(Antes do vale, carta sem emenda #11)

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I
Eu não tinha permissão para lhe falar. Mas todos os oito dias ela batia à porta da minha casa que ficava a 12 km do farol, na direcção da localidade. Durante algum tempo, antes de me mudar para o vale, foi ali que dei abrigo ao corpo. Pensava que ela fosse a mulher do faroleiro. Descobri que não. Soube disso no dia em que ele morreu.
Nunca nos falávamos. Ela nunca me permitiu que lhe fizesse uma única pergunta durante as visitas que me fazia. Levava-me o dedo à boca e punha-me as palavras em silêncio, se eu tentasse falar. Eu respeitei sempre esse seu desejo. Nas visitas que me fazia nunca disse nada. Às vezes parecia ser feita da mesma matéria de que é feito o vento. Talvez por afinidade a tudo que ali existia, imaginava que ela viesse do mar. Àgua e sal.
Ela entrava e descalçava-se à porta de casa e cheirava a água e sal. Pegava na minha mão e levava-me a ver o Sol da tarde a entrar pela janela do quarto que ficava no topo norte da casa. Sentava-se na minha cama de pernas cruzadas e olhava a luz na parede onde se encostava a cabeceira da cama. Depois estendia-se na cama rebolando como um gato a fim de alcançar os livros que tinha na mesa de cabeceira do lado oposto à janela. Folheava os livros e atirava para o chão com uma ponta de maldade os marcadores que eu lá deixava. Voavam no ar, caíam como caem as sementes dos plátanos para o chão.
Como ela não falava cheguei a pensar que era muda. Tenho nesse quarto que fica no topo da construção uma mesa onde tomo as refeições da tarde. Nos dias limpos distiguiam-se os barcos de longo curso na linha do horizonte. Havia sempre sobre a mesa migalhas de pão que alimentavam um disciplinado carreiro de formigas. As formigas eram ali uma praga. E o vento que nunca parava.
Um dia em que me encontrava no jardim ela passou. O jardim tinha cactos e eu estava a varrer entre os cactos. Não se tem noção da matéria morta e dos restos de plantas secas que se acumulam entre as plantas de jardim, e ela viu-me. Quando passou de bicicleta olhou para mim e fez um aceno que continha toda a preversão do mundo. Nesse mesmo dia, horas mais tarde, entrou pelo jardim e pousou a bicicleta na gravilha que cobria o chão do caminho. Bateu à porta. Não me respondeu quando lhe perguntei o que pretendia. Ela nunca não me disse nada. Limitou-se a entrar como sempre fazia quando me visitava. Levou-me pela mão ao andar de cima, à janela de onde se podia ver o mar e a luz do Sol estampada na parede.
No quarto, por vezes, ela despia-se prepositadamente para que a visse. Debruçava-se sobre a mesa com as mão apoiadas. Afastava delicadamente as pernas e empinava o rabo na minha direcção. Ficava a olhar para ela. Não me permitia que lhe tocasse. Vestia-se e voltava pontualmente oito dias depois. E assim, continuamente, de oito em oito dias ela aparecia.

II
A luz que vem do mar é cálida e tem uma ponta de tristeza. Ilumina o meu quarto pelo recorte da janela que tem quase a largura da parede virada ao mar. Nos dias de temporal, o vento e a chuva fustigavam o vidro e impediam-me de dormir. O vento dali é como um lobo. É como um lobo uivado de raiva. Por vezes um cão, se o lobo do vento se encontra mais dócil. A falésia tem sempre vento, mesmo nos dias amenos. Chamava-lhe o cabo do vento.
O vento atravessava com facilidade a casa de uma ponta à outra se as portas abertas comunicassem entre si. O andar debaixo da casa, mais susceptível a correntes de ar, era composto por uma sala pintada de vermelho muito escuro a fazer lembrar uma habitação rural tirada de uma novela. Havia uma lareira e uma varanda, para lá de onde se adivinhava existir o mar. Mas do mar só se tinha a sua verdadeira dimensão visto do piso de cima. Sem aquilo que o vento trazia, e a forma como se ouvia, não se podia ali sentir o mar de outra forma. O mar comia lentamente a falésia e o farol dava disso sinal aos veleiros que passavam ao largo. Havia uma sala de refeições decorada de modo sóbrio e uma cozinha mesmo ao lado que se atravessava por uma porta.

III
A casa ficava no topo de uma falésia que se empinava no extremo de um caminho cuja distância era suficientemente grande para me sentir isolado. Na direcção da localidade existia um farol onde viveu o faroleiro e a sua irmã. Um dia soube que o faroleiro morreu num acidente no interior do farol. Quem mo disse foi a mulher da venda onde fazia as minhas compras. Contou-me o episódio do acidente repleto de detalhes coloridos. As pessoas fracas têm habitualmente dos outros muito que dizer para esconder a sua própria desgraça. E a mulher da venda era uma mulher infeliz. Usava dentes postiços que lhe dava um ar irreal. O marido não tinha melhor aspecto. Ele andava sempre atarefado e cheio de nódoas. parecia uma carocha atarefada com nódas. Arrumava com aprumo caixotes de madeira, desses que se usam para transportar a fruta. A venda era uma gruta infecta onde apodreciam hortícolas em conjunto com produtos de drogaria, perfumes e plásticos. Tinha duas vitrines e um manequim em cada uma delas que davam para a rua principal da localidade. Havia pó por todo o lado. E vento que levava o pó de um lado para o outro. Vendiam-se confecções que apelavam ser o último grito da moda, segundo papeis desenhados à mão. Ele estava sempre a falar de dinheiro. Ela dos casos amorosos das pessoas dali. Como se não houvesse amanhã, sabiam os dois muito de tudo da vida de toda a gente. Era ali que abatecia a minha dispensa de bolachas, conservas, compotas e massas. Ainda assim, vendiam um peixe de conversa de muito boa qualidade. Colocava tudo num caixote de madeira que ele me tinha dado. Pagava em dinheiro e saía em direcção ao carro conduzindo até casa. Ficava muitas vezes a pensar na vida dos outros pelas histórias que a mulher me contava. Lembro-me de levar dias inteiros a desfazer-me daquilo tudo que ficava a fervilhar na cabeça, a ocupar espaço.

IV
Hoje comecei a ler três livros diferentes e já os larguei a todos. Os últimos dias têm sido de alteridade emocional. Animei-me ao encontrar um livro que achava perdido. Ou que julguei tê-lo emprestado. Li dele trinta páginas, nem tanto. Coloquei-o em cima dos outros e ali estão ao vento. Está um livro sobre a praia de um escritor americano sobre os outros. Ali estão os livros, à espera do meu chá da tarde. Empilhados na varanda que se alcança da sala de onde se pensa poder existir uns metros mais à frente um abismo até ao mar. Uma casa imprópria para crianças, pensei. Caíriam ao mínimo descuido todas ao mar.

V
Ao fim de três ou quatro meses de solidão, ainda que voluntariamente imposta, sinto-me realmente entregue a mim mesmo. Levei tempo a perceber quanto a desejada solidão me incomodava. Levei tempo a entender este incómodo. Os passeios junto à falésia, enfiado dentro de um casaco de burel, ou quando o tempo o permite, nas praias rochosas à beira-mar têm o efeito de diluir esta sensação. Nos intervalos da melancolia comecei a trabalhar no que aqui me trouxe. Consegui finalmente juntar algumas as ideias umas sobre as outras. Propus-me a tecer uma ideia por dia para que tivesse ideias para os dias seguintes. Estas coisas acompanharam-me durante um certo tempo. O tempo feliz sem mais nada. A economia da felicidade esgota-se, contudo. Tenho aproveitado para respirar e até a dor no meu ombro direito não se tem manifestado tão crónica. Ouço a minha voz dentro de mim demasiadas vezes desde que me entreguei à solidão deste espaço sobre o mar.

VI
Na última visita que me fez ela trouxe uma câmara de fotografar e pediu-me que a fotografasse. Não falou como é hábito. Despiu-se à minha frente, sentou-se na mesa do quarto em contra-luz e abriu as pernas. Fotografei-a assim, de pernas totalmente abertas. Fotografei-a horas a fio e deixou-se fotografar com serenidade.

VII
As suas visitas e a solidão a que me submeti têm tomado conta da minha existência complexa. São como uma droga. Não sei boa se má. Um dia de Verão entrei pelo mar adentro e regressei. Estendi-me nos cascalho da praia aquecidos pelo Sol e adormeci. Acordei com a água da preia-mar a bater-me nos pés. Vi uma figura feminina que caminhava na minha direcção. Nesse dia pela primeira vez ela falou.

VIII
Um dia haverás de me contar aquilo que na verdade aconteceu. E ela baixou os olhos. Enterrou-os no corpo dele à altura do peito, depois, no fundo do prato da sopa. Um dia conto, e quase Sorriu. Ela já falava. Depois da morte do irmão ela começou a falar. Levantou-se para despejar na panela a sopa em que mal tocara durante o jantar. Um dia, disse ela, quando não houver mais nada para te dizer. Nesse dia conto o que aconteceu quando o meu irmão se precipitou no mar do cimo da lâmpada do farol. O sol desfazia-se em luz bordejando a parede vermelha no interior da casa. Seriam três da tarde, ou mesmo três e meia, talvez quatro, não sei ao certo as horas que eram. O tempo, assim iluminado pela luz que entra naquele ângulo, tornava-se, definitivamente, relativo.
A luz branda que inundava a casa no topo da falésia foi a luz que eu melhor conheci antes do vale. Passei muitas horas de profunda meditação na direcção do mar do alto do meu pequeno quarto que existia no alto da construção onde existia uma cama de madeira e uma pequena lareira protegia por uma porta de ferro, uma mesa onde me sentava a olhar o mar ou para tomar as minhas refeições em solidão. O papel azul do quarto tinha impressos motivos vegetais e, de um dos lados da cama, uma mesa de cabeceira que dormia um longo sono de Inverno. No tampo estava pousado um candeeiro sem graça onde se pendurava um interruptor em forma de banana. A esperança da luz desvanecia-se no horizonte que se tornava no azul-negre do fim do dia. Depois de tudo disto, há meses sem história na vida do ano, foi o que aconteceu. Fica-se quase imóvel, sem respirar. O coração bate mais devagar. Lento.

About JMGervásio

Sou pessoa alta, magra por criação, amante de velocípedes e de quase tudo que implique não fazer à segunda - quero dizer, sou do tipo espontâneo. Licenciado em altos estudos artísticos na ESBAP, tenho, desde lá, desenvolvido uma certa tendência para o comércio a retalho e agricultura de terraço. Possuo momentos de grande felicidade e civilidade que nem sempre são devidamente apreciados.

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