobrepõe-se à monocultura; semeiam-se leguminosas (como a fava) para deste modo fixar o azoto na terra (é a chamada adubação verde); através da compostagem, recicla-se matéria orgânica que, não servindo para consumo, se incorpora na terra, fertilizando-a e evitando também as queimadas. Há uma máxima da agricultura bio que diz: “a nossa saúde começa na saúde do solo.”

O baixo preço da agricultura convencional – uma mentira

O sucesso comercial absolutamente esmagador dos produtos provenientes da agricultura convencional deve-se à forma enganadora e ilusória como é quantificado o seu preço, o valor a pagar pelo consumidor. Ora, quem compra no hipermercado 1kg de cebolas, de laranjas, de queijo ou de arroz provenientes de agricultura convencional, pagando no acto da compra por ex. 1,00€, não vê englobado nesse valor o total (mas apenas uma fracção) dos custos reais do produto comprado. Esse valor não inclui:

  1. o desemprego massivamente gerado pela agricultura convencional (que o consumidor pagará posteriormente através de contribuições sociais),
  2. a contaminação (que ele pagará posteriomente com gastos de saúde incalculáveis e com o financiamento através de impostos de operações de descontaminação das bacias hidrográficas),
  3. o esgotamento de solos (que ele pagará posteriormente, financiando a dispendiosa recuperação dos mesmos),
  4. a destruição de paisagens (que ele pagará posteriormente, financiando a sua requalificação),
  5. a destruição da biodiversidade (que ele pagará posteriormente financiando programas de conservação de vida selvagem, de apoio aos apicultores, etc.),

e a lista seria longa, provavelmente mesmo infinita. Contabilizado desta forma, o preço de uma laranja proveniente de um monocultivo intensivo convencional é incomparavelmente mais caro, para o consumidor final, do que o de uma laranja produzida em regime de agricultura biológica. Simplesmente, esse valor será pago ao longo de anos, décadas ou mesmo séculos, além de ser também atirado para cima de toda a colectividade.

Numa sociedade que não concebe a existência de um passado nem de um futuro como é reconhecidamente a nossa, o preço de qualquer mercadoria é apenas quantificado no acto da compra pelo consumidor, persuadido além do mais pela publicidade a uma relação meramente emotiva, irracional e acrítica com a mercadoria, facto que o inibe de criar sobre esta um distanciamento crítico e uma perspectiva estratégica, consciente. Mas os 30% de terras chinesas que hoje estão irreversivelmente contaminados e inférteis, por décadas de produção agrícola ultra-agressiva e de poluição industrial descontrolada, mostram que o preço a pagar por aquele quilograma de cebolas ou laranjas que se adquiriu no hipermercado é muitíssimo superior ao euro que lá foi deixado. 

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Críticas à agricultura bio

  • baixa produtividade

A principal crítica dirigida à agricultura bio diz que esta, ao aplicar com reservas a industrialização à produção de alimentos (de facto, ela contesta certas práticas industriais), gera escassez de alimentos, derivada de uma escassa produtividade, que se traduz também em mais horas de mão-de-obra por área cultivada, tornando consequentemente a população mais dependente da terra. A uma primeira análise, esta crítica parece legítima. De facto, ao deixar de lançar toneladas de pesticidas de helicóptero sobre um campo de arroz, dado o seu compromisso (geocêntrico) com a protecção global da vida, o agricultor bio dedica necessariamente mais horas de trabalho do que um agricultor convencional. Aumenta assim a percentagem de força de trabalho dedicada à agricultura.

Quanto à produtividade, é certo que esta é ainda hoje tendencialmente mais baixa na agricultura bio do que na convencional. Mas não muito mais baixa. Estudos recentes revelam que em média esta é apenas 19,2% mais baixa. Mas, em sectores específicos, como na produção de alguns tipos de citrinos, tem-se conseguido inverter esta lógica, conseguindo-se na agricultura bio melhor rendimento por hectar do que em produção convencional. Cabe aqui destacar que as práticas da agricultura convencional nem sempre se traduzem em ganhos de produtividade, já que práticas intensivas estimulam o aparecimento de pragas e de outros problemas fitossanitários em massa, com intensidades sempre imprevisíveis, os quais muitas vezes acabam por reduzir brutalmente a produtividade de certas culturas.

É sabido que a produtividade e a maximização do lucro são a única preocupação da agricultura intensiva capitalista, não importando as condições de produção, a vida de quem produz, nem tão pouco a de quem consome. Ao conciliar produtividade com outras preocupações, a agricultura bio não consegue ainda, salvo excepções pontuais, igualar a produtividade da agricultura convencional. Mas a chamada eco-intensificação tem, através de diferentes métodos, permitido conjugar produtividade com sustentabilidade. Não é por acaso que num relatório da insuspeita FAO (2013) consta que a agricultura biológica pode resolver os problemas de fome que há no mundo.

Deve-se aqui referir que o mito da baixíssima produtividade da agricultura bio é por vezes alimentado por algumas correntes dentro da própria agricultura bio que defendem um mínimo de manipulação humana do meio natural (pouca rega, pouca poda das árvores, pouco uso de tecnologia motorizada, etc.). O resultado prático desta filosofia é efectivamente na maioria dos casos uma produtividade muito baixa, derivada do emprego de técnicas arcaicas e de uma mitificação da natureza e da tradição. Mas estas correntes puristas, muito influenciadas pela chamada agricultura selvagem, são minoritárias no quadro geral da agricultura bio.

  • aversão à sociedade industrial

Outra crítica habitual, ligada à anterior, observa que a agricultura bio é frontalmente adversa à existência da sociedade industrial em que hoje vivemos. Esta crítica fundamenta-se no facto de alguns produtores de agricultura bio julgarem, na sua genuína inocência, que a humanidade poderia prescindir da sociedade industrial. Por causa dos evidentes excessos cometidos pelos industriais, defendem um regresso a uma vida mais simples, menos dependente da produção industrial de mercadorias, tida por poluente, fabricadora de pseudo-necessidades, ultra-devoradora de recursos naturais. Se é certo que a indústria detém hoje um poder hegemónico sobre a vida que deve ser questionado, é errado crer que as sociedades (tecnologicamente) complexas em que vivemos seriam possíveis sem alguma forma de organização industrial da produção.

A própria agricultura bio – se exceptuarmos as suas correntes mais puristas – pressupõe já uma organização em moldes industriais da produção, ainda que matizada pela sua preocupação permanente por defender e multiplicar a vida. Com efeito, a planificação de uma exploração agrícola em modo de produção biológico não tem porque ignorar os principais critérios da produção industrial. Na verdade, estes critérios estiveram sempre presentes, de alguma forma, na relação que o homem, essencialmente desde o Neolítico, foi construindo com o seu meio. Toda a história da agricultura é a história da invenção de estratégias para se produzir a máxima quantidade de recursos alimentares com o mínimo dispêndio de energia. A agricultura bio não vê nesta longa trajectória histórica nenhum problema. Ela apenas compreendeu que, a partir de um determinado momento histórico, coincidente com a expansão planetária do capitalismo, várias estratégias industriais adoptadas para incrementar a produção agrícola (exploração laboral, destruição dos solos, contaminação das águas e dos alimentos, erradicação da biodiversidade, etc.) ignoravam e comprometiam a vida em todos os sentidos.

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  • retrocesso civilizacional

Ao retirar peso à mediação operada por um vasto complexo de tecnologias e técnicas (máquinas, pesticidas, herbicidas, cálculos estatísticos, mega-barragens, modificações genéticas, computadores, etc.) entre o agricultor e a actividade produtiva, a agricultura bio instiga o agricultor a um envolvimento corporal, directo, sensorial (e não abstracto) com o meio. Este é assim levado a deixar de viver apenas no seu jipe, no seu computador, na loja de produtos fitofarmacêuticos, passando a ter um contacto directo, e não meramente mediado, com a exploração e o meio.

Ora, isto exige um certo retorno ao campo, entretanto desertificado de gente, bem como um retorno à observação directa dos fenómenos e ritmos biofísicos. Este regresso ao campo é alvo de críticas duras. Segundo estas, o aumento da população rural levaria a uma diminuição da população urbana que, justamente por estar livre das tarefas agrícolas, se pôde dedicar a novas e fascinantes actividades que ampliaram enormemente os horizontes da humanidade. Seria um retrocesso civilizacional, no sentido em que a civilização (da arte à política, passando pela literatura, a ciência, a filosofia ou o cinema) deve quase tudo à vida urbana. A resposta a esta interessante crítica não é fácil e não serei eu a esboçá-la aqui.

Conclusão

Alguns defensores da agricultura convencional defendem que é a enorme eficiência desta que permite ao homem libertar tempo para dedicar-se às tarefas não-produtivas da vida. Mas os apoiantes da agricultura bio lançam-lhes imediatamente uma questão para a qual aqueles não encontram resposta: de que vale libertar tempo dessa forma, se este será empregue a passear por paisagens monótonas, monocultivadas e poluídas, a beber água contaminada, a comer fruta, legumes ou carne sem sabor e a cuidar de corpos doentes?

Em suma, a oposição entre a agricultura biológica e a convencional traduz a oposição entre dois mundos antagónicos, que se excluem mutuamente. De um lado, o paraíso da contaminação, cada vez mais parecido com um deserto, de onde a industrialização capitalista da comida elimina o paladar, o prazer, a saúde, mundo este que se reproduz à margem dos sentidos humanos, como se fosse possível viver ignorando-os, recalcando-os permanentemente. Do outro lado, um mundo onde a práxis de quem o habita contribui para recolocar a vida justamente lá onde a economia capitalista a tinha eliminado. A oposição entre estes dois mundos é efectivamente aquela que opõe a emancipação relativamente ao capital à mediação do capital, ou, mais simplesmente, a vida à sobrevivência.


As pinturas que ilustram este texto são da autoria, por ordem, de Guillaume Corneille, Bengt Lindström, Henry Heerup, Svavar Guðnason, Henry Heerup 

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

10 thoughts on “Agricultura bio, uma introdução crítica

  1. É um tema que me interessa bastante e queria deixar os meus parabéns pelo o texto, bastante informativo. É uma pena que este tema não seja mais central, visto que a agricultura é, do meu ponto de vista, uma das actividades mais importantes da humanidade.

  2. o texto está muito bom, mas as pinturas para dar um toque intelectual, como obcessão das pessoas neste blog, descredibiliza o artigo, de snobes, para snobes.

    eu trabalho a terra, agricultura biológica para autoconsumo (não uns vasinhos na varanda mas uma horta como deve ser), como hobbie, tenho imenso prazer nisso, é muito relaxante. parece-me que quem escreveu o artigo nunca na verdade trabalhou a terra.

    1. Caro anónimo, aqui todos trabalhamos a terra, mas infelizmente não como hobbie para relaxar, é mesmo para nos alimentarmos. Somos autónomos da grande distribuição (o que requer trabalho árduo) e não snobes que plantam para relaxar a consciência.

  3. Quanto a mim, a agricultura com o “selo” bio em nada resolve os problemas da industrial. No melhor dos casos atenua-os…

    As mesmas empresas que produzem os tão nefastos “idas”, são as mesmas que estão a lucrar a produzir os mesmos para agricultura biológica. Sem focar no mesmo erro das monoculturas, ou para quem quiser nas policulturas de 3 elementos, que são a origem das pragas. Estas mesmas pragas, que continuam a não ser entendidas como o meio de restabelecer o equilíbrio natural! Gostava também de saber o que é necessário para um produto levar o “selo” bio segundo a legislação portuguesa?

    Será isto considerado orgânico segundo a nossa legislação?

    Para o mim o caminho será sempre a aposta na permacultura: agro-florestas ou policulturas perenes. Desculpe-me pelo modo “purista” de ver a coisa…

    1. Caro Phi, a sede de fazer negócio num mercado em expansão levou muito agrobusiness a transferir-se para o bio. Não tardaram a surgir casos de fraude, em que as certificadoras eram subornadas pelos produtores para certificarem como sendo bio produtos que não cumpriam os requisitos mais elementares. A própria legislação se deixa manipular para os mesmos fins. Mas tudo isto nos levaria a toda uma outra discussão. Bastante interessante, por sinal.

  4. Mucho antes de que los nazis llegaran al gobierno algunos científicos alemanes y otros estudiosos exigieron que se creara una nueva ciencia que sustituyera a la existente, que ellos ponían en tela de juicio. Sería una nueva «ciencia aria», basada en conceptos intuitivos antes que en aquellos derivados de la teoría; en el éter, considerado residencia del Geist (espíritu); en el rechazo a aceptar concepciones abstractas o formalistas, vilipendiadas como señales de identidad de la «ciencia judía», y en la adopción, en la medida de lo posible, de avances científicos «obra de alemanes».
    En un estudio ya clásico (19) Alan Beyerchen identifica algunos de los pilares básicos de la ciencia aria. Entre ellos encontramos temas inquietantemente similares a los que están en boga en la actualidad. Uno de los principios básicos de la ciencia aria era, por supuesto, que la ciencia, como dirían algunos, es en esencia un constructo social, de manera que la herencia racial del observador «afecta directamente la perspectiva de su obra». Científicos de razas indeseables, por lo tanto, no estaban cualificados para trabajar. Más bien debían dedicarse a escuchar a aquellos que estaban en armonía con las masas, con el Volk. Además, este enfoque popular o Völkisch animaba a no expertos ideológicamente aleccionados a participar en juicios de valor sobre cuestiones técnicas (como los Volksgerichte o tribunales populares). El carácter internacional del mecanismo de consenso también resultaba abominable a los ideólogos nazis. El materialismo mecanicista, denunciado como fundamento del marxismo, debía ser erradicado de la práctica científica y la física debía reinterpretarse en relación no con la materia, sino con el espíritu. «Los defensores de la física aria descartaron así la objetividad y la internacionalidad en la ciencia […] La objetividad en la ciencia no era más que un eslogan inventado por profesores universitarios para defender sus intereses». Hermann Rauschning, presidente del senado de Danzig, cita así unas palabras de Adolf Hitler:
    Asistimos al fin de la Edad de la Razón […] Una nueva era caracterizada por la explicación mágica del mundo está surgiendo, una explicación basada en la voluntad antes que en el conocimiento: la verdad no existe, ni en el sentido moral ni en el científico […] La ciencia es un fenómeno social, y por tanto está limitada por la utilidad o por el daño que produce. Con su eslogan sobre la objetividad de la ciencia, la comunidad universitaria sólo busca liberarse de la tan necesaria supervisión del Estado.
    Eso que llaman crisis de la ciencia no es más que los hombres empiezan a descubrir por sí mismos que han tomado el camino equivocado abrazando la objetividad y la autonomía. La sencilla pregunta que antecede a toda empresa científica es: ¿quién quiere saber algo, quién quiere orientarse en el mundo que le rodea? (20).
    También estaba la cuestión de cómo podía la tecnología, tal útil para el Estado, encajar en la idea romántica. En épocas recientes muchos movimientos antimodernistas, incluyendo algunos fundamentalistas, han abrazado la tecnología. Pero Philipp Lenar, un destacado físico a la par que héroe cultural de la propaganda nazi, hablaba en representación de al menos una minoría cuando afirmaba que la tendencia de los resultados científicos a preparar el terreno para avances prácticos ha conducido a una peligrosa noción, aquella del «dominio» del hombre sobre la naturaleza. Dicha actitud, sostenía, tan sólo ponía de manifiesto la influencia de «grandes técnicos espiritualmente empobrecidos» y de su «espíritu alienado y esencialmente destructivo». Esta idea hundía también sus raíces en la secular trayectoria de la formación del pensamiento romántico. Alan Beyerchen resume este hecho con la observación de que «el rechazo romántico al materialismo mecánico, al racionalismo, a la teoría y al pensamiento abstracto, a la objetividad y a la especialización llevaba tiempo relacionado con la creencia en un universo orgánico, con el énfasis en el misterio [y] en la subjetividad».

    excerto de
    El lugar de la ciencia en nuestra cultura en el fin de la “era moderna”
    por Gerald Holton

    1. Agradeço-lhe a partilha do excerto. Mas, ao lê-lo enquanto comentário ao que escrevi, fico com uma dúvida: será que a Velha Toupeira se deu ao trabalho de ler o meu post?

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