Entrevista com André Maia sobre a viragem política na Grécia

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Fotografia da Agência Lusa cedida pelo André Maia

Entrevista com André Maia, actor/cantor a residir em Atenas desde Fevereiro de 2009. Com passagens pelo teatro, cinema, TV, radio, publicidade e dobragens, encontrou e trabalhou em Atenas o palco ideal para desenvolver o seu amor pelo fado, os tangos de Piazzolla, a música francesa… e a felicidade.

Há quanto tempo estás na Grécia? Como tem sido o exercício da tua actividade? 

Vim para a Grécia no dia 12 de Fevereiro de 2009 (a tempo de festejar os meus 45 anos). A Grécia foi uma boa mãe, abriu-me as portas e deixou-me desenvolver os meus projectos artísticos. Em Atenas (6 milhões de habitantes) não há quase nada em português nem um restaurante, um café, só alguns (poucos) livros traduzidos para grego. Por isso comecei a cantar fado com músicos exclusivamente gregos, alguns do sexo feminino e sem ter a guitarra portuguesa como solista. Substitui-a pelo Kanonaki – instrumento tradicional grego de influencia bizantina e o pelo alaúde. Gosto da fusão de influências que encontramos quer na Grécia quer em Portugal.

Como vês a situação política em Portugal e que grande diferenças identificas relativamente à Grécia?

Portugal é aquilo a que costumo chamar de neo-feudalismo-islâmico, quer dizer um país com regras quase absolutistas: poder e indiferença total para com o Povo, como acontece em alguns países islâmicos. A grande confusão é que se fala de democracia quando tudo aponta para ditadura. Ora isto acontece nos últimos 40 anos com os governos PS e PSD. Na Grécia aconteceu exactamente o mesmo desde o fim da ditadura deles em 1974, também com os Governos PASOK (PS) e NEA-DIMOKRATIA (PSD). Coincidência, não?  A grande diferença está na atitude dos dois povos: os gregos passaram por duas Guerras Mundiais, uma guerra civil, uma ditadura de 6 anos e uma pseudo-democracia desde 1974. Estão calejados de dor e sofrimento e sabem que tudo tem um fim. Por isso com as últimas eleições decidiram acelerar o processo de terminus de tanta miséria e falta de dignidade votando numa alternativa de esquerda. E conseguiram.  “ENTRE DOIS INFERNOS ESCOLHO SEMPRE O QUE NÃO CONHEÇO”. Esta é uma das premissas de vida e parece-me ser coincidente com a dos gregos. Ao passo que em Portugal, onde o medo ao desconhecido, à transformação e à mudança enquistou qualquer possibilidade de transformação. Note-se que uma das frases idiomáticas mais usadas em Portugal é: “ENQUANTO O PAU VAI E VEM, FOLGAM AS COSTAS”.

Tens acompanhado a evolução da realidade na Grécia, que expectativas tens e observas nos outros relativamente o governo do Syriza?

Mais do que expectativas há esperança que o governo SYRIZA consiga fazer alguma coisa. E parece que sim! Não esquecer que o mandato só tem ainda um mês. Vamos deixá-los  trabalhar contra tudo e contra todos! Não devemos esquecer que os socialistas e os sociais democratas transformaram este país na  República das bananas: corrupção (É a que se queira), Burocracia (tipo italiana), etc. O país vai precisar de reestruturações de fundo. E isso toma tempo e  cria inimizades. Tenho lido e escutado  criticas tão estúpidas e  mesquinhas a este governo que me levam a duvidar se a Inteligência é uma vantagem sobre o instinto animal. Coisas do tipo:” Foram para o poleiro e não percebem nada do buraco em que o país está”; “Entraram a matar nas reuniões europeias e agora já estão com o rabinho entre as pernas”; O Varoufakis? Esse não percebe nada de Finanças, nem vivia na Grécia nos últimos anos…”, “e’ um rufia”, “Tem a mania que se veste bem, vaidoso, rock star” Isto parecem comentários dos velhos dos marretas. Varoufakis é um homem que percebe de finanças a potes, que acima de tudo é um pensador e professor em diversas Universidades espalhadas pelo planeta. E que se está marimbando para a forma. Ele é um homem de conteúdo. O Alexis Tsipras é um Líder, não há nada a fazer. E o Governo é composto por mais gente, gente educada que vai tentar levantar o país contra as ameaças internas e externas. Pergunto: Se são assim tão incompetentes porque é que a Europa Comunitária entrou em pânico? E parece que não estavam à espera de um discurso grego que falasse em liberdade de opinião, solidariedade Europeia e reestruturação da dívida (Que toda a gente sabe que deu buraco de há 5 anos mas que ninguém quis resolver porque os ex-governos gregos serviam sobretudo os interesses da Europa alemã.

Que medidas concretas já se conseguem notar no quotidiano?

Medidas claras no dia-a-dia: Atenas deixou de ser uma cidade que parecia estar sempre em Estado-de-Sitio (Policia por todo o lado, barreiras em frente ao Parlamento). Respira-se uma paz e uma calma que são o oposto ao MEDO que os governos anteriores impunham. [A foto que ilustra esta entrevista foi tirada um dia antes das eleições de Janeiro; Vejam como as barreiras ali estão. No dia seguinte, logo após a vitória do SYRIZA, as barreiras foram retiradas.  Os governantes andam a pé ou de mota ou nos seus carros pessoais, já vi o Varoufakis na rua, a pé sem segurança. Estão a implementar medidas de ajuda de electricidade a famílias carenciadas.

Achas que o processo grego pode influenciar outros países que têm estado a sofrer as consequências da austeridade?

Acho que é irreversível! O que aconteceu na Grécia é para o Mundo não tem como voltar para trás. É um exemplo muito forte de como o diálogo pode ser levado e deixa bem claro que a Europa é uma farsa onde o que impera são os ganhos económicos de alguns estados membros em detrimento da evolução europeia. ( Antes da Grécia entrar para a Comunidade Europeia já se sabia do buraco financeiro em que se encontrava. Mesmo assim, foi preferível fechar os olhos, aceitá-lo como estado membro e deixar o país afundar. Está clara para mim a posição europeia que pouco ou nada se sensibiliza com a austeridade feroz, a pobreza, o desemprego, o comercio fechado, a a escassez de meios na saúde e o encerramento de estabelecimentos escolares. Já não falo de dignidade de um povo, de cultura, etc.

A extrema-direita, organizada na Aurora Dourada, tem crescido? Como é ser emigrante no país que tem uma das mais fortes organizações xenófobas da Europa?

Parte dos dirigentes do “Aurora Doirada” estão presos. Saiu agora uma Lei em que lhes são confiscados os salários que tinham como deputados no Parlamento. A extrema Direita tem servido bem os governos Socialistas e Sociais democratas, ajudando a instaurar o Medo, o racismo e a insegurança, em geral. Pensar que os nazis quando invadiram a Grécia criaram editais em que diziam: “POR CADA ALEMÃO MORTO EM TERRITÓRIO GREGO, MORRERÃO 80 GREGOS”. E assim foi. Já na época os gregos valiam muito pouco e regiões inteiras foram dizimadas. Diziam que era para matar os comunistas… e assim, mataram velhos, homens, mulheres, jovens, crianças, recém-nascidos. Roubaram-lhes as casas o que tinham dentro, incendiaram escolas cheias de gente lá dentro que morreu queimada, obrigavam os homens a abrir  as suas próprias valas comuns e matavam-nos. E mesmo assim o Comunismo não acabou. (geralmente quando se tomam medidas repressivas o efeito acaba sempre por ser o contrário).

Qual a tua opinião sobre a forma como o governo grego tem conduzido as negociações na Europa, nomeadamente o braço de ferro com o Eurogrupo e a Alemanha?

O Governo SYRIZA tem uma coisa que não existe em Portugal: “TOMATES”. Tomates e Estratégia – os gregos são muito inteligentes e bons a negociar, isso é uma realidade irrefutável. Se essa focagem servir os objectivos da Esquerda, nas negociações com a EU então é uma transformação muito grande. Penso que estão a conseguir impor uma novas forma de comunicação na Europa chamada – DIÁLOGO (termo grego) numa Europa que se quer DEMOCRÁTICA (outro termo grego). Nunca ninguém teve a frontalidade de dizer que as coisas não estão bem, que a troika fez um mau serviço e que esses males devem ser reparados. Porque acima de tudo está a dignidade de um povo que foi rebaixado como se as injecções de dinheiro que foram feitas na Grécia fossem aplicadas em serviço do povo!?! Dinheiro foi para resgatar bancos e dar de volta lucros aos bancos credores. E é aqui que não entendo alguns comentários de portugueses contra “Os Gregos” – gregos POVO!  Andaram a encher-se e não querem pagar, pois, …e são de novo os outros a pagar por eles…”  E em PORTUGAL? Foi o POVO a encher-se com as injecções de dinheiro estrangeiro? Penso que não, pelo menos eu não dei por nada de tal forma que tive de sair dai. Mas para a Europa do Norte os portugueses são uns calões, oportunistas, que se lambuzaram em dinheiro e tal como os outros são uns PIIGS também.

Que achas da posição portuguesa e espanhola, que foram os mais alinhados com a Alemanha na tentativa de bloquear o acordo?

Os governos de Espanha e de Portugal estão a fazer o seu papel como servidores do neo-liberalismo, do medo e da desigualdade social, económica , política e cultural. Tenho vergonha por eles, só isso. Mas Governo não quer dizer POVO. De tal forma que mesmo num país que estava com um governo social democrata, como a Grécia, o POVO disse BASTA com as ultimas eleições de Janeiro. (Parece ser a última arma de transformação de um país – o VOTO  Vejam bem ao que chegou a “DES-DEMOCRACIA”!  A Espanha vai dizer Basta! Parece-me que a Itália também, a Franca terá um braço de Ferro com a Direita de Le Pen mas no fim será a esquerda a ganhar. E preparem-se porque dentro da Alemanha as coisas estão a mexer também (seria a grande bomba, a implosão da direita!). Não esquecer que há jovens que não passaram por ditaduras, nem repressões e que são cultos e educados e MUITOS!!! Esta Europa conservadora, reaccionária e caduca que se prepare para a CIDADANIA!

O acordo ganhou tempo, mas ainda decidiu relativamente pouco face às promessas eleitorais do Syriza. Achas que no final do tempo que se ganhou as reformas vão avançar ou tudo vai continuar na mesma?

Foi criado há dias um organismo governamental grego que vai analisar todas as medidas que foram implementadas pela troika na Grécia durante os últimos 5 anos. Vão separar as medidas que foram justas das que não tinham cabimento e falharam. Creio que o SYRIZA vai tentar ao máximo cumprir o seu projecto contra tudo e contra todos. Peço um voto de confiança para este governo que tomou posse há um mês e que tem de dar resposta total em tão pouco tempo. Volto a repetir, só gente com tomates aceita o desafio. Se falharem? As coisas já não voltarão ao que eram. E os governos antecessores que falharam por corrupção ninguém lhes cobra nada?

Pensas voltar a Portugal? O que te fez partir?

A Grécia tornou-se definitivamente a minha casa. Não consigo viver longe da Acrópole que é um vector espiritual da cidade e do País. Gosto da gente, da sua liberdade interior, da forma corajosa como lidam com a dor e as agruras da vida. Voltarei a Portugal se me convidarem a actuar em concerto. Irei com músicos gregos. Mostrarei como somos iguais no coração, nos sorrisos, na arte e na alma. Parti de Portugal porque tinha chegado ao limite da asfixia: como agente cultural não tinha trabalho (e ao fim de 20 e tal anos a servir a arte e a cultura do País, custa um pouco…). Tive o convite de alguns amigos gregos que acreditando no meu talento me abriram as portas em Atenas.  Foi a melhor escolha que fiz na vida uma vez que, apesar da crise, eu continuo até hoje a criar projectos, a realizá-los, a chegar a cada vez mais gente, a ser uma pessoa realizada. Aprendi o que é a auto-estima, o que é criar projectos culturais sem ter sempre o não como resposta, aprendi que é possível dizer o que se pensa sem ter medo de represálias (admiro isso nos gregos – falam mesmo e cada um tem uma opinião e procuram fundamentá-la). Aprendi que se respira fora de Portugal. Aprendi que não sou um emigrante mas sim, um cidadão deste pequeno planeta que é uma aldeia.

O que dirias aos portugueses, com base na tua experiência na Grécia?

Que “sopram ventos de mudança” quer queiramos quer não já estamos na Era de Aquários. O elemento Ferro da Era anterior, terminou. Vamos libertar-nos de armas emocionais densas e das armas físicas – Não vamos precisar delas no Futuro. Temos de estar leves, lúcidos e sem medo de criar um País novo com base na arte e na cultura do nosso Povo. Somos um país periférico, só lá vai quem quer. Portugal é uma Ilha rodeada pelo Mar e por Espanha. Por isso criamos mecanismos de defesa que roçam o provincianismo ou melhor, o pirosismo – Tudo o que vem de fora é bom, não se apoiam nem valorizam os portugueses, importa-se tudo, não seguimos nem criamos modelos de vida Europeus mas sim vindos dos EUA, um Euro Vale mais do que uma ideia, sentimento ou emoção. Estamos escravos do materialismo, do consumo tecnológico e não  trabalhamos o nosso desenvolvimento interior, a nossa espiritualidade (Aliás é por ela que aqui estamos). Há muitos anos, li um grafite anarquista, na Fontes Pereira de Melo, em Lisboa, que resume o que digo: “COMBATE O FASCISMO NAS RUAS E DENTRO DA TUA CABEÇA!”

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