Entrevista com Rui Cruz, fundador do Tugaleaks, um dos detidos na Operação Caretos, onde sete pessoas são acusadas de cibercrime.

rui-cruzComo te sentes face aos acontecimentos e qual o teu ponto de vista sobre todo este processo?

Sinto-me injustiçado. Estou a ser vítima de um processo verdadeiramente desumano. Privaram-me do direito legítimo e constitucional ao trabalho. A minha detenção é um atentado à liberdade de imprensa. Estou inocente dos crimes que me acusam e, até que o processo acabe, estou proibido de exercer a minha actividade profissional. Não posso celebrar contratos que visem serviços de internet. Não posso sequer aceder à internet. O alegado perigo de reincidência não faz nenhum sentido pois eu estou inocente. É tão ridícula a medida de coação que, levada à letra, nem sei se posso usar o multibanco uma vez que ele está ligado à internet.

De que vos acusam? O que procuraram saber? Podes descrever-nos o que se passou, como procedeu a polícia quando chegou a tua casa? O que apreenderam?

Acusam-nos de cibercrimes. Apareceram durante a manhã. Bateram à porta, entraram e só depois mostraram o mandato emitido por um juiz. Estava presente a juíza, um Procurador e a Presidente do Sindicato de Jornalistas, a Sofia Branco, por ser obrigatório por lei. Apreenderam todo o material informático que estava a usar naquele momento. Dos telefones aos computadores, tudo. Acusam-me de estar a apoiar as actividades de hackers apenas por divulgar a informação relativa à sua actividade. Confundem dar as notícias com o fazer parte da notícia.

E por quanto tempo te mantiveram detido?

Dois dias e uma noite.

E o que aconteceu nesse período?

Sobretudo o interrogatório onde perguntavam coisas relacionadas com as buscas, mas não posso sobre isso acrescentar mais por estar obrigado ao segredo de justiça. Chegaram a acusar-me de hackers, mas essa acusação caiu logo por terra. É evidente que sabem que eu sou apenas um jornalista, mas pelos vistos eles entendem que fazer notícias é uma actividade criminosa… Saí com termo de identidade e residência e proibido de aceder à rede. Estou igualmente proibido de contactar com os outros arguidos, pelo que assumo que os outros arguidos fazem parte do mesmo processo.

E o que fez o Sindicato, a Comissão de Carteira ou a ERC até agora sobre o assunto?

Nada. Que eu saiba nem uma palavra. O sindicato não emitiu nenhum comunicado. Tenho tido de resto mais apoios internacionais do que nacionais. Por exemplo dos Reporter without borders. Tomaram posição. Em Portugal ninguém disse nada. Estou também a tentar apoio financeiro, que com esta medida de coacção ficarei sem dinheiro para viver em muito pouco tempo sem fundo de maneio. Eu trabalhava para uma empresa para quem prestava serviços, por intermédio de outras empresas, há oito anos, e decidiram dispensar-me assim que viram as notícias sobre a detenção. Estava a contrato e terei subsídio de desemprego, mas o processo pode demorar mais do que isso.

Achas que há relação entre estas detenções e o recente pacote de leis alegadamente desenhadas para combater o terrorismo?

Não sei. Sei que no dia seguinte a ministra anunciou mais um pacote de medidas de combate ao cibercrime, para fazer jogo político em cima dos acontecimentos. Após uma detenção mediática, com acesso privilegiado a informação, para justificar politicamente da sua ala partidária e para convencer a opinião pública das novas medidas de combate ao cibercrime anunciadas. Para mim isso tem um nome: oportunismo político.

O que achas que pretendem com este processo, politicamente falando?

Julgam que prendendo uns quantos acabam com os anonymous, mas já perceberam que isso não é assim. Ao mesmo tempo que essas pessoas estavam detidas outras pessoas continuaram os ataques. Estão a tentar destruir os anonymous ligados a ataque informáticos mas isso não é possível. Prendem um logo outros continuam.

Tens advogado?

Sim, chama-se Jaime Roriz. Ao que sei os outros arguidos ficaram com os advogados dados pelo Estado, eu, pelas particularidades do meu processo, preferi encontrar alguém que tivesse noção da minha actividade e me conhecesse pessoalmente. Tenho agora a preocupação de pagar o advogado, além da sobrevivência, mas acredito na solidariedade. O fundo de maneio não dá para quase nada, não tenho alternativa senão confiar nisso e na celeridade do processo. Espero que com o recurso que vai ser apresentado a juíza analise novamente as coisas e recue com esta decisão desumana.

8 thoughts on “Entrevista com Rui Cruz, fundador do Tugaleaks, um dos detidos na Operação Caretos, onde sete pessoas são acusadas de cibercrime.

  1. obviamente, o multibanco (a rede de caixas multibanco) não está ligado à internet. ele, sendo alguém que se move na área das tecnologias da informação, sabe isso perfeitamente. é conversa fiada. n sei se ele é culpado daquilo por que foi acusado, mas n é com respostas destas que a defesa dele vai funcionar. só fica mal na fotografia, aliás.
    mais, o que o “tugaleaks” fazia não era jornalismo. ou melhor, era, mas só se considerar-mos que o que o correio da manhã, o the sun, etc, fazem é jornalismo.

    1. Acho que estão conectadas indiretamente(ATM -> Server -> Internet), senão o €€ que gastas online não iria atualizar instantaneamente na ATM.

  2. Acompanhei esse problema que te aconteceu, fiquei muito triste pois te conheci, sei quem fostes na juventude. Quanto fostes correto, sinto muita saudades como foi maravilhoso as brincadeiras tão alegres sem maldade. Sinto muita saudade.

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