“Aos Nossos Amigos” – Em breve nas Edições Antipáticas.

Deixamos novo excerto do livro novo do Comité Invisível. Em Inglês foi esta semana partilhado o quinto capitulo do qual retirámos algumas partes.  No campo da literatura crítica e secundária, no último número da Radical Philosophy, Jason Smith faz uma crítica interessante a um outro livro da mesma área, contribuindo a desenhar uma perspectiva mais profunda sobre o impacto que têm tido estes textos. Para muito breve a edição portuguesa.

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“Quarenta anos de contra-revolução triunfante no Ocidente infligiram-nos duas taras siamesas, igualmente nefastas, mas que juntas formam um dispositivo impiedoso: o pacifismo e o radicalismo.

O pacifismo engana e engana-se a si próprio ao fazer da discussão pública e da assembleia o modelo acabado da política. É em virtude disso que um movimento como o das praças se vê incapaz de se tornar noutra coisa que não um insuperável ponto de partida. Para compreender o se passa com a política, não há outra coisa a fazer senão dar uma outra volta até à Grécia, mas desta vez à Antiga. Afinal de contas, a política, foi ela que a inventou. É algo que repugna o pacifista só de se lembrar, mas os gregos antigos inventaram à partida a política como continuação da guerra por outros meios. A prática da assembleia à escala da cidade provém diretamente da prática da assembleia de guerreiros. A igualdade no uso da palavra decorre da igualdade face à morte. A democracia ateniense é uma democracia hoplítica. Ali, é-se cidadão porque se é soldado; daí a exclusão das mulheres e dos escravos. Numa cultura tão violentamente agonística como a cultura grega clássica, o debate vê-se a si mesmo como um momento do confronto guerreiro, agora entre cidadãos, na esfera da palavra, com as armas da persuasão. Aliás, “agon” tanto significa “assembleia” como “concurso”. O cidadão grego completo é aquele que é vitorioso pelas armas como pelo discurso. (…)

Desde a derrota dos anos 1970, a questão moral da radicalidade substituiu insensivelmente à questão estratégica da revolução. O que significa que a revolução sofreu o destino de todas as coisas nestes decénios: foi privatizada. Transformou-se numa oportunidade de valorização pessoal, em que a radicalidade é o critério de avaliação. Os gestos “revolucionários” já não são apreciados a partir da situação em que se inscrevem, dos possíveis que aí abrem ou fecham. Em vez disso, extrai-se de cada um deles uma forma. Tal sabotagem realizada em tal momento, de tal maneira, por tal razão, torna-se simplesmente uma sabotagem. E a sabotagem, enquanto prática carimbada como revolucionária, vai doutamente inscrever o seu lugar numa escala, onde o cocktail molotov se situa acima do lançamento de pedras, mas abaixo do tiro nas pernas, que por sua vez não vale o mesmo que a bomba. O drama é que nenhuma forma de ação é em si mesma revolucionária: a sabotagem foi praticada tanto por reformistas como por nazis. O grau de “violência” de um movimento não indica, em nada, a sua determinação revolucionária. Não se mede a “radicalidade” de uma manifestação através do número de montras partidas. Ou talvez sim, mas então há que deixar o critério da “radicalidade” àqueles cuja preocupação é medir os fenómenos políticos, colocando-os na sua esquelética escala moral. (…)

Deixemos então a preocupação com a radicalidade aos depressivos, aos narcísicos e aos vencidos. A verdadeira questão para os revolucionários trata-se de fazer crescer as potências vivas nas quais participam, de manusear os devires-revolucionários com o propósito de chegar enfim a uma situação revolucionária. Todos aqueles que se deleitam opondo dogmaticamente os “radicais” aos “cidadãos”, os “revoltados em ato” à população passiva, criam barreiras a tais devires. Neste ponto, eles antecipam o trabalho da polícia. Nesta época, há que considerar o tacto como a virtude revolucionária primordial, e não a radicalidade abstrata; e por “tacto” entendemos aqui a arte de manusear devires-revolucionários. (…)

Os revolucionários não têm que converter a “população” desde a exterioridade oca de um qualquer “projeto de sociedade”. Eles devem antes partir da sua própria presença, dos lugares que habitam, dos territórios que lhes são familiares, dos laços que os unem ao que se enreda em sua volta. É da vida que emana a identificação do inimigo, as estratégias e as táticas eficazes, e não de uma profissão de fé prévia. A lógica do crescimento em potência é tudo o que podemos opor à tomada do poder. Habitar plenamente é tudo o que podemos opor ao paradigma do governo. Podemos lançar-nos contra o aparelho de Estado; mas se o terreno ganho não for imediatamente preenchido de uma vida nova, o governo acabará por tomá-lo de volta. Raul Zibechi escreve sobre a insurreição aymara de El Alto na Bolívia em 2003: “Ações desta envergadura não poderiam ser conduzidas sem a existência de uma densa rede de relações entre as pessoas, relações que são, elas próprias, formas de organização. O problema é que não estamos dispostos a considerar que as relações de vizinhança, de amizade, de camaradagem, de família, que se forjam na vida quotidiana, são organizações ao mesmo nível que o sindicato, o partido ou mesmo o Estado. (…) Na cultura ocidental, as relações criadas por contrato, codificadas através de acordos formais, são muitas vezes mais importantes do que as lealdades tecidas por laços afetivos.” Devemos conceder aos detalhes mais quotidianos, mais ínfimos da nossa vida comum, a mesma atenção que concedemos à revolução. Pois a insurreição é a deslocação num terreno ofensivo desta organização, que não o é, e que é inseparável da vida comum. Ela é um salto qualitativo no seio do elemento ético e não a rutura por fim consumada com o quotidiano. Zibechi contínua da seguinte forma: “Os órgãos que apoiam a sublevação são os mesmos que apoiam a vida coletiva quotidiana (as assembleias de bairro nos conselhos de bairro de El Alto). A rotação e a obrigação que regulam a vida quotidiana, regulam da mesma forma o bloqueio das estradas e das ruas.” Assim se dissolve a estéril distinção entre espontaneidade e organização. Não há de um lado uma esfera pré-política, irrefletida, “espontânea” da existência e de outro uma esfera política, racional, organizada. Quem tenha relações de merda só pode desenvolver uma política de merda.”

2 thoughts on ““Aos Nossos Amigos” – Em breve nas Edições Antipáticas.

  1. Pacifismo nas formas e radicalidade no conteúdo, ou o contrário, radicalidade nas formas e “pacifismo” no conteúdo. O primeiro leva ao reformismo, o segundo ao practicismo (ou aquilo a que nalguns círculos se chama reformismo armado, por exemplo lutar com armas contra a austeridade e por um capitalismo mais fofinho). Este é o legado na Europa, com algumas honrosas excepções, que existem e é delas devemos partir.

    Muitos dos que fingem que essas realidades de combatividade não existem são normalmente pacifistas de forma e radicais de conteúdo. Olham para a realidade e inventam logo a primeira desculpa para não actuar: “calma, olha para a realidade, ainda é uma criança, está a dar os primeiros passos..”. Os dois problemas não têm a mesma dimensão na situação actual.

  2. Parece-me que “A insurreição que vem” se pode incluir no radicalismo acima exposto. Se “Aos Nossos Amigos” for, também, uma autocrítica, já é razão suficiente para o ler.

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