EU, O MEU UMBIGO E EU | Ou como o caso do encerramento da Figaro’s barbershop revela a estrutura ideológica do movimento hipster-trendy

Ao contrário do que prometem afinal “elas” podem entrar no Figaro’s barbershop

A acção realizada no Figaro’s barbershop, denunciando o sexismo com que se promovem no mercado, está a deixar os marialvas em pulgas. O deserto argumentativo, porém, é assolador, como se pode verificar na caixa de mensagens do post da Maria Carolina. Podiam, eventualmente, refugiar-se na ironia, essa que tudo permite sem grandes categorizações, mas a turba avança pelos sinuosos caminhos da ideologia. Fazem bem, que assim o debate ganha outra envergadura, mas não o deviam fazer sem ter o mundo das ideias minimamente testado. Incapazes de assumir seja o sarcasmo seja a táctica publicitária, fica mais ou menos claro que aquilo que pretendem com a desqualificação da mulher abaixo dos canídeos é mesmo uma declaração política ancorada no pior que o liberalismo tem dado: a sagração da propriedade privada, da famigerada “reserva ao direito de admissão” e do patriarcado.

É comovente o pouco que é preciso para tirar esta gente do armário. Uma dúzia de pessoas e uma performance errática bastam para que saiam do covil de paus em riste, prontos a afirmar a masculinidade que lhes sobra ao pente e à tesoura. Na rede, sem desdenharem o golpe publicitário, desvendam a agenda da tribo hipster-trendy que se resume numa linha: “temos a liberdade de fazer o que queremos”, ou ainda, e também numa linha: “aquele é um espaço privado logo fazemos nele o que queremos”. Nada mais equívoco e, note-se, um equivoco perigoso.

Em primeiro lugar porque um espaço comercial, apesar de “reservado o direito de admissão”, só o pode fazer se tal não violar a constituição, compilação legislativa de maior valor do que qualquer regulamento comercial. Como é bom de ver nenhuma loja pode assim discriminar ninguém com base no seu género, orientação sexual, religião ou cor de pele, por mais que esse fosse o desejo íntimo dos seus proprietários. Mulheres e homens podem reunir-se quando, como e onde bem entendem, mas os espaços comerciais são sujeitos à universalidade no que diz respeito ao seu acesso e o “reservado direito de admissão” só pode ser invocado para fazer cumprir a lei, não para a violar descaradamente. Uma criança não pode entrar se o espaço comercial for para adultos. Alguém cujo comportamento está alterado por razões psiquiátricas ou pelo abuso de álcool, idem. Essa benesse é dada aos proprietários para que eles não sejam vítimas, não para que eles possam exercer a exclusão.

Levar o argumento destas almas ao absurdo significava dizer que qualquer seita de malfeitores – ou apenas de idiotas – possa alugar o seu espaço, abrir portas, e aí praticar toda a espécie de atentados à liberdade dos outros. Das sevícias nazis às proibições segregacionista, não basta pagar licença para voltar atrás nos séculos. Podem ser vintage na roupa, nos chapéus, nos relógios, nas barbas, nos cabelos e na música e, pasmem, até podem ser vintage na cama, o que não podem é, a pretexto da liberdade, forçar quem passa na rua a aceitar que o gosto vintage de alguns sirva de pretexto para forçar todos os demais a voltar a viver nas cavernas.

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22 thoughts on “EU, O MEU UMBIGO E EU | Ou como o caso do encerramento da Figaro’s barbershop revela a estrutura ideológica do movimento hipster-trendy

  1. Bem dito!! Tenho essa imagem dos hipsters, que se fodam. Para além de chamar à atenção, a invasão também nos permitiu ver o estado civilizacional de muita gente e é triste. Mantenho que acho que isto não tem nenhuma utilidade para o feminismo e só gera mais resistências. Se fosse mulher ia lá com um camarada qualquer e insistiríamos em ficar, se negado chama-se a polícia e faz-se cumprir a lei, assim se calhar mais depressa se fechava aquilo.

  2. Sem prejuízo de vias argumentativas mais prolixas, e tendo visitado o site e o facebook da dita barbearia, torna-se claro que se trata de um estabelecimento comercial paneleiro-fascista. Uma curiosa cápsula micro-ideológica, diria…

    1. Teve sim!
      Muito, muito lixo… Mas algumas pérolas também…
      Por exemplo, soube que existem pelo menos dois bófias das internetes que sabem que eu sou uma gaja com barba e sem giletes em casa.
      Que fofuras, não?
      Presumo que frequentem o badalado antro e queriam me fazer inveja…
      Afinal, tenho barba mas como sou gaja não posso entrar…
      Não sei se sobrevivo..

      1. Se eu usasse os famosos xx, pelo menos a bófia não saberia que x Argala tem pila. Há pelo menos essa razão para usar o x.

        Eu até ia avisar a Leonor para não tentar mediar estes conflitos recorrendo à CRP. Uma vez também fui banido de entrar num estabelecimento por “não estar no dress code”. E não estou minimamente interessado em acrescentar mais um dispositivo ao art. 13.º a dizer “indumentária”. Tenho a clara sensação de que isto se resolve com uns balázios nos jagunços da porta e uma carta ao gerente. Porque se eles, por mero exemplo, não quiserem deixar entrar pretos – a razão será porque os pretos vêm mal vestidos e não porque são pretos.

        Está lá afixado que as mulheres não podem entrar? Se eu não tivesse pila, isso seria o maior convite para entrar.

        Mas a sério: é esta merda que mova paixões?!? 104 comentários?!?! Que depressão do caralho!!

  3. nem sequer conheço o espaço em questão e dei de caras com isto hoje e parece-me mais uma daquelas acções para “me dar a conhecer” nas redes sociais, por isso vamos cá puxar pela imaginação:
    – quantas das invasoras conhecia aquele espaço? provavelmente uma. a que um dia passou lá à porta e viu uma placa a dizer PROIBIDA A ENTRADA A MULHERES!!! e isso acicatou o seu espirito de “liberdade” com o qual contagiou todas as outras (acho que pelo meio também vi um outro. Seria?)
    – qual é o mal dos rapazes quererem diferenciar o espaço daquela forma? assim como assim eles não prestam serviços de cabeleireiro a mulheres, logo eles nunca lá iriam de qualquer forma, pelo que mal algum vem ao mundo por tal proibição.
    – esta é a que eu condeno. PORQUÊ A CARA TAPADA? porquê o refugio no anonimato (cobardia) de cobrir o rosto? Têm medo de represálias? SEJAM MULHERES! Muitas de vós devem ser mais Homem que muitos homens.
    Concluindo. este assunto para mim é um bocadinho como as touradas. não gosto, não compro bilhete, mudo de canal. não sou anti.
    Só espero é que não se lembrem de invadir o clube do bolinha. é que lá MENINA NÃO ENTRA.

  4. Em primeiro lugar, gostaria que espreitassem o link disponibilizado por um anónimo na secção de comentários do post da Maria Carolina:

    http://dirigivel.blogspot.pt/2014/10/menina-nao-entra.html

    Com um letreiro daqueles a porta, aquilo é obviamente uma casa de gente que não se manca…

    Mas depois de ler o relato da experiência pessoal na ligação acima disponibilizada, ocorreu-me que esta turma anda pelos vistos a brincar com fogo há já algum tempo, e têm tido sorte não lhes ter calhado um bravo a séria, que de repente vê-se num filme destes com a esposa e a filha bébé ao lado…

    E que por consequência, eventualmente concluiria, que a situação não poderia ficar sem uma resolução favorável a si e a sua familia.

    ‘Resolução favorável’ numa situação destas, pode ter significados bem distintos dependendo das mentes.
    E como se sabe, as possibilidades são imensas…

    Parece-me que os barbeiros andam as rifas.

    1. O que aí está descrito é razão pra fechar o pardieiro, tivesse o senhor chamado a PSP e aquilo fechava. Por isso acho que uma intervenção mais consequente teria sido como digo acima.

  5. Havia de ser bonito se, naqueles sítios onde só podem entrar senhoras, lá entrasem homens e fizessem algo parecido. Chamavam-lhes de trogloditas para cima.Digo eu.

  6. De certeza que o acesso às mulheres estava vedado? O cartaz aparenta ser apenas marketing, não para ser interpretado literalmente. Certamente, se lá aparecesse uma mulher interessada em fazer o buço, não iriam ser mal edicados e correr com ela, pois não?
    E se um tipo for a um cabeleireiro de senhoras (desses que não proíbem, apenas explicitam que é de senhoras!), será que o deixam entrar?
    Por mim, espero que se multipliquem estes locais com “espanta-gajas” nas vitrines. É bom poder contar com sítios em que um tipo pode ir sem correr o risco de ter de aturar conversas de gaja pseudo-feminista sem causa…..
    Ah, e os cães são sempre boa companhia!!!

  7. Geração bloguista é muito mais hipster (seja la isso o que for) do que uma barbearia, onde, como tu disseste (que eles disseram (E BEM)) entra quem eles querem. Qual é a cena de perderes o teu rico tempo a insurgires-te contra homens que apenas querem homens no seu espaço comercial? Se fossem mulheres, a quererem só mulheres no seu espaço comercial também reagirias assim?

  8. Eh caralho! Na posta da Maria Carolina há ali – e por aqui também – muito machola virtual, que na realidade deve viver tão pussy whipped que até dá dó. Típico! Com certeza compensam a porradinha (figurada ou literal) que levam das respectivas – mães/namoradas/esposas/amantes – na vida real com uma suposta virilidade que vomitam no ciberespaço. Não interessa sê-lo, interessa parecê-lo. Há que ter compaixão, coitados, vivem iludidos nos seus mundinhos de fantasia.
    Quanto ao estabelecimento em si, vaticino-lhe vida curta. Como qualquer outro “conceito” ou ideia de e para hipsters, sobreviverá apenas enquanto a moda o permitir. Até que surja uma nova tendência. Um fogo-fátuo, mais um empreendimento efémero, entre tantos outros. Enquanto isso, o feminismo por cá continuará. Vivo e de boa saúde.

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