Continente: um antro de precariedade – a história continua

A precariedade das relações laborais é uma realidade cada vez mais generalizada em Portugal. Esta exploração é exercida através da alteração de normas jurídicas do Código do Trabalho, mas também por via de mecanismos à  margem da legalidade. A facilitação do despedimento ou a redução salarial na função pública consciencializou os trabalhadores que a fragilidade dos vínculos laborais no privado ameaça se tornar regra em qualquer esfera da economia. Todos corremos o risco de ser empregados com contratos temporários renovados sucessivamente ou preenchendo recibos-verdes sem qualquer independência no exercício da nossa actividade. Para não mencionar quem pula de estágio em estágio não-remunerado até ao desemprego final.

O diagnóstico não é novo e não surgiu somente com este governo. Os ataques à classe trabalhadora só aumentaram quer em quantidade, quer na sua qualidade. A retórica do ajustamento dos salários em função de uma economia internacional competitiva e a formação de um extenso exército de desempregados fizeram o resto; as pessoas submeteram-se ao mais vil tratamento e a humilhações diárias porque necessitam de pagar contas. Para mais, os Belmiros desta vida têm perfeita noção disso e assumem-no abertamente: «sem mão-de-obra barata não há emprego». Não admira, pois o que sobra e devia ser pago como salário está incluído nos lucros.

Os mesmos que aumentam fortunas no país que definha de pobreza participam como autores da miséria. Os relatos de funcionários do Continente que foram expostos neste blog traduzem cada vez mais a regra e não a excepção. ­­­­­­­­­­­

A todos esses funcionários cabe agradecer pelos contributos que deram. O debate encontra-se aberto apesar do boicote mediático da imprensa oficial. Prova disso foram as palavras confidenciadas a mim por uma amiga minha que trabalhou no call-center do Continente Online – plataforma de encomendas pela internet – e só agora sentiu vontade de partilhar. Diz que prefere o anonimato porque não sabe até que ponto isso poderá prejudicá-la futuramente. De qualquer modo fui investigar para inteirar-me se o que dizia era fidedigno e corroborado pelos seus iguais. Eis quando me deparo com testemunhos de operadores de call-center que “prestaram serviços” em Castelo Branco para a Worten, do grupo Sonae, através uma empresa de outsourcing de nome Reditus.  A mesma que empregou a minha amiga em Lisboa. Passemos aos detalhes:

  • O Continente é cliente da Reditus, uma empresa em grande expansão e com presença em outros países. Tem mais-valias bolsistas e o seu maior accionista é Miguel Pais do Amaral.
  • O capital social da empresa em 31 de Dezembro de 2013 era de 73.193.455 euros. Apesar disso tem situações de atraso no pagamento de subsídios a contratados e oferece trabalho com recurso a “falsos recibos verdes”, cuja formalização obriga a designar por contratos de prestação de serviços.
  • Existem trabalhadores contratados e trabalhadores a falsos recibos verdes a executarem as mesmas funções. Os primeiros auferem o salário mínimo e os segundos recebem por tarefa. Segundo a minha amiga o valor por chamada recebido não chega a 50 cêntimos, a não ser que atinjam no final do mês os objectivos estipulados. Disse que no back-office é provável que a situação se repita mas que naquele momento não tinha como confirmar.
  • As pessoas a trabalhar mediante recibos-verdes obedecem a uma hierarquia e cumprem todas as formalidades da empresa, incluindo uma escala com horários e folgas estipulados. Como ela diz: “querem-nos com direitos de trabalhador independente e deveres de trabalhador por conta de outrem”. Acrescenta que “existem meses complicados porque nem sempre o volume de trabalho permite auferir um salário razoável no fim do mês e ainda é preciso pagar a segurança social”. Em certos casos parece que alguns operadores nem chegam aos 500 euros. Com rendas para pagar e filhos para sustentar, o normal é que “vários colegas chegam a trabalhar bem mais que 8 horas por dia. Alguns até vão trabalhar doentes.”
  • O ambiente é stressante. A necessidade de atingir os objectivos e a constante pressão para atender e resolver prontamente chamadas, com respeito pelos critérios de qualidade, levam ao cansaço e à desmotivação. Qualquer erro é admoestado pela supervisão com severidade. Uma pressão que começa por cima, pela chefia da Sonae e da Reditus.

Parece que o Continente não se limita a explorar a força de trabalho que emprega nas suas superfícies comerciais. Recorre à subcontratação para se desresponsabilizar por aqueles que trabalham para o seu negócio e são explorados com a participação de uma empresa de outsourcing.

A Leonor já tinha dado o mote anteriormente. É necessário denunciar e divulgar estas práticas opressoras com todas as forças. Reforço, por isso, a importância de continuarmos a enviar reclamações para o e-mail ajuda@continente.pt ou  provedoria@sonae.pt. Existe ainda o contacto 707 10 66 66 (valor da chamada é cobrado).

Oxalá no futuro os funcionários directa ou indirectamente ligados ao continente se organizem e digam basta. Quando pensamos que a classe dominante se prepara para destruir a protecção constitucional dos direitos dos trabalhadores, eis que nos deparamos com uma  ofensiva que começou faz tempo. A flexibilidade laboral, que tanta miséria tem trazido, não precisou de meios legais para se afirmar. Necessitou somente de inércia.

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8 thoughts on “Continente: um antro de precariedade – a história continua

  1. Vocês acham, sinceramente, que a Sonae quer saber se as empresas com quem trabalha / colabora são boas ou más empresas; se tratam os trabalhadores bem ou mal?

    São muito ingénuos, se pensam isso.

    Sonae quer lá saber disso. Sonae quer é o trabalho feito ao mais baixo custo.

    Criem um grupo de pessoas, com papeis na mão, e acampem à porta dos Continentes a distribuir os mesmos às pessoas, divulgando aquilo que passa quem lá trabalha. Simples.

    Rua é pública.

    1. «Sonae quer lá saber disso. Sonae quer é o trabalho feito ao mais baixo custo.»

      Sem dúvida.

      Na verdade Zé, a situação só mudará com a luta organizada dos trabalhadores do Continente. De qualquer forma, a denúncia e o simples aviso à Sonae de que ninguém está a dormir, já é uma forma de demonstrar que não achamos isto normal como eles querem fazer parecer – discurso ideológico do neoliberalismo. Que nenhuma pessoa com mentalidade de escravo aceita esta “normalidade”. Acho, contudo, que a tua sugestão é válida, atenção.

      Agora a luta nos locais de trabalho – seja Sonae ou Reditus – estará sempre dependente dos trabalhadores. E a sua mobilização é essencial. Sem esquecer, claro, os obstáculos de mobilizar trabalhadores que são controlados, atomizados e diferenciados até nos seus vínculos laborais, como é verificável neste texto.

  2. Infelizmente o Grupo Sonae não é único. Esta é a realidade das grandes empresas em Portugal que contratam empresas como a Randstad, Talenter, Reditus, Manpower, etc. É a maneira que teem de contratar as pessoas em condições miseráveis sem serem responsabilizados por isso. Conheço muitos casos que já estão a 2 anos na Nós ou Meo através da Randstad ou Talenter com contratos de 15 em 15 dias. Enfim..é o país que temos.

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