Cartas do vale #12

 

No princípio o tempo estava aprisionado na parede branca da varanda. Foram os cheiros familiares que o soltaram, o bulício natural das coisas, as vozes das pessoas que ali viviam. Para que pudesse percorrer o espaço e descer livre até ao chão, o tempo, que agora era a sombra da cobertura de zinco, deslocou-se através do pátio até ao limite da barreira para fecundar o dia, e todos os outros dias, na orografia tranquila do quintal. O clima era propício ao aparecimento de silhuetas difusas, súplicas invulgares, construções míticas e filosofias extraordinárias que passaram identificar a década que terminava. Eu corria pela casa mostrando a toda a gente os rebuçados bolas-de-neve que me tinham oferecido. Eram do bar do teatro, vinham embrulhados em celofane vermelho com letras impressas a branco: bolas-de-neve. Corria de braço esticado no ar, gritava e pulava de alegria. Imaginava-me um desses bombardeiro que andam por aí, carregado de balas e bombas doces, metia à bruta na boca aos dois e aos três. A sombra da nespereira dava sinal pela manhã. Projectava-se oblíqua na parede da casa até desaparecer naquele céu de Maio por força do passar do tempo. No interior do terraço, sob a cobertura, existia uma obscurecida casa de banho exterior, um acesso ao andar de baixo, uma pia de lavar as mãos, flores de esmalte, um fogareiro, a gaiola do pintassilgo, garrafões. Vê lá se sossegas, disseram-me. Mas eu tinha visto um filme em que entravam aviões e não consegui parar de correr entre as pessoas que ali estavam. As pessoas eram árvores. Houve alturas em que o sabão era a melhor coisa do mundo. Eu podia correr, tinha bolas-de-neve no bico. Vais cair, gritaram-me com dureza. Só parei de me divertir quando vi o homem que andava à procura do cão. Ele apareceu lá baixo e falou comigo logo que me viu no topo das escadas. Olha lá rapaz, viste por aqui o meu cão? Dou-lhe banho com sabão e mesmo assim foi-se embora. Lamentava-se o homem que tinha perdido o cão. Quando aparecer,  vai ver o que lhe faço. O cão tinha-lhe fugido e a solidão tomava conta de si. Se calhar fugiu pela janela aberta,disse-lhe eu. Que história maluca estás tu a contar? Perguntou-me a mulher mais alta da sala, Com quem estás tu a falar? E eu disse-lhe que o velho ia bater no cão por lhe ter fugido. O dono do cão queria-o de volta para o fazer sofrer, para vê-lo fugir e desejar o seu regresso. Eles andavam assim ligados um ao outro. A sala estava repleta daquelas árvores-pessoa a conversar. Lá em baixo, o velho gritava pelo nome do cão. Havia comida sobre a mesa da sala. O fim da manhã cheio de claridade e as árvores de pé assumiam tamanhos diferentes e sem ponta de vento que lhes soprasse. As janelas estavam abertas para a temperatura amena que se fazia sentir lá fora. Alguém a tocar piano no apartamento ao lado. Sentes? Sinto o quê? És um estúpido, não consegues perceber o que se está a passar?  Talvez se passasse o que não deixava sempre de sentir. O tempo estava preso na parede de cal. Os dias naquela casa davam-se muito bem com histórias de amor sem solução, amuos, risos, despedidas e regressos. O velho lá em baixo chama novamente e desta vez dirige-se a um de nós a saber se alguém viu o cão, põem ênfase nas palavras, sobe o tom do grito. Subiu as escadas, mas ninguém o viu. Parou à porta que dá para o pequeno terraço, chama por alguém. Temos estado a conversar uns com os outros, não vimos o seu cão. Tenha paciência. O pintassilgo saltava na gaiola e o zinco da cobertura começava a estalar com o calor. Lá dentro as palavras dele soam como se estivéssemos no teatro. , gritam as árvores-pessoa. Um tipo sereno, vestido de azul, ao fundo da sala, a comer folhas de alface que revestiam os pratos do croquetes está a rir-se entre os limoeiros. É um parente distante que aparece às festas para comer fritos e pasteis de massa-tenra. 
         As árvores todas ao alcance da mão são o espectro da felicidade, risos. Pudesse media-la, de olhos bem fechados, virados ao céu, a ver tudo vermelho, a sentir o cheiro do Sol a bater nos pinheiros, eu vos diria o que é a felicidade. Posso continuar a correr até que o coração me pare de bater? Lá em baixo, entre as súplicas do velho dirigidas à eternidade, as roseiras silenciadas estão cheias de bichos brancos. Que tipo de bicho branco és tu? Pergunta o velho a falar com as roseiras. Naquele mundo redondo quando se mata a sede purifica-se a razão. Saltei para o colo de uma árvore que me oferecia quase tudo o que necessitava. Vai lá dentro e traz a rede para cobrir o pão, está a encher-se tudo de moscas. Que estás tu a pedir-me? Não seria melhor fechar as janelas? A biologia não explicava tudo. As árvores-pessoa e os seus modos já existiam antes da realidade se declarar a si mesma. A biologia aqui é extremamente enganadora, reparei nisso por causa das roseiras que fecundam o silêncio. Mas também nos heróis que amaram prostitutas e que se perderam nos caminhos do amor, nas propriedades universais das coisas e no uso que lhes deram. É tão agradavelmente estranho este património que não se aplicava aos rebuçados bola-de-neve. É neles que tem origem o tempo e a medida para tudo que me era importante. Há por aí demasiados carros a arder, preferia o tempo à solta revelado: o dia de hoje é o um agora sem ontem. 

About JMGervásio

Sou pessoa alta, magra por criação, amante de velocípedes e de quase tudo que implique não fazer à segunda - quero dizer, sou do tipo espontâneo. Licenciado em altos estudos artísticos na ESBAP, tenho, desde lá, desenvolvido uma certa tendência para o comércio a retalho e agricultura de terraço. Possuo momentos de grande felicidade e civilidade que nem sempre são devidamente apreciados.

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