Da servidão voluntária

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“Sinto-me uma privilegiada por ganhar 3€ à hora.”

598477_467135836661928_923257838_nÉtienne de La Boétie mostrou no séc. XVI que o verdadeiro segredo de toda a dominação é fazer participar os dominados na sua própria dominação. Eunice Casimiro, a funcionária ideal do Hipermercado Continente, poderia servir-nos aqui de caso de estudo para esse facto intemporal, já que parece atravessar todas as épocas e todas as sociedades, que é a escolha voluntária da servidão. Quando neste blog comenta (e com isso mostra ser verdadeira, rigorosa e exacta – muito obrigada Eunice!) uma denúncia anónima de abusos aos trabalhadores dos Hipermercados CONTINENTE, a simpática Eunice revela precisamente uma adoração perversa pela submissão – e é essa adoração que faz com que há milénios a exploração e os abusos se mantenham no epicentro das relações sociais:

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“Percebo perfeitamente que os meus superiores me dificultem a vida. É o papel deles…”

“Nunca fui muito de comentar estas coisas mas ao ver esta publicação (e cada um é livre de dizer aquilo que pensa) não pude deixar passar ‘em branco’. Sou trabalhadora do continente à ano e meio e muito sinceramente não me identifico com muitas coisas que aqui são descritas. Primeiro ponto, quando é comentado o facto de se ganhar 3€ à hora. Pois bem sinto-me uma privilegiada por tal, em primeiro por neste momento ter um trabalho, digno, de conseguir ganhar ‘o meu’ sem que tenha de ser sustentada pelos meus pais e 3€ não é assim uma ‘miséria’ quando comparado que muios enfermeiros ganham menos que isso e estão a lidar com vidas e andaram 4 anos (pelo menos) a estudar para tal. Relativamente à ‘esmola’ que é invocada, pois se ele é milionário é porque lutou para tal ou a vida correu lhe bem, a verdade é que dá emprego a milhares de pessoas. Segundo ponto, quem é que neste momento quer efectivar um trabalhador uma vez que o futuro das empresas é tão incerto? Terceiro ponto, tudo depende das pessoas que tens como lider, não podemos generalizar isso dessa maneira e a empresa tem um banco de horas onde as horas extraordinárias são gozadas posteriormente, caso não o façam contigo isso já é um assunto que tens de tratar com a tua chefe. E qual é a empresa que neste momento paga horas extraordinárias? Muito poucas e percebe-se porquê.. Quarto ponto, as horas do inventário são pagas! Quinto ponto, uma situação que tem de ser tratada apenas e só entre ti e a tua chefe. Sexto ponto, há um dress code e isso tem de ser cumprido. Quando se está a fazer atendimento ao público temos de estar o mais simples possiveis uma vez que não podemos ‘chocar’ o cliente. Para mim o piercing pode ser algo normal mas quando se faz atendimento ao publico tenho de deixar as minhas ideias de lado e seguir o dress code da empresa. Sétimo ponto, acho uma certa graça as pessoas pedirem para irem comer passado duas ou três horas de trabalho. Por favor, não conseguem aguentar 4horas sem comer? Têm de comer todos os dias à mesma hora, uma vez por outra, é perfeitamente normal, agora isso virar rotina, não concordo. E sinceramente percebo os superiores ao dificultarem a vida para sairem de caixa para irem comer algo, caso contrário toda a gente faria o que queria, há que haver bom senso! Último ponto, há momentos em que as supervisoras não têm ‘mãos a medir’ relativamente ao trabalho que têm e até se ‘esquecem’ do que um operador pediu à 2 minutos atrás.

Pois bem depois desta tua opinião, vou dar a minha, muito sinceramente dá a ideia que és uma pessoa que vai para ali (continente) trabalhar com o intuito de ganhares os teus 260€ (que deve ser mais porque ainda tens subsidio de domingo, ferias, subsidio de alimentação, etc etc) e nada mais, pois bem isso irá reflectir-se ao longo do teu contrato. Queres que te efectivem? Pois então tens de fazer sacrificios, todas as pessoas em todos os paises têm de fazer sacrificios e não é só em Portugal. Dá a ideia que não gostas daquilo que fazes e se não gostas, então não terás sucesso na área, para se fazer atendimento ao público é preciso saber fazê-lo e gostar daquilo que se gosta. Sou licenciada e não estou a trabalhar directamente na minha área mas gosto realmente daquilo que faço e isso é ‘meio caminho andado’ para o sucesso pessoal e profissional. Não se queixem tanto e fiquem felizes por terem trabalho.” Eunice Casimiro

MissaoSorriso

Mas não deixemos de recordar aqui também a intemporal obra do grande escritor francês:

“Incrível coisa é ver o povo, uma vez subjugado, cair em tão profundo esquecimento da liberdade que não desperta nem a recupera; (…) a princípio, serve com constrangimento e pela força; mas os que vêm depois, como não conhecem a liberdade nem sabem o que ela seja, servem sem esforço e fazem de boamente o que os seus antepassados tinham feito por obrigação.” Étienne de La Boétie

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

6 thoughts on “Da servidão voluntária

  1. Este depoimento faz-me lembrar uma aluna que gostava da praxe e dizia “eu tenho o direito de querer ser humilhada”.
    Perante isto, o que se pode dizer?
    Talvez que “tu” possas querer ter esses direito, mas que “eu” prefiro ter o direito de não me humilharem.
    Prefiro pensar que as pessoas que se dizem privilegiadas por fazerem parte de um sistema que em nada as poupa ou valoriza, queiram dizer outra coisa e não estejam a utilizar as palavras certas.
    Vou hoje pensar assim.

  2. Acho que nem vale a pena indignarmo-nos com a conversa desta pobre imbecil. Cãezinhos amestrados não faltam por aí. Cá por mim evito por todos os meios respirar o mesmo ar que eles.
    Ocupemo-nos daquilo que importa, indiferentes a estes (irrecuperáveis) sabujos.

  3. Além de ter cara de cavalo, esta lambe-cús tem carreira garantida lá dentro e brevemente vai chegar a capataz. É só estratégia meus senhores.

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