Entrevista a Yann Renoult

Sniper
Yann Renoult, “la bataille pour Shengal”

Yann Renoult é professor de matemática em França e dedica-se, nos intervalos da sua profissão, ao foto-jornalismo. Os seus trabalhos podem ser vistos no flickr, e visam sobretudo a compreensão das complexidades do médio-oriente, com destaque para o Kurdistão e a Palestina.

H: Da tua experiência qual é a tua leitura do que se passa no Kurdistão?

YR: Desde o inicio da guerra civil na Síria e, aquilo que não ouvimos falar muito, é que as grandes mobilizações civis no inicio da guerra ocorreram também e em larga escala no território Curdo e que aliás foi nessas zonas que os primeiros tiros eclodiram. Quando a guerra armada começou, houve brigadas que se criaram em todo o território. No Curdistão Sírio, que corresponde quase a toda a região norte da Síria que faz fronteira com a Turquia, em 19 de Julho de 2012 para ser preciso, vimos pela primeira vez aparecerem forças armadas curdas, o YPG/YPJ, que foram treinadas pelas forças do PKK e que conseguiram libertar Kobané das autoridades Sírias. É uma das razões pelas quais o Estado Islâmico tinha um interesse especial em apropriar-se dela, porque simbolicamente foi a primeira cidade síria a ser controlada e administrada pelos curdos. Portanto desde Julho 2012 até mais ou menos Outubro 2013 os curdos tiveram controlo da sua região, o exército do regime retirou-se, não de forma pacífica claro, mas recuaram. As milícias pro-governamentais ainda combatem contra os curdos, mas não houve propriamente uma guerra porque Assad tinha várias frentes a criarem-se por todos os lados, o exército sírio livre que ainda combatia na altura, os islamistas… Ter os curdos como terceira frente era dispersar-se muito, para além de serem uma ameaça bastante maior do que o exército livre. Da parte dos curdos também não havia um grande interesse de entrarem em combate, mesmo se militarmente eles têm um bom treino militar, na altura eles não tinham ainda muitos combatentes. Ou seja, dos dois lados houve uma decisão pragmática em decidir não interferir muito. Os curdos tomaram poder da sua região, inicialmente começaram a administrar através de associações da sociedade civil que se reagruparam numa plataforma, intitulada TEV-DEM (Movimento da Sociedade Democrática), tendo como objectivo tratar de vários sectores sociais, feminismo, ecologia, saúde, cultura, educação, sob a “égide” ideológica de Abdullah Öcalan.

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Yann Renoult, “YPJ : kurdish female fighters in Syria”

H: Tendo em conta que falas de Öcalan, podes explicar-nos as relações entre o PKK e o YPG?

YR: O PKK é um movimento político do Curdistão, com um braço armado de guerrilha, que é principalmente instalado no Curdistão turco. Depois há várias ramificações nos vários países. No Irão por exemplo chama-se o PJAK e em Syrie le YPG/YPJ que segue uma mesma ideologia que o PKK, uma ideologia que secriou a partir de uma base marxista, misturando-as com ideias libertárias e adaptando-se ao contexto do médio oriente. Cada um destes movimentos tem uma vertente política e outra armada. Assim na Síria existe o YPD para a vertente política e o YPG/YPJ para o braço armado. Como o PKK tinha uma mais longa experiência na Turquia, os quadros políticos da Síria foram formados pelo PKK. Militarmente alguns combatentes do PKK passaram a fronteira para apoiar os Curdos Sírios. Antes da guerra, alguns desses soldados sírios iam ao Curdistão Turco formar-se. Os curdos recusaram-se a aliar-se ao exército sírio livre, principalmente porque estes estavam próximos do governo turco, recusando a ideia da autonomia curda. Recusando-se igualmente a aliar-se ao regime de Assad que nega igualmente a autonomia curda. Eles chamam assim a sua solução a terceira via. A partir de dia 21 de Janeiro 2013 declararam autónoma a região kurda, três regiões: Jazira; Kobane (nordeste de Alep) e Afrin (noroeste de Alep). Em cada uma destas regiões criaram uma administração autónoma, sob a forma de um confederalismo democrático, ou seja, onde cada comunidade é representada e onde cada uma tem a sua autonomia sem qualquer hierarquia. Estas comunidades são os curdos, os árabes, os cristãos, os syriaques, entre outras. Criaram também um parlamento, se fizermos uma analogia com o que se passa aqui, onde se decidem as leis, onde se decide a estratégia política, criando uma espécie de governo, mas separando-o das forças de segurança. Desde 21 de Janeiro de 2013 eles tentam organizar-se sob esta base e essencialmente de baixo para cima. Como a ideia é que cada comunidade tenha a sua independência há três línguas oficiais: o curdo, o árabe e o syriaque. Cada ata do parlamento é redigida nestas três línguas. Tentam assim trabalhar juntos de maneira a oferecerem à população condições de vida corretas.

H: Qual a sustentabilidade económica do Curdistão Sírio?

YR: Os curdos relançaram a produção de petróleo, a refinaria de petróleo, o que lhes permite uma subsistência interna. É necessário dizer que o Curdistão sofreu durante muito tempo um bloqueio económico, mas ao mesmo tempo é um território bastante rico em recursos naturais, mas claro em tempo de guerra o custo de vida é elevadíssimo. Antes de Kobane pouca gente sabia o que se passava, depois Kobane houve uma grande mobilização nos países ocidentais o que fez pressão para que estes países começassem a negociar com os curdos. A indiferença ocidental em relação à situação curda devia-se a dois aspectos: a Turquia não suporta o facto que forças próximas do PKK tomassem o poder na Síria e o facto do Curdistão iraquiano, cujo governo é ultra liberal com apoio dos ocidentais, recusava também o poder do PKK na Síria. Houve mesma a crítica dos curdos se terem aliado ao regime de Assad, mas o facto é que continuam a haver duas frentes de combate entre os curdos e as forças do regime, e entre os curdos e o Estado Islâmico. Ainda assim o combate principal faz-se contra os jihadistas do Estado Islâmico que rodeiam todas as regiões curdas, ajudando o facto destes se encontrarem no extremo oposto em termos de projecto político. Para o Estado islâmico é importante aniquilar os curdos, por um lado, por causa do simbolismo político, por outro porque uma grande parte do petróleo sírio encontra-se nesta região. O Estado islâmico faz  business.

Prière
Yann, Renoult: “Syrie, les damnés de l’or noir”

H: Como fazem os curdos sírios relativamente ao tratamento do petróleo?

YR: No Curdistão Sírio existem por todo o lado jazidas de petróleo. Por trás delas estão os businessman que vendem o petróleo a quem der dinheiro. As autoridades curdas não têm meios para bloquear esses interesses. Fiz uma reportagem fotográfica sobre uma dessas jazidas, no sul de Girke Lege, onde o petróleo é tratado sur place, mas apenas existe uma refinaria oficial, portanto esse petróleo é tratado por quem? Por habitantes árabes que habitam actualmente entre a linha da frente de combate entre os curdos e o Estado Islâmico, que perderam o trabalho e que não têm outra solução a não ser trabalhar nesta refinaria ilegal. Em resumo são grandes fornos em metal onde queimam o petróleo, é um horror em termos de condição de trabalho, uma vez que eles passam os dias todos imersos naquele fumo negro. Os trabalhadores dizem claramente, se eles param o trabalho morrem de fome, uma vez que não têm nenhum outro tipo de recurso, se eles continuam a trabalhar naquele sítio irão morrer em três anos com um cancro ou outro tipo de doença. Estas pessoas tiram o petróleo bruto, queimam-no e fazem gasolina, mazut e gás para o consumo local: Curdistão Sírio mas também para as forças do regime e do Estado islâmico. Os businessman que comercializam o petróleo apenas têm uma religião: o dinheiro, como aliás acontece em todo o lado.

H: O Curdistão está bastante isolado economicamente, socialmente, militarmente, como perspectivas o cenário no futuro?

YR: A coligação curda, nomeadamente através da situação de Kobane, conseguiu obter apoio internacional e principalmente é um apoio militar para Kobane, sob forma de bombardeio aéreos e indirectamente pelo Curdistão iraquiano que os ajuda, embora este seja reduzido pelo facto dos curdos sírios não estarem na mesma via política do governo curdo iraquiano. Economicamente houve uma via aberta entre Curdistão iraquiano e sírio, não de ajuda humanitária mas mais de materiais de construção. Aliás vemos bastantes casas em construção no Curdistão sírio, eles conseguiram segurar bem a região. Para além de Damasco o Curdistão sírio deve ser uma das zonas mais segura. No que diz respeito ao futuro, penso que o apoio militar cessará quando o Estado Islâmico desaparecer, politicamente acho que é às forças de esquerda mundiais de apoiarem o projecto e a lógica social em construção para que eles não se encontrem face a um Curdistão iraquiano ultra-liberal que lhes venha impor o seu sistema político e ideológico.

Paris, Janeiro de 2015

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