Capitalismo, escravatura e lixo humano – SEJAM BEM VINDOS A 2015!

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Estima-se que, muito brevemente, o 1% mais rico da humanidade possuirá tanta riqueza como todo o resto da população mundial. Um novo estudo (que pecará seguramente por defeito) sobre as desigualdades planetárias conclui que “a parte do património mundial detida pelo 1% mais rico passou de 44% em 2009 para 48% em 2014 e ultrapassará os 50% em 2016”.  Mas o dado mais espantoso do estudo é o que revela que as 80 pessoas mais ricas partilham a mesma quantidade de riqueza que os 3,5 mil milhões mais pobres.

Ou seja, hoje há OITENTA pessoas que detêm tantos recursos como METADE da população mundial. Doravante, será possível reunir em duas ou três mesas de uma sala não muito grande de um discreto hotel nos Alpes austríacos ou suíços ou em redor da piscina de um super-iate ao largo da Côte d’Azur, TODA a elite que se tornou literalmente detentora do único planeta com vida conhecido.

No entanto, o panorama de 99% de escravos assalariados a servir dedicadamente o 1% mais rico, como donas de casa que esfregam servilmente no interior da sanita a merda dos patrões (panorama que até nem seria assim tão mau bem vistas as circunstâncias actuais), já nem sequer é viável, ao contrário do que parece pensar toda a esquerda. É que praticamente metade desses 99% é composta por ‘desempregados’ (alguns temporários, a maioria permanente), lixo humano que a moderna organização da economia (mecanização-automatização-numerização-deslocalização) pela primeira vez na história priva de acesso à escravatura laboral. A racionalização, eficiência e alta produtividade do capitalismo tornam inúteis e supérfluos, em todos os países do mundo, centenas de milhões de trabalhadores. Em consequência, o trabalho (a transformação de energia humana em dinheiro, a produção de mais-valia apropriada pelo capital) tornou-se um bem escasso, representando hoje um privilégio pelo qual batalha toda uma geração de jovens indignados pela escassez de oportunidades que o sistema lhes dá.

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Dirigida por uma cúpula de bilionários (que, desde há umas décadas, reúne periódica e secretamente para coordenar estratégias e exercer lobbying sobre os estados), a economia da sociedade democrática prescinde de quase metade da população mundial, o tal lixo humano, que deixou sequer de servir de “exército industrial de reserva”, enquanto outra metade luta pela manutenção a qualquer preço do privilégio que hoje representa um posto precário no seio da exploração laboral.

Este é o maior paradoxo que a democracia moderna enfrenta na chegada a 2015: enquanto regime que teoricamente representa os interesses do povo, sustenta na prática um modelo económico que o exclui barbaramente e, quando não exclui, coloca em acesa disputa pelo acesso a um salário. Para lá da luta de classes habitual, a democracia capitalista, assente no princípio sagrado da concorrência, estende agora a luta social ao próprio seio de cada classe: dominantes contra dominantes por maior concentração de poder e fortuna, dominados contra dominados por um mísero posto no seio da escravatura laboral. Quem ainda consegue vender, na maioria das vezes a preço de saldo, a sua força de trabalho fá-lo sempre em detrimento do seu vizinho, de um primo ou do próprio pai (cuja idade retirou eficiência à força de trabalho), tornados supérfluos pela racionalização da economia e atirados para uma cada vez maior lixeira humana onde vai parar todo aquele que deixou de conseguir ser explorado. O capitalismo das democracias industriais geridas pelas elites políticas da direita ou da esquerda multiplica assim a exclusão e a miséria a um ritmo nunca antes visto. Um único dado estatístico bastaria para confirmá-lo: hoje, cerca de um sexto da população mundial habita em favelas, o habitat por excelência onde se despeja todo o lixo humano que do ponto de vista do capital já não serve para absolutamente nada.

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A esta luz não custa muito perceber porque é que uma geração inteira de jovens não tem outra ambição que não seja tornarem-se escravos ao serviço do império de um qualquer bilionário – na área financeira, da distribuição, da indústria automóvel, das telecomunicações, da farmácia, da agroindústria, dos combustíveis, do armamento, dos cuidados de saúde, da biotecnologia, das seguradoras… De terrível pesadelo, a precariedade laboral passa agora, quase instantaneamente, a sonho tacanho da maior parte da humanidade. Um pouco por toda a parte, pais educam filhos (‘investem na educação’, como hoje se diz – sendo que deixou de haver ‘educação’, académica ou outra, que não esteja subordinada às exigências do mercado) para que estes aprendam a ajustar-se ao papel de zombies da produção de mercadorias e para que se convertam na mão-de-obra mais abusada, resignada e submissa da história recente.

O retorno do feudalismo, com o regresso massificado do trabalho servil e da concentração da propriedade, encontra agora uma nova aldeia por cenário: a democrática aldeia global, onde quatro ou cinco dúzias de Senhores monopolizam e repartem entre si a quase totalidade dos recursos.

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Neste blog, tenho explorado a ideia controversa de que há um genocídio social em curso, que se traduz na quebra espantosa na taxa de natalidade da maioria da população (que no entanto não priva os ricos de formarem famílias numerosas). Quem ambiciona ser escravo do mundo laboral, suportando todo o desprezo que este mundo revela pela humanidade dos trabalhadores, deve abdicar de viver, mesmo nos capítulos mais elementares da vida biológica, como procriar ou simplesmente foder sem o ecoar constante do tiquetaque do relógio na mente, a anunciar a imagem madrugadora da próxima jornada de trabalho, tornando inadiáveis o orgasmo e o sono que lhe sucede.

Em suma, o capitalismo trouxe-nos a uma bifurcação onde, se tivermos a ‘sorte’ de poder virar à esquerda, nos deparamos com a escravatura laboral e a sua administração repressiva e fordista de seres humanos tornados material humano; e, virando à direita, deparamo-nos com uma monstruosa lixeira humana onde os seres humanos são privados de quaisquer recursos económicos e completamente abandonados à sua sorte e à caridade cristã. Neste apartheid social, a escravatura laboral torna-se um privilégio – no interior do regime actual deixou de haver outra forma de nos ligarmos à economia.

Sejam bem vindos a 2015!

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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