Entre duas pessoas sem razão, uma tem sempre menos razão que outra

Alex Solis

Não tenho por hábito meter o bedelho entre uma boa troca de galhetas, mas não resisto a dizer duas ou três coisas sobre a que Ana Gomes e Isabel Moreira têm protagonizado. A razão é simples. Sendo que nenhuma das duas tem razão nos dois aspectos centrais do debate – Ana Gomes só se preocupa com os direitos humanos dos governos do qual não faz parte e Isabel Moreira porque deixa que a sua idolatria ao Direito menospreze o potencial das escutas – o salamaleque permite deixar algumas coisas claras, nomeadamente que uma tem menos razão que outra.

Diga-se o que disser sobre as preocupações relativamente à privacidade – que não me são estranhas – a verdade é que com mais ou menos asco as escutas têm permitido que a justiça dê um ar da sua graça – não só caso que deu origem à polémica mas também no dos vistos Gold – ainda que, verdade seja dita, as consequências tardam em corresponder à dimensão dos escândalos. As mesmas escutas permitiram igualmente que vários outros casos fossem expostos, ainda que todos eles com consequências judiciais bem diferentes. Essa dualidade irrita, e bem, Isabel Moreira, mas não lhe dá razão sobre a sua utilidade. Exagerando a polémica seria como dizer que mais vale investigação nenhuma a uma má investigação.

European Commission President Barroso shakes hands with Libya's leader Gaddafi before a dinner at the G8 summit in L'AquilatransferirAna Gomes, por outro lado, tem sido exemplar a sacudir a água do capote da parte da responsabilidade que cabe aos vários governos do PS que integrou e representou em Bruxelas. De resto, a dualidade de critérios de Ana Gomes já foi exposta com o brilhantismo com que Pablo Iglesias nos tem habituado, quando lhe lembrou que Kadafi passou a ser também “o seu filho da puta”, depois das loas cantadas durante décadas, como de resto a sua Internacional Socialista também fez relativamente a Ali ou Mubarak, na Tunísia e no Egipto. É curioso que a verve de Ana Gomes sobre qualquer que seja o tema seja sempre determinada pelo envolvimento do PS. Algo que ela fala com horror não importa nada se esse mesmo horror tiver sido interpretado por si e pelos seus.

Polémica à parte uma última nota verdadeiramente inqualificável. Confrontada com o seu duplo critério, a deputada vitalícia Ana Gomes dispara sobre as responsabilidades de Isabel Moreira por ter sido, algures na vida, assessora de Luís Amado. Equiparar as suas responsabilidades às de alguém cuja profissão é a assessoria é tão abjecto como revelador. Mal comparado seria como responsabilizar um trabalhador precário de uma cadeia de fast-food pela obesidade infantil ou um garimpeiro pela desertificação da Amazónia, omitindo em qualquer dos casos, com toda a intenção e demagogia, os verdadeiros responsáveis por qualquer uma das calamidades. A responsabilidade de um funcionário em nenhum caso é comparável ao de alguém que ocupa um cargo político, nem mesmo quando se trata de um soldado raso cujo tiro foi disparado por ordem superior. Ao funcionário não se lhe dá imunidade, mas quando o dedo em riste é apontado na sua direcção pelo decisor há que desconfiar da bonomia.

2 thoughts on “Entre duas pessoas sem razão, uma tem sempre menos razão que outra

    1. Um assessor é um cargo de confiança profissional. “Não se lhe dá imunidade”, precisamente por ter implicações políticas, mas não é equiparável a um cargo político como uma eurodeputada ou ministro.

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