Têm que ser todos os de baixo a proteger-se dos de cima

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A resposta à repressão e ao racismo da polícia que intervém na Cova da Moura teve ontem uma resposta à altura (ver notícias na TVI e no Público). Com toda a esquerda a responder ao chamado, também a extra-parlamentar, os moradores deste bairro protestaram na Assembleia da República e foram mesmo recebidos pelo BE e pelo PCP. Hoje, os polícias que fizeram o que fizeram na esquadra de Alfragide e os polícias que estão incumbidos de espalhar o medo nos bairros, estão menos capazes do que estavam antes da manifestação de ontem. A razão para isso parece-me clara. Além da capacidade dos moradores se organizarem, algo que é condição para a defesa dos seus direitos, é qualitativo que as fronteiras do protesto tenham transbordado o terreno social do bairro e tenha sido capaz de mobilizar muitos cidadãos que não vivendo na Cova da Moura não aceitam como natural aquilo que lá se tem passado. É por isso mesmo que a última frase do comunicado do Socialismo Revolucionário (que expressa também a postura de vários outros grupos presentes) não faz grande sentido. Quem está mais exposto à segregação, à fobia, sejam eles de natureza racial ou comportamental, não se bastam a si próprios. De resto, como quase nenhum sector em luta, nem mesmo o sindical onde o músculo para ferir a economia é bem maior. Esta ideia de que tudo se compartimenta, que cada um deve lutar pelas suas causas directas, reforça a ideia que a resistência, em todas as suas variações, é capaz de vencer continuando um arquipélago de lutas sem contiguidade. Os de baixo têm que unir esforços, todos os esforços. Sejam eles negros ou brancos, operários ou estudantes, homens ou mulheres.

Fotografias da manifestação na Plataforma Gueto

10 thoughts on “Têm que ser todos os de baixo a proteger-se dos de cima

  1. Sinceramente parece-me uma estrapulação desonesta.

    Onde se diz que a luta e organização dos negros deve ser feita isolada. Apela-se apenas à sua organização e auto-defesa, pois ninguém o fará por eles se não o fizeram em primeiro lugar. Foi da Cova da Moura, de uma assembleia 90% (ou mais) negra que surgiu a mobilização, e surgiu de forma não isolada, apelando a acolhendo a participação de todos “os de baixo”.

    Faz aqui o mesmo erro que em relação à questão da Mulher. Sabemos que ambos, “negros” e “mulheres” são construções sociais, tal como as nacionalidades. No entanto, existem, negá-las é apenas fechar os olhos para a realidade, é ter uma visão tosca da realidade, é negar a dialéctica.

    Quando é que os brancos, e os homens, vieram em defesa dos negros e mulheres sem que estes dessem os primeiros passos na sua luta? Não têm eles o direito, como grupo social que sofre opressões específicas, que homens brancos, mesmo que proletários, não sentem, à uma forma de organização autónoma para combater tais opressões. Que essa organização deve ser feito como parte integrante da luta geral do proletariado, parte das suas organizações, é outra conversa, acho que devem, o Socialismo Revolucionário também. Mas não essa a questão tratada no panfleto.

    Sabemos perfeitamente a luta contra o racismo, tal como contra o machismo, tem de ser feita por todos os proletários e oprimidos, é nesse sentido aliás que vai a proposta prática que se lê nesse panfleto.

    Os negros precisam da solidariedade militante de todos nós, trabalhadores brancos, não precisa é de desonestidade intelectual.

    1. “Sabemos perfeitamente a luta contra o racismo, tal como contra o machismo, tem de ser feita por todos os proletários e oprimidos, é nesse sentido aliás que vai a proposta prática que se lê nesse panfleto.”

      É de facto assim. E se é de facto assim a desonestidade é dizer o seu contrário.
      Abraço

      1. Mas onde está dito o seu contrário?

        Deixo no entanto aqui um comentário que deixei no Facebook.

        «Gonçalo Romeiro Ao comentário que deixei no blog, só tenho a acrescentar isto: o foco talvez devesse estar mais na questão de classe e não na identitária, farei a auto-crítica nesse aspecto. Apesar da estrapulação continuar a existir no artigo do Menor.
        3 h · Gosto · 3»

      2. Que parte de “associações e sindicatos” é que não está clara?

        Os trabalhadores negros devem proteger-se da violência racista que sofrem, sim, e devem organizar-se também sobre esse eixo.

        A que esquerda assusta essa organização…?

  2. Obviamente que «os de baixo têm que unir esforços, todos os esforços». Apesar do modismo dos «de baixo» falamos em proletários e pobres a quem, sistematicamente, ao longo de muitos anos, lhes sopram aos ouvidos, «ensinam» e aconselham… »tenham cuidado, não se exponham… que a gente trata disso…” Esta decisão democrática de um bairro africano rema contra a lógica dos «cavaleiros andantes» e das «construções de lideranças» de fora para dentro. A minha aliança com eles, já como trabalhador estou também sujeito à repressão policial, ao terrorismo oficial da classe dominante, é o de apoiar e incentivar a sua auto-organização e ao rompimento da tutela académica que aos longo dos anos manteve a ideia do «coma e cala» que a gente protesta.
    Sim, têm de ser os negros a protegerem-se.
    Como as outras minorias nacionais, como os proletários e demais trabalhadores. E por isso mesmo propomos a Comissão Independente de Inquérito que faça a ponte entre os guetos (que são o que são os bairros pobres) e a cidade não pelos gabinetes parlamentares, mas também, porque não?, mas pelas organizações de moradores, de direitos humanos, anti-racistas, Sindicatos e personalidades.
    para começar a controlar democraticamente as forças de segurança e os seus mandantes nestas coisas.
    E quanto a isto, que pensas?

      1. Tu talvez não sejas, mas e o proletário curdo? O catalão? O basco? Continuas a falhar a questão. Essa já foi mais que esclarecida nesta discussão, pelo Ysmail, pelo Francisco e pela Joana.

        Deixo o link: https://www.facebook.com/renatoteixeira1979/posts/942609182424826?comment_id=942655545753523&notif_t=like

        O “internacionalismo” quadrado de Rosa Luxemburgo em relação à questão nacional está mais que desmontada por Lenine, ela na prática acabava por defender o privilégio da nacionalidade opressora.

        Tu fazes o mesmo em relação aos negros, com simplificações do tipo “todos os de baixo, são todos os de baixo” ou “os proletários não são uma minoria nacional”, os trabalhadores negros sofrem opressões que os brancos não, eles devem estar à frente dessa luta, não os brancos, estes devem ser solidários, e simplificar a realidade dos negros e da sua luta, é precisamente o contrário de solidariedade.

  3. Pronto, provavelmente foi uma questão de pontuação:
    Sim, têm de ser os negros a protegerem-se.
    Como as outras minorias nacionais.
    Como [todos] os proletários e demais trabalhadores.

    o [todos] é para deixar claro que negros e minorias nacionais são maioritários proletários.

    Esclarecido?

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