Vão continuar a escravizar milhares de pessoas até quando?

Perante os relatos revelando abusos aos funcionários da empresa, o Continente saiu do silêncio com um ‘comunicado’ (publicado numa caixa de comentários do Facebook) que é um verdadeiro tratado de hipocrisia:

Continente 2

Continente 1

Tanto artifício, tanta habilidade, tanta falta de vergonha.

Nem uma única palavra sobre a torrente de desabafos e escândalos reportados pelos seus trabalhadores. Sobre isto, e se tivessem um pingo de consideração por estes, poderiam ao menos ter dado a resposta típica: iremos averiguar. Mas nem sequer disso foram capazes. Dizem apenas que “não se podem pronunciar”, fingindo que o tema não existe, que tudo não passa de loucura, de capricho ficcional de quem lá trabalha.

Ou seja, sobre a humilhação e o terror físico e psicológico a que submetem boa parte dos seus funcionários, nada de nada. Porque para o Continente, conforme demonstraram com precisão todos aqueles desabafos, é precisamente isso que valem as pessoas – nada, zero. O resto são os malabarismos da propaganda oca habitual: projectos de apoio social, políticas de emprego, produção sustentável, responsabilidade social, blábláblá…

Vão continuar a escravizar milhares de pessoas até quando?


[Nota: o vergonhoso ‘comunicado’ que aqui divulgamos foi publicado hoje, pelas 8h, pelo Continente numa caixa de comentários da página do ‘Ganhem Vergonha’ no Facebook, e foi, pelas 10h, apagado da mesma página pela empresa do grupo SONAE]

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

8 thoughts on “Vão continuar a escravizar milhares de pessoas até quando?

  1. No primeiro post sobre este tema esqueci-me de falar de uma notícia que me chocou bastante. Quando andava à procura das condições de trabalho dos estágios do iefp, cuja comparticipação do ordenado do funcionário é dada até 100% pelo Estado, além de verificar que o escalão de remuneração de um licenciado tinha descido desde 2009, li ainda que a cadeia do Mc Donalds iria receber largas dezenas de estágios profissionais comparticipados pelo iefp.
    A questão que coloco é esta:
    – Partindo do princípio que as condições de trabalho do Mc Donalds não mudam muito das do Continente ou das grandes superfícies multinacionais, o estado não só é conivente com este tipo de situações, como as alimenta, ajudando com largas comparticipações.
    – estas comparticipações, não só alavancam uma economia já desproporcional, como prejudicam as pequenas e médias empresas que ficam sem esse financiamento.
    – com isto, percebemos claramente que este caminho não é casuístico, mas uma opção bem pensada, estruturada e consciente dos nossos governos, que tem como objectivo a concentração da riqueza.
    – Por sua vez, se a distribuição dessa riqueza não é feita de forma justa, o poder concentra-se e o jogo de manipulação da sociedade torna-se fácil e a precisar cada vez de menos habilidade.

    A finalidade, julgo, é daqui a pouco a realidade esclavagista parecer, com naturalidade, a única possivel.

    1. Subscrevo. E, na verdade, se visitares esta caixa de comentários
      http://www.obeissancemorte.wordpress.com/2015/02/21/sobre-os-abusos-permanentes-aos-trabalhadores-dos-hipermercados-continente-por-trabalhadora-abusada/comment-page-3/#comment-3999
      apercebes-te de como, para uma percentagem que não é assim tão pequena de malta (que se farta de defender a forma como o Continente espezinha barbaramente os seus funcionários), a realidade esclavagista parece já a única possível. O problema é que as práticas esclavagistas fazem novamente parte do mundo laboral contemporâneo. Elas pertencem ao presente e não a um futuro que, se não tivéssemos cuidado, poderia chegar. Elas estão de tal modo instaladas na práxis corrente que, perante estas denúncias, o Continente nem sequer precisa de lançar um comunicado a dizer que vai averiguar. Averiguar o quê?

  2. Em 2009 – 2010 trabalhei no extinto Modelo, agora Continente e o que li dos relatos escritos, dos ditos trabalhadores e ditos ex-trabalhadores, corresponde ao que lá se passava. Conheço pessoas a trabalhar no Continente e no Pingo Doce, em diversas lojas, e o que se passa é isso mesmo. É uma vergonha, e a VERGONHA é algo que eles não têm na cara nem em lado algum. E o meu nome é Vitor e não sou um anónimo, oh! como eles escrevem sobre os anónimos e os que se escondem atrás de blogs. Se pedirem ao administrador do site, sim pode-lhes podem dar o meu IP.

    Beijos e abraços,
    Vitor

  3. Se o Freud e o Yung soubessem que toda esta corja capitalista um dia se serviria de todo o seu conhecimento para manipular a malta a fim de escravizar a mente, a vontade e a dignidade através de lhes “darem” o que eles acham que precisam, talvez o tratamento fosse outro… Nunca os níveis de escravidão foram tão alarmantes em período nenhum da história da humanidade e por tão vastas razões. Lamentável e vergonhoso!

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