António Costa: caminho aberto para o quê?

O mais recente discurso de António Costa perante uma plateia chinesa – capitalistas chineses, melhor dizendo – no Casino da Póvoa de Varzim só surpreendeu os mais incautos. Aqueles que sabem a distância do dever-ser para o ser ou, simplesmente, percebem que o Partido Socialista se encontra em consonância com a Terceira Via, apenas se questionam até quando o líder socialista conseguirá esconder os interesses que verdadeiramente defende. A sua agenda é a mesma dos seus homólogos socialistas europeus e reflecte um trajecto de aburguesamento, próprio de qualquer partido catch-all. Adopta um discurso dúbio para canalizar o descontentamento das massas de trabalhadores enquanto assegura a defesa dos interesses da mão – bastante visível – que lhe dá de comer [1].  Visa aproximar a pequena-burguesia do grande capital, num truque de ilusão que procura convencer o sr. José do restaurante que os seus problemas são os mesmos do outro empresário chamado Soares dos Santos. Faz do interclassismo a bandeira para conseguir votos e chegar ao poder. Alcançado o objectivo é tempo de fazer acertos ao discurso e a certas medidas para continuar tudo na mesma com aspecto de que tudo mudou.

Para quem ainda pensa que a Internacional Socialista se debate com questões que animavam Bernstein e Rosa Luxemburgo que se engane. O keynesianismo e a política progressista estão agora entregues a partidos da Esquerda Europeia como o Podemos ou o Syriza.  Actualmente as discussões nas fileiras socialistas variam entre o estado-regulador e o estado a que chegámos. Tudo isto porque o materialismo dialéctico foi deitado ao lixo e a luta de classes é uma ficção. O neokantismo, idealista por natureza, quer uma universalidade e uma conciliação que não existe. O seu campo teórico é maleável e molda-se consoante a correlação de forças. Não consegue compreender que uma sociedade justa não pressupõe qualquer acordo de interesses entre um opressor e um oprimido. O primeiro terá de ceder em toda a linha.

Não sei se me faço entender, mas o PS evoluiu naturalmente para o neoliberalismo de rosa na lapela que faz escola desde o New Labour de Blair. Abraçou o consenso de Washington [2] e o toma como seu. Não coloca em causa a globalização, as regras do comércio internacional e pretende cumprir os critérios de sucesso económico estabelecidos pelas instituições mais liberais do planeta. Sempre com pequenas mudanças incrementais para parecer diferente da direita parlamentar, mas nunca almejando qualquer alteração estrutural. O investimento estrangeiro e as privatizações como motores de uma economia saudável tornaram-se parte dessas verdades mitigadas. O investimento chinês é disso exemplo [3]. Portugal é o 4.º principal destino europeu para negócios da China. O capital chinês fez entrar nas contas dos grandes grupos económicos e dos cofres do Tesouro um valor estimado de 5,9 mil milhões de euros. Dinheiro este que entrou directamente para os bolsos de capitalistas ou serviu para o Estado pagar o serviço de dívida ou amortizações aos seus credores sem se perceber bem em que medida melhorou a vida das pessoas. Os salários foram cortados, os despedimentos aconteceram e a austeridade fez o seu caminho. Aquilo que sabemos é que a electricidade é privada quando deveria ser pública; continua cara para os bolsos e alimenta com lucros a gigante chinesa Three Gorges que adquiriu 21,35% da EDP, assim como a China State Grid que detém 25% da Rede Eléctrica Nacional. Também sabemos que a saúde é uma área cuja actuação pública, universal e gratuita dos seus serviços deveria ser inquestionável. Todavia, os seus custos têm aumentado para benefício de grupos privados que beneficiam de parcerias público-privadas no âmbito da hospitalização privada ou de seguros de saúde privados. É o exemplo da corporação chinesa Fosun com uma oferta de aquisição pública da Espírito Santo Saúde e detentora de 85% da Tranquilidade.

Percebe-se então a afirmação de António Costa a fazer lembrar Luís Montenegro. O país está melhor apesar das pessoas viverem consideravelmente pior. O país entenda-se por classe proprietária dos grandes grupos económicos. Todos os que lucraram com o saque da dívida, as privatizações, o desemprego, a flexibilidade laboral e os cortes em áreas como a saúde ou a educação. Perante o exposto, veja-se a declaração de intenções do secretário-geral do PS numa sms enviada aos militantes e a que tive acesso:

«Fico perplexo que pensem que a oposição ao governo me impede de defender o país. E que ao dirigir-me a investidores estrangeiros, no exercício de funções institucionais, em vez de valorizar os fatores positivos de Portugal, me centre no aumento da pobreza, do desemprego, da emigração, da estagnação económica, dos cortes de salários e pensões.

Para destruir a confiança já basta o governo. Não confundo oposição com bota abaixismo. Todos sabem bem o que penso do estado do pais e da urgência de mudar de politicas e de governo. Por mais que digam, não alteram a dura realidade, que a Comissão Europeia confirma: Portugal mantém desequilíbrios excessivos, que determinam vigilância reforçada; Cortes nos apoios sociais afectaram mais os mais pobres; e foi o pais que sofreu maior aumento da pobreza (mais 210.000 pessoas). A essa realidade respondemos com a nossa alternativa. António Costa»

É preciso responder a António Costa para que ele perceba. Fazer a oposição a este governo é defender as pessoas que foram alvo da austeridade durante estes anos, não defender o bom cumprimento do memorando da Troika. E mais, ao dirigir-se a investidores estrangeiros deveria informá-los que o país está bem pior com o programa de privatizações e que certas empresas com capital chinês necessitam de ser nacionalizadas rapidamente. Isto não é bota-abaixismo, mas sim oposição séria. Não brinquemos com as palavras; uma mudança dentro do mesmo sistema é caminho aberto para uma alternância, não para uma alternativa.


[1] A burguesia portuguesa é a grande financiadora dos partidos do bloco central como é verificável nesta peça d’O Observador: http://observador.pt/especiais/saiba-os-nomes-de-quem-financia-os-partidos/

[2] Medidas formuladas em 1989 por economistas da nata neo-liberal ( FMI, Banco Mundial e Departamento do Tesouro americano)  e que se condensam em dez regras básicas. A base para uma política de desenvolvimento macroeconómica.

[3] Para mais informações em relação ao investimento chinês em Portugal:

http://www.publico.pt/economia/noticia/compra-da-es-saude-coloca-investimento-chines-acima-de-5000-milhoes-1672544

2 thoughts on “António Costa: caminho aberto para o quê?

  1. Boas ;-)

    Sobre a referência [1]… E isto são apenas os montantes do conhecimento oficial e publicado!

    Bendito PAPEL-MOEDA!

    Sobre o resto! O gangue partidário já revelou publicamente que

    “Foi um enorme… uhuhuh… as coisas devem ser feitas no seu tempo, foi uma enorme honra para mim ter servido o meu partido nestas funções…” Branquinho disse!

    Quanto ao comportamento da MANADA que “pensa” que através do “voto” altera alguma coisa no SISTEMA, resta-nos contemplar o comportamento obsessivo compulsivo que continua há 38 anos a ser por ela manifestado!

    Assim sendo… Resta RIR :lol:

    :cool:

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