Sobre o manifesto 3542 e o manifesto 3543 que apelam à unidade da esquerda

beware-fake-friendsO “Imperativo patriótico” e “uma esquerda que responda por Portugal” são os mais recentes manifestos, dos muitos que já foram escritos a sonhar com a unidade de esquerda, uma vez mais incapazes de lidar com duas ilusões. A primeira, desde logo, é insistir na ideia de que o PS é parte da solução e não parte do problema, a segunda é que, mesmo retirando o PS da equação, achar-se que a unidade entre o PCP e o BE é a panaceia para resolver todos os problemas que têm imposto a marginalidade aos partidos de esquerda e um bloqueio a que disputem o governo com possibilidades efectivas de o ser sequer para travar a austeridade.

Está tudo errado em qualquer uma das duas ilusões. A primeira, mais fácil de desmontar, basta contrapor os muitos anos de poder do Partido Socialista e mostrar aos líricos que este partido é sinónimo de tudo o que é urgente combater. Dos confins em que alienaram até a social-democracia, o PS foi o que os liberais sempre precisaram que fosse. Na hora de legalizar a precariedade, na hora de adiar o flagelo do aborto clandestino, na hora de aplicar as propinas ou despedir trabalhadores em massa, na hora de privatizar, na hora de transferir fundos do público para o privado através das PPP´s, na hora de demolir habitações de populações empobrecidas, na hora de corromper e ser corrompido, de chamar o FMI ou a troika, não sobram vírgulas interpretadas pelo PS que se distingam da pontuação de qualquer outro partido do regime. Qualquer pessoa que olhe para a realidade sem procurar nela os seus desejos sabe que o PS é de todos o mais mentiroso dos partidos, mesmo quando comparado com os da direita de quem não se espera outra coisa senão o programa que satisfaça as elites. Face à sua base social de apoio, o PS tem sido uma fraude muitíssimo superior do que PSD ou CDS. Todos formam o triunvirato do poder, mas só o PS diz ser outra coisa diferente daquilo que tem sido.

Sobre a propalada unidade entre o BE e o PCP é mais difícil apresentar factos que deixem a nu esta impossibilidade, mas podemos bem julgar programas e intenções. É verdade que são todos contra a austeridade e isso poderia ser um plano de mínimos para ir a votos. Mas e depois? Se forem governo o que fazem sobre o Euro, ou a Europa, ou as relações internacionais onde se cruzam temas como Angola, a China ou Cuba, quando um pensa sobre o assunto o contrário do outro e onde o caminho que ambos têm feito em cada uma destas questões os leva cada vez mais para os antípodas um do outro? Ou, na ausência de divergência ou até desenhando um acordo que permita sobre alguns temas haja margem para a disputa política, quem travará o jogo de tudo inventar para que um prepare o funeral ao outro? Como pode um governo assinar com uma mão os acordos necessários para derrotar a austeridade e com a outra segurar a faca que conta usar à primeira oportunidade assim que se conquiste o poder? Como podem BE e PCP, e todos aqueles que acham que esta é a receita do sucesso, governar juntos (ou, que seja, articular um acordo eleitoral contra a austeridade) se em todos os palcos, no terreno da luta, apenas se dedicam ao gládio? Da CGTP ao Que Se Lixe a Troika, da Assembleia da República ao Parlamento Europeu, que garantias temos de que num contexto de unidade mais aprofundado mais não nos darão do que o espectáculo da carnificina, qual Rómulo e Remo a disputar as tetas da Lupa Capitolina? Algum destes dois partidos, em algum momento, deu garantias de que primeiro estará o tal “interesse patriótico” de que tanto falam em detrimento dos “interesses particulares” da construção e salvaguarda das respectivas organizações?

Tenho dúvidas. Hoje por hoje, um acordo “peronista” entre estes dois partidos mais não dará do que desenhos de espadas ou jogadas aritméticas no jogo da representação. Mais facilmente me convenço que as ruínas de qualquer dos aparatos será, a prazo, mais interessante, consistente e capaz de construir uma alternativa. O poder que deviam disputar pode ser disputado já e não precisa de mais do que aquilo que foi feito na Grécia e em Espanha, e se resume na ideia de estimular os processos do duplo poder, ou, se preferirem, na sua disseminação. Paradoxalmente, quando isso esteve ao alcance quer do PCP quer do BE, preferiram sempre as instituições à rua ou às pontes, a democracia formal à democracia popular. Uma refundação do espaço da resistência, por mais tempo que leve, parece-me mais fecundo do que sonhar com um eventual acordo com pouco programa, vulnerável seja ao sectarismo seja ao oportunismo, sem nenhuma fraternidade e que será rasgado à primeira rajada de vento.

2 thoughts on “Sobre o manifesto 3542 e o manifesto 3543 que apelam à unidade da esquerda

  1. Bem, com isto, esmagado me confesso, e irei votar no Doutor Paulo Portas ,uma vez que não há um palhaço com 37 anos de corrida, nem um Sandokan.Se não for nele(com os paneleiros(atençãso quisto é erudição e não aquele gozo pobrezinho dos estrangeirados, do GAY) na sua cola) só se for no Mickey Mouse!
    Olha o doutor marques mendes e as suas felizes contribuições para com a politica e,os bolsos dele bien entendu,com as orelhas do jornalista que ‘escreve’ ao estilo do dan Brown…

  2. Unidade sim, mas na acção.
    A Frente Revolucionária para a Libertação do Povo vingou hoje a morte de Berkin Elvan. Condolências aos familiares e amigos dos mártires

    Viva a Guerra Popular na Turquia!

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