Mensagem de Atenas

A seguinte mensagem foi-me enviada de Atenas por um amigo grego que a endereçou a vários amigos estrangeiros (traduzida do castelhano por mim):

Olá! Como estão?

Espero que estejam bem. Apenas escrevi brevemente o que penso acerca do que está a acontecer agora na Grécia, já que há muito interesse sobre o que aqui se passa e esse interesse forma justamente parte dos acontecimentos… Aguardo que tudo isto não seja apenas uma boa notícia, um espectáculo, uma luz que se apagará inevitavelmente, mas uma esperança real para todos nós. Bom, na Grécia, muita gente, eu incluído, tem a sensação que atravessamos – e não só: vivemos – um período histórico. O que se passa agora e aqui é expressado, incorporado e liderado pelo Syriza, mas atravessa toda a sociedade.

Há aspectos importantes que apontam para trás: a tradição democrática com, mais ou menos, o mesmo sentido da democracia popular de Espanha, aquela que Franco atacou, existia já na Grécia. Dela surgiu um movimento que lutou na Guerra contra os nazis. Através de múltiplas lutas e derrotas, começando com a guerra civil grega, esse movimento, com a sua herança, os seus mortos, exilados, torturados, sobreviveu na memória e na acção da resistência. Mas, a partir dos anos 80, o neoliberalismo cultural começa a apagar memórias e a formar consciências graças à sua hegemonia absoluta. Não obstante, nos últimos anos, com a crise, essa memória despertou e tomou muitas formas, desde a solidariedade diária até às batalhas nas ruas.

O Syriza, que pretende apresentar-se como forma política que expressa aquele património supostamente perdido no caos cínico de hoje, logra tomar o poder baseado não apenas nessa tradição mas também nas contradições do capitalismo. O primeiro acto político de Tsipras como primeiro ministro, um dia após as eleições, foi prestar homenagem, num monumento esquecido (pelos que estavam no poder), aos mortos comunistas durante a luta contra os fascistas. Um acto, permitam-me dizer, que por um caleidoscópio simboliza com múltiplos sentidos que a história continua, que ela não terminou em nenhum lugar. (Nunca o fará…)

Desde então, tudo parece inquietantemente ideal. São gente da nossa geração, Tsipras apenas tem 40 anos; a maioria deles não são burocratas mas artistas, filósofos ou académicos. O espírito de dignidade e solidariedade que já existia na resistência está agora apoiado no poder. Também há uma sensação de que são ‘nossos’, já que muitos deles pertencem às amplas redes sociais que cada um de nós possui pessoalmente. Existe, dizemos, uma forma de afinidade. Logo, existe algo que nunca sentimos: há confiança nas suas intenções. De tal forma que na quarta-feira terá lugar algo que nunca aconteceu cá, uma manifestação para apoiar um governo… Nesse dia, há uma reunião do Eurogroup, um desses aparatos do poder ilegítimo da União Europeia, o que não há é confiança no futuro. Por bem ou por mal, vem a hora decisiva, como dizia Althusser (o filósofo mais admirado pelo ministro da educação), quando todas as decisões as toma, no último momento, a economia.

P.S. Tenho a impressão que tudo isto parece um pouco cândido. Talvez seja. Tenho também muitas outras opiniões que aqui não partilhei convosco. Esperemos que chegue a hora quando possamos criticar o governo, pressioná-lo para mudanças mais decisivas, mais libertárias. Até então, não me quero queixar, mas aproveitar todas as oportunidades para ser optimista! Por fim!

Beijos infinitos

XX 

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

2 thoughts on “Mensagem de Atenas

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