O que é uma Barbearia Masculina?

Por todo o lado se escutam elegias pela decadência do macho português. Outrora uma raça de marinheiros e toureiros o homem português deixou-se amaricar pela CEE, pelo leite de arroz, pelo BES, pelas “femininistas” histéricas e pelas mulheres que de repente passaram a poder entrar em todo lado.

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Toda a Gália? Não! No centro de Lisboa uma série de miúdos decidiram abrir uma barbearia onde os gajos ainda podem ser gajos. Disfarçaram-se de Querelle, tatuaram umas patetices ridículas na cara, alugaram um espaço gigantesco numa das zonas comerciais mais caras da cidade e proibiram as mulheres de entrar. Aparentemente este local onde apenas podem entrar homens e cães surge enquanto preservação cultural de espaços de convívio masculinos tradicionais, ameaçados por essa terrível doença, a “pós-modernidade”.

Atente-se no preparo: o último bastião da masculinidade tradicional é um cabeleireiro de luxo no Chiado onde putos mascarados de marinheiro cobram 25 euros para aparar barbas, num local decorado com brinquedos encomendados pela net, onde passam metade do tempo a posar para redes sociais.

O Figaro’s tem então obviamente mais a ver com um decor de Disneylândia do que com qualquer outra coisa. De “tradicional” ou “autêntico” não tem absolutamente nada e representa, pelo contrário, uma tentativa absolutamente insípida e fascistóide de reagir a uma série de ressentimentos bacocos.

Não querendo agravar as tensões deixamos apenas mais umas sugestões de locais semelhantes:

Pedicure Bárbara: Um salão de pedicure masculina onde vários homens vestidos à Conan tratam de pés masculinos. Mulher não entra para que os clientes possam ler revistinhas dos X-Men à vontade.

Massagem Campina: No último andar do El Corte Inglês uma equipa de Forcados vestidos a rigor, com vacas tatuadas na testa, dá massagens de pedras quentes e cacau. Mulheres não entram para que os clientes possam folhear o catálogo dos sapatos do Cristiano Ronaldo à vontade.

Personal Shopper Cowboy (com Cavalo). O personal shopper vai buscar o cliente a cavalo e leva-o a uma selecção de comércio de luxo na capital incluindo mercearias gourmet e gelados Santini. Mulher não entra para que o cliente possa dizer asneiras quando lhe batam os tomates na sela.

Fora de brincadeiras, que a defesa das identidades de género assuma tão directamente as modas de um certo tempo só serve a demonstrar a essência social e cultural do que é alegadamente natural.

É este o paradoxo que está no cerne de espaços como este, para lá do que compreendem os seus dinamizadores: estes rapazes criaram um espaço onde mulher não entra para poder assumir os comportamentos que identificam enquanto femininos à vontade. Um bando de crianças que tem de se disfarçar de Marlon Brando e Steve McQueen para se apaparicar longe de um olhar feminino. É isto que explica porque tanto dos insultos dirigidos às invasoras consistiam em assumir nelas uma determinada frustração sexual – porque esse olhar feminino surge enquanto total projecção do próprio olhar masculino, tão ressentido por continuamente exigir a si próprio mais do que é capaz de dar, tão entregue à miséria sexual de quem confunde sexo com performance e pujança, tão permanentemente separado e reprimido que apenas na pantomina patética da barbearia “só para homens” é capaz de se expressar.

Todo o poder às pessoas que invadiram o Figaro’s e que não se deixem ir abaixo pela avalanche de idiotices que leram nos últimos dias.

P.S. Os meninos da barbearia que pegaram em paus que pensem bem se é mesmo por aí que querem prosseguir.

35 thoughts on “O que é uma Barbearia Masculina?

  1. “Os meninos da barbearia que pegaram em paus que pensem bem se é mesmo por aí que querem prosseguir.”
    Ainda lhes concede o benefício de achar que conseguem pensar. É um optimista!

  2. ” No centro de Lisboa uma série de miúdos decidiram abrir uma barbearia onde os gajos ainda podem ser gajos. Disfarçaram-se de Querelle, tatuaram umas patetices ridículas na cara… ”

    Parei por aqui. Para quem exige uma data de coisas, inclusivé ser respeitado, quem assina este texto trata os demais de uma forma no mínimo curiosa, esteriotipada e pouco de acordo com o que grita aos sete ventos.
    E faço uma pergunta: o conceito de barbearia alguma vez deixou de ser um conceito masculino? É isso que não percebo. Acho que tem andado toda a gente a dormir.
    Como já disse, aquele letreiro é infeliz até porque acho que ter um letreiro que diga apenas “barbearia” já identificava bem o local e a quem se destinava.
    E duvido que alguma vez alguma mulher, por mais defensora dos seus direitos e “feminista” (hoje em dia há que ter cuidado a utilizar esta expressão, por respeito ás que verdadeiramente o são) pensaria em lá entrar. Porque simplesmente é um lugar que não interessará muito ás mulheres. Nunca interessou. Mas de repente um letreiro muda tudo e parece que é essencial para a defesa dos seus direitos fundamentais poderem conviver em barbearias. E de repente quem abre um negócio e tem um aspecto diferente é apelidado de tudo e mais alguma coisa e ridicularizado, como nesta brilhante crónica. Muita coerência que por aí anda à solta.
    Repito, o letreiro foi infeliz, quase tão infeliz como toda esta onda que sinceramente me ultrapassa.

    1. E quanto aos paus, abra um negócio, com clientes lá dentro a serem atendidos, e veremos como age se um dia lhe invadirem a loja de cara tapada.
      Falar é fácil, fazer crónicas na net mais fácil é.

      1. Adorei os teus dois comentários e subscrevo. Acrescento ainda que da primeira vez que li a notícia noutro blog dei por mim a lembrar-me dum “ginásio feminino” que não deixava homens entrar e por vezes nem à porta podiamos esperar pela nossa mulher/namorada, porque deixavamos as meninas incomodadas. Aí num espaço cujo uso não sugere género, na qual nunca ouvi de homens a armarem-se em bárbaros e invadirem um espaço comercial.

        Por outro lado, eu já fui ao Figaro’s e foi uma experiência única que duvido que alguma mulher alguma vez tenha algum interesse em ter, aconselho vivamente a quem aprecie um penteado das décadas 20-30 do século passado, com ou sem barba.

        E já agora, eu vi uma mulher a entrar e a deixar lá o filho e não vi ninguém a correr com a senhora. Como respondi a uma amiga minha que partilhou esta publicação, repito-me dizendo que apenas tenho vergonha pela atitude das supostas “mulheres” cuja imancipação não pensei levar a atitudes deste género.

      2. Porque é que são “supostas mulheres”. Quem é o Fernando Silva para dizer quem é ou não “mulher”? Fico muito contente que tenha tido uma experiência tão fantástica e singular, e eu próprio, a ter ainda cabelo, adoraria ter experiências semelhantes, mas isso nada diz sobre o tema em questão. O melhor restaurante do mundo pode não ser vir judeus que a comida continua a ser boa e o sitio continua a ser mau.

  3. Artigo faccioso
    Os rapazes só querem ter uma barbearia……. Normalmente não é um espaço para senhoras….
    A Barbearia em questão é a cópia de uma barbearia em Roterdão que tem muito sucesso onde as pessoas respeitam o conceito de que é de facto um espaço para homens.
    Conheço várias senhoras que lá foram, à do artigo e foram muito bem recebidas, só não lhes cortam o cabelo. Essas senhoras do “problema” talvez sejam um tanto ou quanto exageradas.

  4. Isto já enjoa, eu nunca fui a uma barbearia cortar o cabelo e fazer a barba, não percebo o porquê de andarem com a pipoca aos saltos por causa deste assunto, que enjoo de tripas!!!!!

  5. O que tu gostavas mesmo era que o Fassbinder te filmasse com uma super 8 a ser sodomiazado por um turco com Samarcanda como cenário! Uma questão? Já saltaste do armário?

  6. Sinceramente, por mais bem escrita que esteja esta crónica, o conteudo é uma estupidez. Quantos ginásios com aulas só para mulheres há por aí? E nunca vi nenhum deles a ser invadido por uma horda de manifestantes revoltados, ou a ser minimamente criticado. Toda a gente reconhece às mulheres o direito a locais onde estar sem um olhar masculino. De repente o homem não tem direito a estar longe do olhar feminino? São igualitários quando lhes convém, esta cambada de feminazis.
    Igualdade de sexos supostamente é homem e mulher ou qualquer outro sexo indefinido serem iguais, não os homens serem uma merda.

  7. Os homens que defendem esta treta deveriam ir a um ginecologista porque basicamente vocês são umas “conas”
    para o resto: não têm mais nada que fazer do que chatear quem trabalha

  8. Mas que grande falta de sentido crítico está esparrachada nesta crónica. O que eles fazem ou deixam de fazer no seu ESPAÇO PRIVADO é com eles. Agora, fazer uma birra por não poderem entrar num estabelecimento que não lhes convém é o maior “first world problem” que esta cidade já assistiu. Que palhaçada. Pensava que já tínhamos ultrapassado esta fase, malta. Que país retrogrado é este? Intolerância às diferenças em pleno século XXI.

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